Psicologia et Al: Primeiras Impressões

Psicologia et Al: Primeiras Impressões

O conhecimento popular ensinou-nos “a não julgar um livro pela capa”, no entanto, parece que não somos capazes de impedir essa tendência. Este simples ato pode conduzir a primeiras impressões erróneas, que poderão conduzir a consideráveis consequências sociais (Zebrowitz, 2017).  Frequentemente, e com a utilização global e popular da internet, as aparências são gradualmente as primeiras pistas que conseguimos aferir sobre as outras pessoas (por exemplo, mediante as fotos publicadas), na maioria das vezes muito antes de as conhecermos (Olivola, & Todorov, 2010). Estas ilações acontecem de forma rápida e espontânea, sendo capazes de impactar determinadas decisões em vários domínios considerados importantes, como por exemplo, uma entrevista de emprego (Olivola, & Todorov, 2010). Uma grande parte da informação que obtemos acerca de um indivíduo deriva da interpretação que nós, seres humanos, fazemos através da face, sendo ela mesma um meio fundamental para a comunicabilidade e interação pessoal (Santos et al., 2008). A interpretação da face humana engloba um processamento percetivo e cognitivo da informação, que apesar da sua complexidade, é geralmente executado inconscientemente e com um nível considerável de eficiência (Santos et al., 2008).

Quando olhamos para a cara de uma pessoa, conseguimos automaticamente afirmar determinadas características da mesma, como por exemplo se é jovem ou se já revela uma idade mais avançada, se demonstra estar feliz ou aborrecida e até mesmo perceber qual a reação que a pessoa demonstra relativamente ao facto de estarmos presentes (Santos et al., 2008). Neste sentido, compreende-se a relevância que a face humana tem na interação social, sendo que ela é um meio de passagem de informação. As primeiras impressões de uma pessoa são formadas nos primeiros 5 segundos de contacto, porém, 50% das restantes impressões, quer sejam positivas ou negativas, são construídas nos 5 minutos seguintes (Newman, 2004). Esta informação deriva de uma transmissão de atributos emocionais a nível inconsciente, com base em indícios fornecidos pelo interlocutor. Assim, toda a ação (postura, olhar, imagem, roupas etc.) implica comunicação, isto é, transmissão e descodificação de mensagens (Lopes, 2000). Os mecanismos subjacentes não aparentam estar completamente esclarecidos, ainda que a importância das primeiras impressões seja considerada inegável. Segundo Noffsinger e colaboradores (1983), as primeiras impressões são frequentemente influenciadas por atitudes, bem como outros estímulos do sujeito avaliado que se interligam ou desencadeiam, no indivíduo percetor, memórias de sujeitos que este já conhecia previamente.

Primeiras impressões e estereótipos

No século XIX a “leitura de caras” era muito comum e encarada como um mecanismo que permitia determinar certas virtudes e diferenças a nível pessoal, sendo deste modo vista como uma ponte para o caráter (Santos et al., 2008). Durante muito tempo acreditava-se que o caráter era demonstrado através da face, e ainda hoje, é frequente julgar personalidades de acordo com as expressões faciais (Santos et al., 2008). Assim, as pessoas revelam-se ágeis a formar opiniões sobre ês outres, como por exemplo, se alguém é competente ou de confiança tendo como base somente a sua aparência facial. A visão que predomina é que as primeiras impressões são evocadas através de características físicas de um modo padrão e constante para toda a gente (Xie et al., 2021). As pessoas que aprendem que uma característica física e de personalidade estão relacionadas (por exemplo, corpo musculado e a agressão), deduzem através de uma característica física (corpo musculado) uma característica de personalidade (agressão) (Xie et al., 2021).

A formação das impressões que as pessoas efetuam sob os rostos de outrem é promovida não somente pela constituição morfológica do rosto, mas também por estereótipos enraizados sobre determinados grupos sociais (Xie et al., 2021). Quando as pessoas se deparam com certos indivíduos pertencentes a um determinado grupo, os estereótipos raciais e de género culturalmente aprendidos ativam-se de forma automática, apesar do reportório pessoal (Kawakami et al., 2017; Macrae & Bodenhausen, 2000). Estes achados indicam que as impressões aferidas pelos traços de rosto estão associadas a estereótipos relativos às diversas classes sociais (Stolie et al., 2018).

Os estereótipos, ou seja, estas ideias criadas sem conhecimento prévio, podem ser originados por meio de métodos não conscientes de aprendizagem e efetuados espontaneamente (Santos et al., 2008). Estes métodos fortalecem a ocorrência e continuidade dos estereótipos, sem que as pessoas tenham conhecimento do que realmente as conduz a fazer julgamentos (Santos et al., 2008).

Conclusão

As primeiras impressões acerca outros indivíduos podem ser altamente influenciadas pela sua aparência facial, e alertam para a necessidade de estar consciente destes processos nos mais variados contextos de relacionamento interpessoal (Santos et al., 2008). O facto de que as pessoas possuem e aplicam estereótipos faciais de uma forma consistente, quer estas inferências sejam válidas ou não, podem ser particularmente importante em contextos onde as opiniões assim formadas, e consequentemente nem sempre fundamentadas, podem ter um peso decisivo nos resultados dessa situação (Santos et al., 2008). Porém, sem que haja indícios evidentes que corroborem a relação de causa e efeito entre as primeiras impressões e a realidade, o mais prudente seria prestar atenção ao ditado popular “não se julga um livro pela capa” (Zebrowitz, 2017).

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Este artigo teve como referências bibliográficas:

Duque, A. F. (2008). Antes de ser: Primeiras impressões em psicoterapia – Um estudo exploratório [Dissertação de mestrado, Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPCE)]. Repositório da Universidade de Lisboa. http://hdl.handle.net/10451/759

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Macrae, C. N., & Bodenhausen, G. V. (2000). Social cognition: Thinking categorically. Annual review of psychology, 51, 93-120. http://courses.washington.edu/pbafhall/563/Readings/macraebodenhausen.pdf.

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Noffsinger, E. B., Pellegrini, R. J., & Burnell, G. M. (1983). The effect of associated persons         upon the formation and modifiability of first impressions. The Journal of social         psychology, 120(2), 183-195. https://doi.org/10.1080/00224545.1983.9713211.

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Xie, S. Y., Flake, J. K., Stolier, R. M., Freeman, J. B., & Hehman, E. (2021). Facial impressions are predicted by the structure of group stereotypes. Psychological Science, 32(12), 1979-1993. https://doi.org/10.1177/09567976211024259.

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