
“É um lugar”, disse Clark numa tentativa em vão de explicar o que tinha descoberto, ou o que haveria de descobrir.
Todas as paredes assemelham-se, os corredores são infinitos e fundem-se nos nossos olhos e parece que caminhamos em direção ao nada, mas com a sensação de que ainda há muito por descobrir. O ambiente é denso, o cheiro penetrante e a luz florescente causa em nós uma dor de cabeça avassaladora. Conhecemos este lugar? Já lá estivemos? Sonhamos com ele se calhar? Tudo o que nos é estranho é-nos igualmente sedutor, são noções que caminham lado a lado ora mais afastadas ora mais próximas, mas sempre presentes e em cumplicidade. Tudo aquilo que nos perturba e assusta, também nos acolhe e nos incita a continuar.
Antes de mais é importante perceber o que são os Backrooms. Tudo começou com uma publicação anónima em 2019 num fórum online. Um utilizador publicou uma foto de um local com paredes amarelas, um local que produziu um sentimento de estranheza e lembrança e, apartir daí, outras pessoas partilharam fotos que transmitiam a mesma sensação.
Em 2022, Kane Parsons, um jovem segundo ele mesmo não muito entusiasta da sétima arte, inspirou-se nessas imagens que vagueavam pelos fóruns e produziu curtas-metragens para o Youtube, que culminaram em milhões de visualizações. Mais tarde, surgiu “Backrooms – O Labirinto”, já com a qualidade a que o grande ecrã nos habituou, dirigido por Parsons e escrito por Will Soodik, baseado nas curtas-metragens e inspirado na famosa creepypasta que se tornou um fenômeno global da internet. Com apenas 20 anos Kane Parsons saiu do Youtube e estreou-se no mundo do cinema já com o apoio da A24, a produtora responsável por filmes como Hereditary, Midsommar, Marty Supreme e muitos outros.
No filme a personagem principal é Clark, um homem deprimido que administra uma loja de móveis praticamente falida e abandonada. A sua rotina é monótona e os seus dias esfumam-se uns nos outros até que descobre, no último andar da loja, uma fenda desconhecida que o leva a um lugar nunca visto. Um espaço totalmente amarelo, corredores e salas vazias, móveis espalhados pelo caminho e sons que se alternam entre distantes e próximos. Ao mesmo tempo que fica perturbado não consegue esconder o fascínio que sente por aquele lugar, os backrooms assemelham-se cada vez mais a uma versão decadente e desconfortável da nossa realidade. Na minha opinião é uma analogia ao labirinto que os nossos pensamentos são, a prisão da nossa mente que nos manipula de tal modo até ao momento em que estamos confortáveis e familiarizados com aquela realidade.
“Backrooms – O Labirinto” mantém do início ao fim uma narrativa densa, desconfortável e áspera. A grande força deste filme está na descoberta e na sensação constante de que aquilo que vemos é estranho, mas pode ficar ainda mais. Parsons sabe que o medo nasce do silêncio e da sensação de estarmos perdidos num lugar que não parece ter fim e usa-o a seu favor. O filme foge um pouco à receita tradicional, aqui existem menos explicações e é dado mais enfase à experiência sensorial que o espectador sente. A câmara é lenta e observacional, o espaço é desenhado, propositalmente, de modo a criar uma atmosfera opressiva, isolada e desorientada. Não esperamos sustos previsíveis, na verdade a nossa mente é que assume esse papel. Esperamos por algo sem saber o que é, cerramos mais os olhos, tentamos tapar os ouvidos quando a música se faz sentir, mas muitas vezes nada acontece e é nessa espectativa e ansiedade que Parsons nosquer colocar e neste ponto o jovem acertou em cheio.
O filme é um produto que nasce da reciclagem de uma cultura digital alimentada pelas novas gerações. Apesar de algumas críticas afirmarem que o trabalho de Parsons não é, no seu esplendor, uma produção com uma sensibilidade artística necessariamente cinematográfica e ligada a um estilo próprio. É antes uma junção, consciente e intencional ou não, de outras obras e artistas e o que sobra é uma relação de causa e efeito com a forma como a informação tem sido replicada na era da internet. Não deixa, contudo, de nos entregar um roteiro com temas interessantes relacionados à solidão, ao medo do desconhecido e às próprias inquietações da vida moderna. Para muitos foi uma ideia criativa, um universo rico em simbolismos, mas com uma execução pouco aprofundada e um final demasiado aberto, ou seja, o seu potencial é maior do que a execução materializou.
Apesar das divergências nas opiniões vale ressaltar, uma vez mais, que o filme foi dirigido por um jovem de 20 anos com poucas ligações ao cinema, mas com uma ideia inicial fantástica. A proposta foi ousada e contribuiu numa experiência peculiar, “Backrooms – O Labirinto” mostra, acima de tudo, que o silêncio ensurdecedor pode ser mais aterrorizante do que sustos inesperados e que a simbiose constante entre aquilo que vemos e aquilo que não vemos, mas imaginamos que possa existir pode ser mais assustador do que qualquer criatura mística.
Diana Silva