Primeiro ano na universidade: os desafios psicológicos de começar de novo

Primeiro ano na universidade: os desafios psicológicos de começar de novo

A entrada no ensino superior representa uma importante fase de transição na vida dos jovens. Mais do que uma mudança de instituição de ensino, o início da universidade implica alterações académicas, sociais e pessoais que exigem um processo de adaptação (Braun et al., 2024). O estudante é confrontado com um ambiente novo, diferentes métodos de ensino, maiores responsabilidades e a necessidade de desenvolver uma maior autonomia. Para muitos, esta mudança coincide também com a saída de casa, o afastamento da família e a construção de novas relações interpessoais. Assim, o primeiro ano universitário pode ser entendido como um período de transformação que ultrapassa a dimensão académica e envolve também o desenvolvimento psicológico e social do indivíduo.

A literatura considera a adaptação ao ensino superior um processo multidimensional, que envolve, entre outras dimensões, a adaptação académica, social e pessoal-emocional (Purnamasari et al., 2022). O modo como cada estudante vive esta transição depende não apenas das exigências do novo contexto, mas também dos seus recursos pessoais e das condições que o rodeiam. Por isso, embora o primeiro ano possa representar uma oportunidade de crescimento, autonomia e desenvolvimento pessoal, pode igualmente constituir um período de maior vulnerabilidade psicológica.

Começar a universidade significa, para muitos estudantes, lidar pela primeira vez com um elevado grau de incerteza. Não conhecer os professores, os colegas, os métodos de avaliação ou as exigências do curso pode gerar preocupação relativamente à capacidade de responder adequadamente às novas situações. A transição para o ensino superior tem sido associada a níveis relevantes de stress e ansiedade, particularmente devido ao aumento das exigências académicas, à necessidade de adaptação a um ambiente desconhecido e às mudanças nas relações interpessoais (Purnamasari et al., 2022; Kritikou & Giovazolias, 2022).

Além das exigências académicas, a mudança de rotinas pode constituir outro desafio. A universidade exige frequentemente que o estudante organize de forma mais autónoma o seu tempo, concilie estudo e vida pessoal e desenvolva novas estratégias para responder às responsabilidades quotidianas. Para estudantes deslocados, estas mudanças podem ser ainda mais significativas. Deste modo, o stress associado à entrada na universidade não resulta necessariamente de um único acontecimento, mas da acumulação de várias mudanças que obrigam o estudante a reorganizar a sua vida e a adaptar-se a novas exigências.

É importante, contudo, distinguir uma reação de stress ou ansiedade perante uma mudança significativa de um problema psicológico. Sentir alguma insegurança, preocupação ou nervosismo durante as primeiras semanas pode fazer parte de um processo normal de adaptação. A adaptação implica precisamente aprender a lidar progressivamente com as novas exigências, desenvolver estratégias de coping, estabelecer novas rotinas e adquirir maior confiança no novo contexto (Kritikou & Giovazolias, 2022). Quando existem recursos pessoais e contextuais adequados, como apoio social, informação e oportunidades de integração, estes podem facilitar esse processo e contribuir para o bem-estar do estudante (Gonçalves & Almeida, 2024). 

Assim, o primeiro ano universitário não deve ser encarado apenas como um período de dificuldades, mas como uma fase de ajustamento e desenvolvimento. A forma como o estudante lida com a mudança pode influenciar a sua experiência académica e emocional, tornando fundamental compreender também o papel da pressão académica, das relações sociais, do sentimento de pertença e da construção da identidade ao longo desta transição.

Um estudo recente realizado com estudantes universitários portugueses destaca a exploração da identidade como uma das características centrais desta fase. A identidade não é entendida como algo completamente definido, mas como um processo dinâmico de exploração, reflexão e construção, influenciado tanto pelas características individuais como pelos contextos sociais e culturais em que o jovem está inserido (Żyłkiewicz-Płońska & Coimbra, 2024).

A entrada na universidade pode, assim, levar o estudante a questionar algumas das referências que anteriormente estruturavam a sua vida. A mudança de escola, de cidade, de grupo de amigos ou até de ambiente familiar cria oportunidades para experimentar novos papéis, valores, relações e formas de estar, contribuindo para a construção de uma identidade mais autónoma. A investigação sobre estudantes universitários mostra que o desenvolvimento da identidade durante a idade adulta emergente está associado ao ajustamento psicológico, sendo particularmente importante o equilíbrio entre explorar diferentes possibilidades e assumir compromissos relativamente às escolhas realizadas (Sánchez-Queija et al., 2024).

