Na madrugada de 5 de novembro, escreveu-se mais um capítulo de uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. São Paulo e Corinthians encontraram-se para disputar a 34.ª jornada do Brasileirão, num encontro que colocou frente a frente dois dos emblemas mais populares e históricos do futebol brasileiro. Conhecido como Majestoso, o dérbi chegava numa altura decisiva da temporada, com objetivos bastante diferentes para ambas as equipas. O São Paulo procurava consolidar a sua posição na primeira metade da tabela, enquanto o Corinthians lutava para escapar aos lugares de despromoção à Série B. Curiosamente, o encontro não se realizou na cidade de São Paulo, mas sim em Santos, no histórico Estádio Urbano Caldeira, mais conhecido como Vila Belmiro, devido à indisponibilidade do MorumBIS.
A rivalidade, porém, vai muito além dos 90 minutos. Para compreender o peso deste encontro, é necessário recuar mais de um século, até às origens de dois clubes que nasceram em contextos bastante diferentes e que acabariam por construir uma das rivalidades mais marcantes do futebol sul-americano.
O primeiro destes emblemas a nascer foi o Sport Club Corinthians Paulista, fundado a 1 de setembro de 1910, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. A sua criação partiu de um grupo de cinco trabalhadores: Anselmo Corrêa, Antônio Pereira, Carlos Silva, Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone. Inspirados pela passagem do clube inglês Corinthian FC pelo Brasil, decidiram criar uma equipa que representasse as classes trabalhadoras da cidade. O nome escolhido foi precisamente Corinthians, e a identidade popular acompanharia o clube ao longo de toda a sua história.
Vinte anos depois, a cidade assistiria ao nascimento do seu outro grande protagonista. O São Paulo Futebol Clube foi fundado a 25 de janeiro de 1930, a partir da união de antigos associados do Club Athletico Paulistano e da Associação Athletica das Palmeiras. O clube acabaria por atravessar dificuldades financeiras e algumas divergências internas que levaram à suspensão das suas atividades em 1935, regressando oficialmente a 16 de dezembro desse mesmo ano. Nascia assim o Tricolor Paulista, que viria a construir um dos palmarés mais importantes do futebol brasileiro.
As diferenças nas origens ajudariam a alimentar uma das narrativas mais conhecidas do futebol paulista: de um lado, o Corinthians, identificado como o clube do povo, e do outro, o São Paulo, historicamente associado às elites económicas da cidade. Embora estas representações não correspondam necessariamente à realidade atual das duas massas associativas, tornaram-se parte integrante da identidade dos clubes e das provocações entre adeptos.
O primeiro confronto entre os dois emblemas aconteceu a 25 de maio de 1930, numa partida do Campeonato Paulista, que terminou com uma vitória corinthiana por 2-1. Seria o início de uma rivalidade que atravessaria gerações, competições e diferentes épocas do futebol brasileiro.
A designação pela qual hoje conhecemos este encontro surgiria apenas em 1942. A 24 de maio desse ano, Corinthians e São Paulo empataram a três golos, num jogo que ficou marcado pela estreia de Leônidas da Silva, uma das maiores figuras da história do futebol brasileiro, com a camisola tricolor. No dia seguinte, o jornal A Gazeta Esportiva utilizou a expressão «Choque Majestoso» para descrever o espetáculo proporcionado pelas duas equipas. A expressão acabaria por permanecer, sendo posteriormente simplificada para o conhecido «Majestoso».
Ao longo das décadas, o clássico foi acumulando episódios que ajudaram a construir a sua dimensão histórica. Entre os resultados mais marcantes encontram-se duas goleadas particularmente expressivas: em 1933, o São Paulo venceu por 6-1, enquanto em novembro de 2015 seria o Corinthians a aplicar o mesmo resultado ao rival, numa partida do Campeonato Brasileiro. Este último encontro ficaria ainda associado à conquista do título nacional pelos corinthianos nessa temporada.
Também os títulos ajudam a perceber a dimensão dos dois emblemas. O Corinthians conta no seu palmarés com dois Mundiais de Clubes, uma Taça Libertadores e sete campeonatos brasileiros. O São Paulo, por sua vez, apresenta três títulos mundiais, três Libertadores e seis campeonatos brasileiros, destacando-se como um dos clubes brasileiros com maior sucesso internacional.
A história recente também não tem sido indiferente à importância deste confronto. Na primeira volta do Brasileirão de 2026, o Corinthians levou a melhor sobre o rival, vencendo por 3-2 na Neo Química Arena, num encontro que voltou a demonstrar como a classificação raramente consegue antecipar aquilo que acontece dentro das quatro linhas.
No reencontro entre os dois emblemas, seria a Vila Belmiro a receber mais um capítulo do Majestoso. Num encontro marcado pela chuva, pela intensidade e por várias oportunidades desperdiçadas, nenhuma das equipas conseguiu encontrar o caminho da baliza. O Corinthians começou melhor e criou perigo durante a primeira parte, mas perdeu Rodrigo Garro, que saiu lesionado. Na segunda metade, o São Paulo cresceu no encontro e esteve perto de inaugurar o marcador por intermédio de Pedro Lima, que conseguiu ultrapassar Hugo Souza, mas viu Angileri evitar o golo com um corte praticamente sobre a linha. O Corinthians também chegou a festejar um golo de Matheus Bidu, mas o lance acabaria anulado por fora de jogo de Yuri Alberto. A partida ficaria ainda marcada pela expulsão de Matheus Pereira, aos 31 minutos, quando já se encontrava no banco de suplentes, por reclamação, e pela expulsão de Yuri Alberto, aos 82 minutos, após uma entrada sobre Ferreirinha, num lance revisto pelo VAR. Apesar da maior iniciativa ofensiva do São Paulo, traduzida nos 55% de posse de bola e nos 20 remates, contra os 45% de posse e 18 remates do Corinthians, o marcador permaneceria inalterado até ao apito final.
O empate deixou sentimentos distintos nos dois lados da cidade. O São Paulo manteve-se no décimo lugar, com 44 pontos, desperdiçando a oportunidade de conquistar uma vitória sobre o eterno rival e aproximar-se dos lugares de acesso às competições continentais. Já o Corinthians, com 37 pontos e no décimo sétimo posto, continua na zona de despromoção, vendo adiada a possibilidade de sair dos lugares perigosos da classificação.
Na madrugada de 5 de novembro, não houve vencedores na Vila Belmiro. Longe dos seus palcos habituais, mas com a mesma rivalidade de sempre, São Paulo e Corinthians escreveram mais uma página na história do Majestoso. De um lado, o vermelho, branco e preto do Tricolor; do outro, o preto e branco do Timão. Desta vez, nem a história, nem a necessidade de pontos, nem a rivalidade foram suficientes para quebrar o nulo. Porque num Majestoso até um empate sem golos pode deixar marcas na história de uma cidade.
Autor: Tiago Monteiro
Imagem: Gazeta Esportiva