Jogo de Poder – Um Mundial, muitas fronteiras: quando a política entra em campo

Jogo de Poder – Um Mundial, muitas fronteiras: quando a política entra em campo

Antes da bola começar a rolar, já havia quem tivesse perdido. Um árbitro impedido de entrar no país, uma seleção condicionada por vistos e tensões militares, um gesto transformado numa polémica mundial e adeptos afastados pelos preços dos bilhetes. O Mundial de 2026 prometia unir o planeta através do futebol, mas rapidamente mostrou que nem todos entram no estádio, ou no país nas mesmas condições. Dentro das quatro linhas, as regras parecem simples: há faltas, cartões, golos e decisões do VAR. Fora delas, o jogo é muito mais desigual. Entram em campo a política migratória, o racismo, os conflitos internacionais, os símbolos extremistas e o poder económico. E neste Mundial, algumas das histórias mais importantes começaram muito antes do apito inicial.

 Num mundial espera-se que o árbitro seja julgado pelas decisões que toma em campo, se viu a falta, se marcou pênalti, ou se vai ao VAR e deixa todos os adeptos a sofrer. Mas no caso de Omar Abdulkadir Artan, arbitro somali, o jogo acabou antes mesmo de ele pisar no relvado. Quando Artan chegou ao aeroporto de Miami vindo de Istambul, foi impedido de entrar nos Estados Unidos. A autoridade da fronteira norte-americana disse que ele era “inadmissível” por questões de verificação e segurança. Falou ainda em alegadas ligações a pessoas suspeitas de pertencerem a organizações terroristas, mas esses detalhes não foram apresentados publicamente de forma clara. A Federação Somali disse que não recebeu uma explicação oficial satisfatória. O caso torna-se ainda mais sensível por envolver os Estados Unidos, um país com uma longa história de racismo institucional e com políticas migratórias frequentemente criticadas pelo tratamento desigual dado a pessoas vindas de países africanos, árabes ou de maioria muçulmana. Omar Artan não era apenas um árbitro, era um homem africano, somali e muçulmano a tentar entrar num país onde estas identidades podem carregar suspeitas antes mesmo de qualquer explicação. No fim, Omar Artan não perdeu o Mundial por ter apitado mal. Perdeu-o antes do apito inicial. E talvez seja isso que torna esta história tão forte, num torneio que promete juntar o mundo, um árbitro ficou à porta porque o mundo afinal, continua cheio de fronteiras. Contudo a FIFA comprometeu-se a pagar-lhe a remuneração completa do Mundial.

 Enquanto as outras seleções preocupavam-se apenas com a preparação desportiva, o Irão teve de ultrapassar obstáculos muito além das quatro linhas. Tensões diplomáticas, dificuldades na obtenção de vistos, mudanças de planos e um conflito militar com os Estados Unidos fizeram com que a participação iraniana no Mundial 2026 só fosse praticamente garantida nos últimos dias antes da estreia. A entrada do Irão nos Estados Unidos só foi possível quando a guerra deu lugar à diplomacia, o acordo de paz entre Washington e Teerão permitiu finalmente à seleção iraniana chegar aos Estados Unidos, depois de semanas instalada em Tijuana, no México, o que terá como consequência uma exigente logística de deslocações entre os dois países, com o Irão obrigado a percorrer milhares de quilômetros para disputar cada jogo da fase de grupos do Mundial. As dificuldades estenderam-se também à entrada nos Estados Unidos com vários membros da comitiva iraniana a ter os pedidos de visto inicialmente recusados pelas autoridades norte-americanas. Algumas decisões acabaram por ser revertidas, permitindo a entrada de elementos importantes da equipa técnica, mas nem todos receberam luz verde para viajar. Nem os adeptos escaparam aos constrangimentos, devido às restrições impostas à entrada de cidadãos iranianos nos Estados Unidos, muitos ficaram impedidos de acompanhar a seleção no Mundial. A Federação Iraniana revelou ainda que vários lotes de bilhetes reservados aos seus apoiantes foram cancelados. O avançado iraniano Mehdi Taremi, antigo jogador do FC Porto e do Rio Ave, mostrou-se preocupado com o ambiente que envolve a seleção do Irão na preparação para o Mundial 2026. Em declarações à ESPN, o internacional iraniano revelou que os problemas com vistos e outras questões extra desportivas têm condicionado a equipa, admitindo sentir um clima de maior tensão em comparação com anteriores edições da competição. Com o decorrer da competição a equipa iraniana tem deixado cartas nos balneários agradecendo a hospitalidade e incentivando o fair play,  fazendo também referência às vítimas do ataque dos EUA e Israel, que a 28 de fevereiro atingiu a escola de raparigas Shajareh Tayyebeh, na cidade iraniana de Minab. 

