A transição para o ensino superior constitui uma etapa marcante no desenvolvimento de muitos jovens adultos, caracterizada por novas exigências académicas, sociais e psicológicas. Este período implica uma maior responsabilidade, adaptação a novos contextos e pressões relacionadas com o desempenho académico e expetativas internas e externas. Embora a experiência universitária possa promover o crescimento pessoal e intelectual, também pode representar uma fonte significativa de stress psicológico quando os estudantes apresentam dificuldades em gerir essas exigências (Credé & Niehorster, 2012; Stallman, 2010). De facto, a vida universitária envolve frequentemente múltiplas pressões, como calendários intensos de avaliações, prazos rigorosos e expetativas de sucesso pessoal e social, cuja combinação pode aumentar os níveis de stresse, ansiedade e sobrecarga emocional, sobretudo quando os estudantes percecionam dificuldades em corresponder às expetativas (Beiter et al., 2015; Misra& McKean, 2000).
Neste contexto, a entrada na universidade implica ainda uma maior autonomia e responsabilidade na gestão do tempo, organização do estudo e tomada de decisões académicas e profissionais. Embora esta autonomia favoreça a independência, pode também gerar insegurança quando faltam competências de autorregulação. Paralelamente, a integração em novos contextos académicos e sociais torna-se fundamental, sendo as redes de apoio entre pares um fator importante para a adaptação (Credé & Niehorster, 2012; Pascarella & Terenzini, 2005). Assim, a adaptação psicológica e académica depende de fatores como competências de coping, autorregulação, apoio social e perceção de autoeficácia académica. Estudantes com melhores estratégias de gestão do stresse e organização do estudo tendem a apresentar maior sucesso académico e melhor ajustamento (Baker & Siryk, 1984; Credé & Niehorster, 2012). Apesar dos desafios, como dificuldades na gestão do tempo, ansiedade associada à avaliação e sentimentos de isolamento, a experiência universitária pode constituir uma oportunidade de crescimento psicológico. Neste sentido, a promoção do bem-estar e a disponibilização de serviços de apoio psicológico nas instituições de ensino superior são, por isso, essenciais para facilitar a adaptação e prevenir o insucesso académico (Stallman, 2010).
Entre os desafios mais frequentes no contexto académico destaca-se a procrastinação académica, frequentemente associada a um desempenho académico mais baixo, aumento do stresse e pior bem-estar físico e psicológico (Asikainen et al., 2024). A procrastinação pode ser entendida como uma falha na autorregulação (discrepância entre as intenções de um indivíduo e a capacidade de organizar e realizar as suas ações), sendo a capacidade de gestão do tempo uma das principais dificuldades. Assim, fatores como a motivação, a autorregulação e as estratégias de aprendizagem são os mais relevantes, uma vez que podem ser trabalhados (Asikainen et al., 2024).
Destes desafios, a autoeficácia académica, baseada na teoria social cognitiva de Bandura, refere-se à crença de uma pessoa nas suas capacidades para concluir uma tarefa com sucesso e ter um bom desempenho académico (Armum & Chellappan, 2016; Asakereh & Yousofi, 2018; Kristensen et al., 2023). Esta variável constitui um elemento essencial para o bem-estar psicológico, funcionando como mediador da motivação, da saúde mental e do sucesso académico(Armum & Chellappan, 2016; Asakereh & Yousofi, 2018). Por outro lado, níveis reduzidos de autoeficácia têm sido associados a maior stresse académico e sofrimento psicológico, incluindo sentimentos de ansiedade e desesperança, comprometendo a capacidade de lidar com as exigências académicas (Asakereh & Yousofi, 2018; Kristensen et al., 2023).
Para além dos fatores individuais, os stressoresacadémicos podem emergir de múltiplas fontes, incluindo a perceção de elevada carga de trabalho, expectativas pessoais de desempenho ou influências externas, como as atitudes de pais e professores (Zimmer-Gembeck et al., 2023). Neste sentido, o contexto familiar têm sido frequentemente descritos como uma fonte principal no desenvolvimento das estratégias de coping. Um ambiente caracterizado por comunicação positiva, apoio e encorajamento tende a promover respostas adaptativas, enquanto contextos marcados por rejeição ou hostilidade podem favorecer estratégias menos eficazes (Zimmer-Gembeck et al., 2023).
