Cristiano Ronaldo entregou definitivamente a tão famosa camisola 7 de Portugal. Anunciou hoje, num vídeo publicado no seu Instagram, a despedida da seleção nacional.
Tudo começou em agosto de 2003, em Chaves, num jogo particular frente ao Cazaquistão. Ao intervalo, Luís Figo, já Bola de Ouro, e número 7 da equipa das quinas, dava lugar a um jovem Cristiano Ronaldo que, aos 18 anos, e na altura a envergar o número 16 às costas, deu os primeiros toques na bola como jogador da seleção A de Portugal, após a conquista do Torneio Toulon com a seleção sub-20 no verão do mesmo ano.
Portugal venceu, e Cristiano convenceu, passando a ser aposta na equipa A, numa geração de ouro que deixa saudade, ainda que tenha continuado a representar as seleções jovens, com quem disputou os Jogos Olímpicos de Atenas em 2004. Foi suplente utilizado nos dois primeiros jogos do Euro 2004, nos quais fez um golo e uma assistência que não deram outra hipótese a Luiz Felipe Scolari senão apostar no jovem Cristiano, que ajudou a levar a seleção à Luz na dolorosa final frente à Grécia. O, na altura, CR17, deixou o campo em lágrimas e disse mais tarde “O meu sonho é dar a Portugal o seu primeiro título internacional”.
Levou pela última vez a 17 a um grande palco no Mundial de 2006, onde contribuiu com um golo na fase de grupos frente ao Irão, o primeiro dos seis Mundiais em que viria a marcar.
A partir da Alemanha em 2006, com a despedida de Luís Figo, assumiu a lendária 7, camisola que o acompanharia para o resto da sua carreira internacional. Foi com essa camisola que fez história na Ucrânia em 2012, quando, a precisar de vencer para se apurar para os quartos de final, bisou para a reviravolta de 2-1 frente à Holanda no grupo da morte.
Antes do Mundial do Brasil, em 2014, ficou o hat-trick em Solna frente à Suécia, no play-off que garantiu a qualificação, marcado no coração dos portugueses com o mítico relato de Nuno Matos: “Leva-nos ao Brasil, Ronaldo! Leva-nos ao Brasil, Ronaldo! Bate! Golo, golo, golo, golo, golo, golo, golo! É golo! É golo! Ele é o único que ultrapassa os limites da lógica! Ronaldo! Ronaldo, Ronaldo, Ronaldo, Ronaldo!”.
O Euro 2016 foi o pico de Ronaldo na seleção. A lendária seleção dos empates de Fernando Santos cairia no esquecimento se não fosse ele, Cristiano Ronaldo, no último jogo da fase de grupos, a bater no peito e a marcar dois e assistir um, evitando assim a eliminação precoce da seleção. Após essa performance, foi também Ronaldo que levou Portugal à final com mais um golo e uma assistência no 2-0 frente ao País de Gales na meia-final. Após uma entrada dura, teve mesmo de sair aos 25 minutos da grande final, mas nem isso o fez deixar de ser fundamental durante o restante jogo. Ficará para sempre lembrado o “adjunto” de Fernando Santos nos restantes 95 minutos e, segundo o próprio Éder, o que lhe disse antes da substituição: “Vais ser tu a fazer o golo da vitória”.
Três meses após a final, marcou o seu primeiro “poker” com a camisola da seleção num 6-0 frente a Andorra na qualificação para o Mundial 2018, Mundial esse onde fez um dos maiores jogos da sua carreira internacional, o hat-trick em Sochi frente à Espanha, selado com um livre direto monumental aos 88 minutos, que Nuno Matos voltou a eternizar: “É um livre perigoso. De Gea nos postes, Cristiano. Ele vai, ele vai, ele vai, ele vai, ele vai, ele vai, e é golo! Obrigado! Obrigado!”.
Em 2019, a conquista do segundo título internacional da nossa seleção, a Liga das Nações, onde marcou mais um hat-trick no Estádio do Dragão frente à Suíça, com dois golos decisivos ao cair do pano, aos 88 e 90 minutos, para garantir o bilhete para a final da primeira edição da prova, que sagrou Portugal como a primeira campeã de sempre.
Em setembro de 2020, quebrou a barreira frente à Suécia onde, à moda Cristiano de querer sempre mais, não lhe serviu apenas o 100º golo internacional e marcou também o 101º na vitória por 2-0. O recorde seguinte foi também em setembro, desta vez de 2021. Igualado a Ali Daei como o melhor marcador por seleções, com 109 golos, não fez por menos e, aos 89 minutos, empatou frente à Irlanda para marcar o seu 110.º golo por Portugal e, aos 90+6, bisou para virar o resultado e garantir a vitória por 2-1.
Na última edição da Liga das Nações, em 2025, após marcar nos dois jogos anteriores, foi ele, mais uma vez, que empatou a final frente à Espanha, num jogo que iria ser decidido nas grandes penalidades e onde levantou o último troféu da nossa seleção, o terceiro internacional de Ronaldo e o terceiro de Portugal.
Os números ajudam a medir o que os olhos já sabiam. São 234 jogos e 146 golos com a camisola das quinas, mais de duas décadas entre a estreia frente ao Cazaquistão e a última convocatória. Pelo caminho, tornou-se o melhor marcador da história do futebol de seleções, o jogador com mais internacionalizações de sempre, o único a marcar em seis Mundiais e o único a disputar seis Europeus. São recordes que dificilmente voltarão a ser tocados, mas que nunca contarão a história toda, a história de um jogador que, durante anos, foi a razão pela qual Portugal acreditava que podia ganhar a qualquer um.
Para quem cresceu a ver a seleção, Ronaldo não foi apenas um jogador, foi uma constante. Esteve lá nas lágrimas de 2004, na noite de Saint-Denis e em cada apuramento sofrido. Toda uma geração aprendeu a gostar de futebol a vê-lo marcar e a festejar com ele. A partir de agora, Portugal entra em campo sem o seu capitão de sempre, e talvez só aí se perceba verdadeiramente o tamanho do vazio. Resta dizer o que muitos vão dizer hoje, de Norte a Sul: obrigado, Cristiano.
Autor: David Silveira
Imagem: OTORGADOR