  Antes do jogo entre Alemanha e Curaçau, Shaun Evans foi mostrado na transmissão televisiva a fazer um gesto com a mão semelhante ao sinal de “OK” invertido. À primeira vista, podia parecer apenas um movimento sem importância. No entanto, o gesto foi rapidamente associado por várias pessoas e organizações a um símbolo usado por grupos de extrema-direita e supremacistas brancos. A polêmica cresceu porque o sinal de “OK”, que durante décadas foi visto como um gesto comum e inofensivo, ganhou nos últimos anos uma nova carga política. Alguns grupos ligados à extrema-direita apropriaram-se desse símbolo e passaram a utilizá-lo como referência ao “white power”. Isso não significa que qualquer pessoa que faça o gesto esteja automaticamente a transmitir uma mensagem racista. Mas significa que, em determinados contextos, o gesto já não é neutro. Quando um gesto associado à supremacia branca aparece numa transmissão do maior evento desportivo do planeta, mesmo que a intenção não esteja provada, a discussão deixa de ser apenas desportiva. Passa a ser sobre quem tem direito a sentir-se seguro num estádio, sobre como a extrema-direita usa símbolos aparentemente banais para se tornar visível. Sobre como instituições como a FIFA reagem quando o racismo não aparece em insultos gritados na bancada, mas em sinais ambíguos, difíceis de provar e fáceis de negar. Shaun Evans negou qualquer intenção racista ou ideológica. Disse que não quis comunicar nenhuma mensagem e que o gesto foi involuntário. A FIFA investigou e concluiu que não havia provas suficientes para considerar que o árbitro tinha violado o código disciplinar. Por isso, Evans não foi castigado.  No fundo, este episódio revela uma realidade desconfortável, o futebol gosta de se apresentar como neutro, mas nunca é totalmente. Um Mundial envolve países, identidades, poder, imagem pública e responsabilidade institucional. Por isso, quando um símbolo associado ao racismo surge num contexto mundial, a resposta não pode ser apenas “foi só um gesto”.

O Mundial também enfrentou críticas devido ao elevado preço dos bilhetes, que poderão entrar para a história como os mais caros da competição. Pela primeira vez, a FIFA implementou um sistema de preços dinâmicos, ajustando o valor dos ingressos à procura. Os bilhetes para a fase de grupos começaram nos 140 dólares, enquanto os de categoria mais elevada para a final em New Jersey chegaram aos 32 970 dólares. Em resposta às críticas, a FIFA disponibilizou 130 mil bilhetes a 60 dólares às federações nacionais para distribuição pelos adeptos habituais. Questionado sobre a polémica, Gianni Infantino defendeu a estratégia, afirmando que os preços refletem a elevada procura e são competitivos quando comparados com grandes eventos desportivos norte-americanos, como a NFL, a MLB, a NBA e o Super Bowl. No entanto, uma análise da Associated Press sustenta que essa comparação é incompleta, uma vez que os preços oficiais da World Series e dos play-offs da NFL são, em geral, inferiores aos praticados no Mundial. Além disso, o bilhete mais barato disponível para a final no mercado de revenda da FIFA ronda os 9 800 dólares, reforçando as críticas em torno da acessibilidade da competição.

No final, haverá um campeão, uma taça erguida e milhões de imagens de celebração. Mas nem todas as histórias deste Mundial terminarão com uma fotografia no relvado. Omar Artan ficará com a memória de um torneio que lhe foi retirado numa fronteira. Os jogadores iranianos recordarão uma preparação vivida entre a guerra, a diplomacia e a incerteza. Muitos adeptos verão os jogos de longe, não por falta de paixão, mas porque o preço de um bilhete se tornou impossível. E um simples gesto continuará a lembrar-nos de que o racismo nem sempre se apresenta de forma clara e assumida. O futebol pode aproximar povos, mas não consegue apagar sozinho as desigualdades do mundo. Talvez seja essa a imagem mais dura deste Mundial, enquanto uns entraram em campo para disputar a vitória, outros tiveram primeiro de lutar pelo simples direito de estar presentes.

Ana Linhares e Lara Sousa