Um futuro condenado

Um futuro condenado

Passei três anos da minha licenciatura a perguntar-me se o meu curso não deveria ser mais prático do que atualmente é. Agora, na reta final do meu percurso académico, recebi a tão aguardada resposta.

O início de um novo semestre traz consigo, geralmente, novos professores. No meu curso, em Ciências da Comunicação, é habitual a contratação de docentes com um currículo invejável, o que eu acho ótimo. O que não acho tão ótimo assim é que aprendemos mais com a experiência pessoal destes do que com a matéria que lecionam. Não os culpo, de todo. Acho que quando te tornas adulto e entras no mercado de trabalho em Portugal a questão da sobrevivência financeira é um pensamento diário. Ou aceitas o emprego e o que ele implica ou ficas a ver alguém a aceitá-lo sem hesitar. É o que acontece quando a necessidade se sobrepõe à ética, ou aceitas fazer mesmo que não gostes ou ficas no desemprego. Mas essa é outra questão para um outro artigo.

Eu sei, isto parece confuso, mas já vão perceber onde quero chegar. Na apresentação de uma nova cadeira, o professor pediu que falássemos um pouco sobre nós e o curso, se estamos a gostar e que expectativas temos para o futuro. Na minha inocência, respondi que esperava que as aulas fossem mais práticas e mais adaptadas às novas realidades tecnológicas. Senti logo o olhar reprovador. Do discurso de meia hora, retirei este pequeno excerto “Vocês, alunos, devem ter em consideração que os professores não nasceram na época da Internet. Enquanto os alunos têm uma facilidade enorme de usar as novas tecnologias, porque nasceram quase a saber usá-las, os professores aprendem com mais dificuldade. Nós nascemos antes de tudo isso e lecionamos com aquilo que aprendemos”.

Então, deixe-me ver se percebi. O senhor estudou de uma determinada forma há 30 anos e espera ensinar-me dessa mesma forma, como se em 30 anos nada tivesse mudado? Parece-me bem. Agora que a minha questão-mor está resolvida, surgiu-me outra. Como é que é suposto eu entrar no mercado de trabalho e competir com outras milhares de pessoas se não tenho as noções básicas do mundo digital? Os tempos mudaram e nós precisamos de saber acompanhá-lo. Numa era que é caracterizada pela enorme introdução de tecnologias e pelo crescente uso das redes sociais como propagação de informação, não seria boa ideia apostar em disciplinas e professores com capacidades para nos preparar para esse futuro?

Sobre a questão que falava no início deste artigo – termos de nos sujeitar para sobreviver –, referia-me a situações reais que acontecem nesta universidade. Acredito que aconteça em outras instituições, claro. Não vamos adotar o típico estilo português e pensar que estamos sempre pior que o vizinho. Mas voltemos ao assunto. A um professor de Física foi-lhe atribuída uma cadeira de Design. Podem rir-se, não vos censuro. O que é que esperavam que acontecesse? O professor acabou a mencionar os programas que precisávamos para produzir um trabalho final e a completar com “Vão ver ao YouTube como se faz”. E andamos nós a pagar propinas para fazer uma disciplina baseada no YouTube. Desculpem, mas achei que a frase mais dita no Twitter sobre a UTAD ficava bem aqui.

E, pronto, queria só acabar este artigo com uma sugestão. Será que custa muito investir numa formaçãozita para os professores poderem ensinar-nos melhor? A ciência evolui, um médico também evolui e é obrigado a estar sempre a par das novas realidades. Eu sei que não lidamos (diretamente) com a vida de alguém, mas não teremos nós o mesmo direito de estar atualizados?

Alexandra Fonseca