Kristin não veio sozinha neste violento comboio de tempestades que assolou Portugal, ao longo da passada semana. Harry, Ingrid e Joseph também não quiseram ficar de fora e não perderam a carruagem com destino a Portugal. Vieram a todo vapor e o IPMA já veio a público referir que Kristin ficará para a História como a “tempestade mais forte” de que há registo em território nacional.
O governo português, na sequência dos danos causados pela tempestade e do risco extremo de cheias nos próximos dias, decidiu prolongar o estado de calamidade até ao próximo dia 8 de fevereiro. Entre acusações de que a atuação do governo foi tardia e o rasto de destruição deixado pela tempestade, os portugueses fazem agora contas à vida.
Não vos escrevo para escrutinar a atuação do Governo ou para avaliar a força da Mãe Natureza, mas antes para refletir sobre algo que nos une a todos — a inquietude face ao sofrimento do outro. Nunca estamos prontos para enfrentar uma situação destas, apesar do dever de estarmos. É uma utopia imaginarmos que conseguimos estar preparados para enfrentar a força da natureza, na sua forma tão crua e impiedosa. Gabamo-nos de ter a melhor das casas, o melhor carro, o melhor calçado ou, em termos mais gerais, a melhor saúde e a confiança inabalável de que conseguimos enfrentar tudo e todos. “Venha quem vier. Estarei pronto.”, pensamos nós. E bem. Contudo, de um momento para o outro, tudo desaba como um castelo de cartas. Tudo aquilo que pensávamos ser certo e sabido desmorona e ficamos à deriva no mar tumultuoso.
Ninguém está preparado a nível individual, mas as pessoas têm uma resiliência muitas vezes impressionante. Perante o caos que as circunda, arregaçam as mangas e fazem uma nova vida. Aquela que é possível, nas condições que se tem. O leitor poderá pensar: “Bom…Que remédio têm elas em fazer-se à vida”. Concordo plenamente. A questão é que possuímos uma coragem e uma perseverança e que, essas sim, são inabaláveis.
“Depois da tempestade, vem a bonança” — e, com uma força ímpar, as ajudas começaram a ganhar forma. Os portugueses não conseguiram ficar parados ao ver o seu conterrâneo sofrer. No momento em que estou a escrever este artigo, multiplicam-se os vídeos nas redes sociais a oferecer canais de ajuda, milhares de pessoas publicam e apelam a donativos de telhas e lonas para proteger os seus telhados, o Governo anunciou um pacote que ascende aos 2,5 mil milhões de euros para combater uma tempestade nunca antes vista. O povo une-se. Mostramos, outra e outra vez, que somos feitos da mesma farinha, do mesmo barro.
Apesar das nossas diferenças, há algo que não muda e que nem pode mudar: o cuidado para com o outro, a sensibilidade que nos torna humanos, a certeza de que juntos somos mais fortes.
Tiago Delgado