Adicionalmente, os estudantes passam muito tempo na escola e frequentemente comparam o seu desempenho académico com o dos colegas. Essas comparações sociais geram emoções intensas e podem ter objetivos como avaliação do próprio desempenho, melhoria pessoal ou reforço da autoestima. Algumas emoções podem ter um efeito positivo (inspiração, admiração e orgulho), enquanto outras podem ter um efeito contrário (inveja, vergonha, ressentimento, preocupação, medo) (Yu & Chun, 2024). Estudos mostram que o stresse académico tem impacto no sofrimento psicológico (Kristensen et al., 2023; Steare et al., 2023). A crescente pressão para alcançar um bom desempenho académico e o maior foco em avaliações padronizadas são acompanhados por experiências negativas associadas ao facto de ser avaliado, afetando negativamente a saúde dos jovens (Kristensen etal., 2023). Segundo uma revisão teórica de Steare et al. (2023) o stress associado à pressão académica pode levar a um aumento do risco de depressão, ansiedade, ansiedade misturada com depressão, automutilação não suicida, tentativas de suicídio, ideação suicida (pensamentos ou planos) e até mesmo suicídio.
Neste seguimento, estudos recentes apontam para níveis elevados de stress académico, que se correlacionam com sentimentos de sobrecarga, preocupações constantes com avaliações e medo do fracasso. Esta pressão tem sido identificada como um preditor robusto de pior saúde mental entre estudantes universitários, manifestando-se como ansiedade, tensão e sintomas depressivos moderados a severos (Córdova et al., 2023). Além disso, a investigação mostra que a qualidade do sono vai piorando em períodos de maior exigência académica (ex.: semanas com frequências ou exames), sendo que a menor duração e pior qualidade do sono estão associadas a níveis mais elevados de stress percebido e, consequentemente, a níveis mais altos de burnout académico (Zakiei et al., 2025). Estes processos manifestam-se, frequentemente, em ansiedade relacionada com o desempenho, que pode incluir sintomas cognitivos (medos de avaliação) e somáticos (tensão muscular, dificuldade de concentração); a exaustão emocional e burnout, com perda de motivação e desconexão emocional da atividade académica; o impacto no sono, incluindo insónia ou sono fragmentado e a baixa motivação e diminuição do bem-estar global, refletindo uma interação entre stresse, sono insuficiente e respostas emocionais adversas (Benítez-Agudelo et al., 2025).
Perante este cenário, existem alguns fatores que potenciam a elevação do risco de sofrimento psicológico entre estudantes, incluindo a sobrecarga académica, dificuldades financeiras, falta de conexões sociais adequadas e a baixa perceção de competência (Krisnawanet al., 2025). Por outro lado, fatores como o suporte social (de colegas, família e docentes), as competências de autorregulação emocional e os ambientes académicos inclusivos desempenham um papel protetor (Krisnawan etal., 2025).
Para tentar combater estas situações existem várias estratégias práticas capazes de melhorar o bem-estar psicológico. A gestão eficaz do tempo é uma delas, através de um planeamento estruturado, segmentação de tarefas e definição de metas realistas. O estabelecimento de prioridades realistas, ou seja, definir o que é urgente e importante evita a sobrecarga e promove um ritmo sustentável de trabalho e por último existem competências de autorregulação emocional (Sarwer et al., 2025). Equilibrar as diversas áreas da vida, como o estudo, descanso, atividades sociais e lazer é fundamental para reduzir o impacto psicológico adverso da vida universitária. E com isso, o sono tem uma extrema relevância associada, ou seja, o sono insuficiente ou de má qualidade não só intensifica o stress percebido, como também prejudica a recuperação emocional e compromete a atenção e a memória (Sarwer et al., 2025). As atividades de lazer e componentes sociais são igualmente essenciais, contribuindo para uma recuperação cognitiva e emocional, reforço de redes de apoio e aumento do bem-estar subjetivo.
Para além das estratégias individuais, o contexto institucional desempenha um papel crucial no bem-estar dos estudantes, promovendo um maior envolvimento. Para isso, serviços de apoio psicológico universitários podem ajudar a reduzir sintomas de ansiedade e burnout. Os programas de promoção de bem-estar que integrem mindfulness, treino de resiliência e educação emocional têm evidência crescente de eficácia e aceitação estudantil. E as políticas institucionais sensíveis à saúde mental, incluindo revisão de cargas de trabalho, flexibilização de prazos em situações de vulnerabilidade e formação docente sobre sinais de risco, são recomendadas para criar ambientes académicos sustentáveis e saudáveis (Benítez-Agudelo et al., 2025; Córdova et al., 2023).
Em síntese, a vida universitária proporciona oportunidades de crescimento académico e pessoal, mas também representa um período de vulnerabilidade psicológica associado a stress, ansiedade, problemas de sono e burnout académico. Contudo, fatores de proteção como o suporte social e as competências de autorregulação, bem como as estratégias individuais e políticas institucionais de apoio, podem atenuar esses impactos. Uma abordagem integrada, que combine práticas de autocuidado com recursos institucionais robustos, é essencial para promover a saúde mental e o sucesso académico sustentável entre os estudantes universitários.