Paralelamente à construção da identidade, o primeiro ano universitário implica frequentemente um aumento significativo da autonomia. O estudante passa a ter de organizar o seu próprio tempo, estabelecer prioridades, gerir responsabilidades académicas e pessoais e tomar decisões com menor supervisão externa.

Esta autonomia, contudo, não surge automaticamente com a entrada na universidade. Um estudo longitudinal sobre estudantes do primeiro ano demonstrou que a forma como estes compreendem e experienciam a autonomia varia ao longo do ano e é influenciada pelas suas experiências individuais. Ou seja, ser autónomo não significa simplesmente ter liberdade, mas aprender progressivamente a utilizar essa liberdade para orientar o próprio comportamento e tomar decisões (Ding & Yu, 2022).

Esta mudança pode ser psicologicamente exigente. O estudante deixa de ter uma estrutura tão definida como aquela a que estava habituado no ensino secundário e passa a ser responsável por grande parte da organização da sua vida. Estudos com estudantes do primeiro ano mostram que este aumento da autonomia pode ser acompanhado por dificuldades de autorregulação, gestão do tempo, motivação e estabelecimento de rotinas (Eberle & Hobrecht, 2021; Rienties et al., 2024).

A transição para a universidade é um momento crucial de mudança na vida dos jovens (Richardson et al., 2024). Durante o primeiro ano, os estudantes precisam de estabelecer novas relações sociais e criar novas amizades. Sendo esta uma preocupação predominante e um aspeto crucial para apoiar o ajustamento socioemocional à universidade para aumentar a motivação académica e para ajudar os estudantes a concluir o primeiro ano com sucesso (Brouwer & Engels, 2021).

Este período constitui também uma fase de desenvolvimento crucial, tornando-se um contexto relevante para examinar o sentimento de pertença dos estudantes (Van Der Zanden et al., 2026). Os amigos podem ser particularmente importantes na universidade para ajudar os indivíduos a atingirem os seus objetivos sociais e académicos, estabelecendo simultaneamente um sentido de pertença mais profundo ao ambiente universitário (Leon et al., 2024). 

Contudo, a literatura recente sugere também que este período pode ser acompanhado por um aumento da solidão, associado a níveis mais elevados de ansiedade e depressão entre os estudantes. A solidão e a rejeição aparecem como dimensões centrais da adaptação social, sobretudo quando os jovens perdem redes anteriores, ainda não conseguem criar novas ligações e sentem que não pertencem ao novo contexto  (Richardson et al., 2024). 

A solidão não resulta apenas de estar fisicamente sozinho, mas da perceção de que a quantidade ou a qualidade das relações disponíveis não responde às necessidades sociais do estudante. A perceção de rejeição pode surgir quando o estudante sente que não é reconhecido, aceite ou integrado no grupo, o que favorece o isolamento social (Leon et al., 2024). 

A literatura também sugere que a rejeição nem sempre é explícita; muitas vezes aparece como dificuldade em encontrar o seu lugar ou em identificar-se com os colegas. Ambientes de ensino caracterizados por grandes grupos podem dificultar a criação de conexões sociais, contribuindo para que alguns estudantes experienciem maior isolamento ou solidão (Worsley et al., 2021).

O primeiro ano universitário constitui uma fase de transição que envolve mudanças significativas na vida dos estudantes, podendo representar simultaneamente um período de exigência e de desenvolvimento. A forma como esta experiência é vivenciada resulta da interação entre as características individuais e as condições do contexto académico e social.

Deste modo, compreender a entrada no ensino superior implica considerar não apenas as exigências académicas, mas também o processo de integração do estudante num novo contexto de vida. O sucesso desta transição não deve, por isso, ser avaliado exclusivamente pelo desempenho académico, mas também pelo bem-estar e pelo desenvolvimento pessoal que acompanham esta etapa. Assim, “começar de novo” pode ser entendido não apenas como um desafio, mas como uma oportunidade de crescimento e de construção de novas formas de participação e autonomia no ensino superior.

Núcleo de Estudantes de Psicologia

Primeiro ano na universidade: os desafios psicológicos de começar de novo