Perdeu-se o interesse pelas coisas.
É verdade. Nos dias de hoje, se algo não for capitalizado, se não der frutos visíveis aos olhos alheios, então é uma perda de tempo (tempo esse que poderia estar a ser utilizado para algo que rendesse monetariamente ou que, no futuro, nos ajude a ganhar mais).
E este padrão vai desde uma simples escolha de passatempos à decisão de um curso na universidade.
O que aconteceu ao gostar de fazer algo, por mim, só porque sim? O que aconteceu ao ocupar o tempo sem ter de pensar em tirar um proveito posterior dessas horas?
O que aconteceu ao interesse genuíno pelas coisas?
Parece que, de repente, tudo aquilo que nos propomos a fazer vem com um contrato vitalício.
Hoje em dia, penso que, por exemplo, apenas uma pequena percentagem das pessoas conseguiu estudar o que realmente lhe interessa. Não olhou a vagas de emprego futuras, a números no salário, a algum prestígio associado à carreira, … apenas gostou de uma área e escolheu aprofundar-se nesse assunto.
No meio da licenciatura, aparecem oportunidades, palestras, workshops, formações, que muitas vezes só têm aderentes “porque vai para o currículo”. Mas lá está, o que aconteceu ao interesse genuíno pelas coisas? O que aconteceu ao participar porque realmente interessa? O que aconteceu ao ir a uma aula porque a matéria é importante enquanto conhecimento, e não porque tenho de ir?
Vou tirar este curso, porque vi que no futuro posso ter uma grande saída profissional.
Vou agora a esta formação, porque é mais um diploma que posso adicionar ao meu CV.
Comprei este livro, porque me mostra como ser rico e bem-sucedido.
Vou aprender artesanato e assim posso criar uma lojinha e vender coisas.
Quero estagiar ali, porque no currículo fica sempre bem.
E esta lista continua.
Agora eu pergunto: tu realmente queres fazer essas coisas? É algo que verdadeiramente te satisfaça?
O que aconteceu a ocupar uma tarde com um assunto que apenas dure durante essa tarde? Ler uma estória que até me desperte curiosidade (e não “desenvolvimento pessoal”), fazer um top em croché porque me pareceu giro (não como ideia de negócio), aprender uma língua porque estou entediada (não como uma competência), estudar um assunto super específico que é de pouco interesse geral… Por que tudo agora tem de ser favorável daqui a 10 anos?
Vivemos num mundo capitalista, e ter dinheiro é uma necessidade. Precisamos de comer e de ter um teto por cima das nossas cabeças, e nem todos temos o privilégio de arriscar uma carreira ou de desistir assim que o interesse desvanece.
Mas o ponto em que quero tocar é nos momentos mortos que utilizamos para satisfazer a nossa alma. Quando finalmente temos tempo para o ocupar com algo que nos dê uma alegria momentânea.
Talvez trocar uma tarde passada num lugar onde estás apenas para acrescentar uma linha ao CV por um interesse verdadeiramente teu faça mais por ti. Sabes, algo que aproveites. Que te embeleze a existência.
Por favor, enquanto sociedade, não troquemos aquele tempinho que temos apenas para nós por algo que talvez até valha a pena se alguém, numa entrevista de emprego daqui a 7 anos, achar minimamente pertinente.
Acredita, eu entendo a necessidade de fazer várias coisas que nos poderão distinguir numa vaga futuramente, mas não deixemos que o “domingo” (como quem diz “um momento de folga”) tenha também de ser rentável.
É imprescindível o lembrete de que o nosso descanso do mundo (não necessariamente o descanso do corpo) não precisa de uma justificação de utilidade, nem de ser vivido como um investimento capitalista.
Iara Pinto