Referências
Asakereh, A., & Yousofi, N. (2018). Reflective thinking, self-efficacy, self-esteem and academic achievement of Iranian EFL students. International Journal of Educational Psychology, 7(1), 68–89.https://doi.org/10.17583/ijep.2018.2896
Asikainen, H., Hailikari, T., & Katajavuori, N. (2024). Explaining the changes in procrastination in an ACT-based course: Psychological flexibility and time and effort management as mediators. Frontiers in Psychology, 15, 1331205.https://doi.org/10.3389/fpsyg.2024.1331205
Armum, P., & Chellappan, K. (2016). Social and emotional self-efficacy of adolescents: Measured and analysed interdependencies within and across academic achievement level. International Journal of Adolescence and Youth, 21(3), 279–288.https://doi.org/10.1080/02673843.2015.1067894
Baker, R. W., & Siryk, B. (1984). Measuring adjustment to college. Journal of Counseling Psychology, 31(2), 179–189. https://doi.org/10.1037/0022-0167.31.2.179
Beiter, R., Nash, R., McCrady, M., Rhoades, D., Linscomb, M., Clarahan, M., & Sammut, S. (2015). The prevalence and correlates of depression, anxiety, and stress in a sample of college students. Journal of Affective Disorders, 173, 90–96.https://doi.org/10.1016/j.jad.2014.10.054
Benítez-Agudelo, J. C., Restrepo, D., Navarro-Jimenez, E., et al. (2025). Longitudinal effects of stress in an academic context on psychological well-being, physiological markers, health behaviors, and academic performance in university students. BMC Psychology, 13, 753. https://doi.org/10.1186/s40359-025-03041-z
Córdova Olivera, P., Gasser Gordillo, P., Naranjo Mejía, H., La Fuente Taborga, I., Grajeda Chacón, A., & Sanjinés Unzueta, A. (2023). Academic stress as a predictor of mental health in university students. Cogent Education, 10(2).https://doi.org/10.1080/2331186X.2023.2232686
Credé, M., & Niehorster, S. (2012). Adjustment to college as measured by the Student Adaptation to College Questionnaire: A quantitative review of its structure and relationships with correlates and consequences. Educational Psychology Review, 24(1), 133–165.https://doi.org/10.1007/s10648-011-9184-5
Krisnawan, M. A., ‘Aziizah, R. F. N., Pandin, M. G. R., & Hisyam, M. (2025). Factors influencing burnout among university students: Systematic review and synthesis (2020–2025). Preprints.https://doi.org/10.20944/preprints202512.2828.v1
Kristensen, S. M., Larsen, T. M. B., Urke, H. B., & Danielsen, A. G. (2023). Academic stress, academic self-efficacy, and psychological distress: A moderated mediation of within-person effects. Journal of Youth and Adolescence, 52, 1512–1529.https://doi.org/10.1007/s10964-023-01770-1
Misra, R., & McKean, M. (2000). College students’ academic stress and its relation to their anxiety, time management, and leisure satisfaction. American Journal of Health Studies, 16(1), 41–51.
Pascarella, E. T., & Terenzini, P. T. (2005). How college affects students: A third decade of research (Vol. 2). Jossey-Bass.
Sarwer, S., Abid, M. N., Chao, H., et al. (2025). Examining the impact of positive psychological attributes on emotional stability and academic burnout among undergraduate students: A cross-sectional study. BMC Psychology, 13, 614.https://doi.org/10.1186/s40359-025-02880-0
Stallman, H. M. (2010). Psychological distress in university students: A comparison with general population data. Australian Psychologist, 45(4), 249–257. https://doi.org/10.1080/00050067.2010.482109
Steare, T., Munoz, C. G., Sullivan, A., & Lewis, G. (2023). The association between academic pressure and adolescent mental health problems: A systematic review. Journal of Affective Disorders, 339, 302–317.https://doi.org/10.1016/j.jad.2023.07.028
Yu, H., & Chun, H. (2024). Achievement goal orientation and academic social comparison emotions in competitive learning environments: Latent profile analysis approach. Environment and Social Psychology, 9(8), 2827.https://doi.org/10.59429/esp.v9i8.2827
Zakiei, A., Khazaie, H., Azadi, M., et al. (2025). The mechanism of sleep quality’s effect on academic burnout: Examining the mediating role of perceived stress. BMC Medical Education, 25, 1018.https://doi.org/10.1186/s12909-025-07617-6
Zimmer-Gembeck, M. J., Skinner, E. A., Scott, R. A., Ryan, K. M., Hawes, T., Gardner, A. A., & Duffy, A. L. (2023). Parental support and adolescents’ coping with academic stressors: A longitudinal study of parents’ influence beyond academic pressure and achievement. Journal of Youth and Adolescence, 52, 2464–2479. https://doi.org/10.1007/s10964-023-01864-w
Autoria: NUPSI
Imagem: Érica Oliveira