
Chegar aos 30, ter um filho e gravar um “álbum vivo”, tudo isto enquanto tenta parar de fumar.
Podem conhecê-lo como o Elliot de Euphoria, ou como “o cantor daquela música do Tik Tok”, mas a verdade é que Dominic Fike é um nome que cada vez mais se ouve falar, e agora apresenta o seu terceiro álbum HOW TO QUIT SMOKING, o seu primeiro projeto depois de explodir nas redes sociais com os seus hits White Keys e Babydoll.
Este último álbum, lançado a 30 de outubro, foi anunciado no primeiro espetáculo da sua mais recente digressão pela América, tendo o artista referido que, HOW TO QUIT SMOKING, não era nem um álbum de estúdio, nem um álbum ao vivo, mas sim um “living album”. Fike produziu e escreveu todas as músicas em colaboração com a própria banda e alguns amigos, também artistas, enquanto estava na estrada, tendo as canções sido gravadas em quartos de hotel, no autocarro da digressão e outros sítios pouco convencionais, deixando propositadamente que os episódios vividos durante a digressão influenciassem a criação do álbum. Todo este processo foi documentado através de uma livestream 24/7, que cobria as “sessões de estúdio” e em vídeos, que iam sendo gradualmente lançados no canal de Youtube do artista até que, a 19 de agosto, sai o primeiro single WALLFLOWER.
As primeiras três faixas são justamente os três singles por ordem de lançamento, WALLFLOWER, SMALL TOWN e PANGEA, que nos cumprimentam com o DNA de Dominic Fike ao qual já estamos familiarizados: um riff de guitarra elétrica, melodias acompanhadas de guitarras acústicas, linhas de percussão minimalistas e um eventual verso de rap. Mas a partir da quarta música CASTING CALL, as coisas começam a entrar num espaço ligeiramente mais experimental, mas mesmo assim familiar. É um bom middle ground entre as suas produções mais minimalistas, com a estrutura de produção indie/pop-rock alternativo a que estamos habituados do artista, e as mais avantgard como o seu projeto de 2024, 14 minutes. Em cada faixa, há sempre algum elemento que se destaca, sejam os vocais modificados com efeitos (daí a conexão com 14 minutes) ou um beat segurado por um sintetizador com um loop acelerado.
Durante os 40 minutos deste disco, Dominic explora essencialmente relações, conta-nos histórias sobre antigos amores, términos e romances, e há um sentido permanente de nostalgia, um sentir falta de pessoas com as quais perdemos contacto, e a constante espiral que a pergunta “Porque é que não resultou?” nos traz. Mas tudo isto, sem nunca perder foco no presente, afinal, o álbum foi lançado imediatamente depois de estar concluído.
Um dos destaques deste projeto é a extensa lista de convidados, algo que o artista ainda não nos tinha apresentado, pelo menos nesta quantidade, num álbum antes. Convidados esses muito bem-vindos: Love Spells, Emma Orgier, Grace Ives, Gabriel Jacoby, Kevin Abstract, reggie, Jorjiana, Danny Brown e Hether, marcam presença, fazem o que têm a fazer, cada um à sua maneira, e fazem-no bem. Mas, um dos melhores momentos deste projeto é sem dúvida a da chamada telefónica de Dominic com o rapper atualmente condenado à prisão, Tay-K, que na última faixa SPOTLIGHT / INNER CHILD, simplesmente trocam concelhos e têm uma pequena conversa sobre os seus estados atuais, eventualmente, esta conversa torna-se cada vez mais profunda e vulnerável, porém sempre acompanhada de uma batida otimista de fundo, até que a agulha levanta e o álbum termina, quase como se esta troca de ideias fossem os créditos finais do disco, um bonito lembrete de que tudo vai ficar bem.
Top 5 músicas
5. WHITE KEYS
Pensando bem, WHITE KEYS pode ser considerada o primeiro single do projeto, mas é evidente que foi incluída na tracklist para aumentar os números associados a HOW TO QUIT SMOKING. Mesmo assim, não deixa ser relevante, antes pelo contrário. WHITE KEYS é verão, é tarde na piscina com os amigos, mas acima de tudo, é nostalgia desses tempos passados, e com isso, talvez de uma pessoa em particular que o artista não nos diz quem é… Com versos em que o hip-pop brilha e um refrão que não nos saí do ouvido desde a primeira vez que o ouvimos, é óbvio que os fãs imploraram que esta música fosse oficialmente lançada, e ainda bem que assim foi.
4. CASTING CALL
Olhando para a tracklist e ouvindo o álbum do início ao fim por ordem, torna-se evidente que existe um antes e depois dos singles e, CASTING CALL é a música que faz essa transição, pois é aqui que o álbum se assume como alternativo psicadélico. Uma forte influência de R&B de Atlanta, fazendo lembrar artistas como Russ e Summer Walker, que dita o passo para algumas das faixas que o sucedem. Frequentemente, ouvimos Fike a falar das suas escolhas e ações duvidosas no que toca ao amor, e mais uma vez, ele confessa que não é de todo feito para compromissos a longo prazo.
3. WALLFLOWER
O primeiro single deste ciclo de álbum diz-nos da maneira mais clara possível, “Olá, lembram-se de mim? Voltei”. É clássico Dominic Fike e uma excelente faixa de abertura para este projeto. A palavra wallflower é usada para descrever alguém que não se encaixa muito bem no lugar onde se encontra, alguém tímido e introvertido, e esse é um tema que não é estranho ao artista, tendo-o já abordado anteriormente noutros projetos. O mundo lá fora é assustador, às vezes é mesmo melhor só ficarmos dentro de casa.
2. CABBY
Uma slow-tempo experimental e introspetiva. Quando definimos o género a que a música de Dominic Fike pertence (que não é uma tarefa fácil) como alternativo, é devido a faixas como estas. CABBY é daquelas músicas que nos fazem ascender, com uma produção dreamy e psicadélica que nos últimos tempos, Fike tem se sentido cada vez mais confortável em explorar. Love Spells e Emma Ogier marcam presença nesta faixa e têm uma performance exímia.
1. LILY WAS A CAVALIER
E se escondêssemos todos os instrumentos a Dominic Fike e não o deixássemos gravar o som ao vivo como ele muitas vezes se orgulha de fazer? Talvez foi mesmo isso que aconteceu, porque LILY WAS A CAVALIER é uma música que não segue o que nos é propriamente familiar no resto da discografia do artista, e isso age muito a seu favor. Kicks de 808’s pesadíssimos, uma guitarra elétrica destorcida e sintetizadores que nos preenchem os ouvidos, esta é uma daquelas músicas que cresce e depois explode, fazendo-nos ficar com aquela “bass face” quando o beatdrop acontece. O mundo em que Fike se encontra agora devido ao sucesso, é muito diferente daquele em que cresceu, e chega à conclusão de que o dinheiro não traz assim tanto conforto. Ele sente-se desorientado na maioria dos espaços, não é capaz de ler a sala ou as intenções das pessoas à sua volta, e a produção reflete exatamente isso. “Is it a vine or a chandelier”, tão sufocante que o natural parece artificial.
HOW TO QUIT SMOKING é sinónimo simultaneamente de duas palavras, presente e nostalgia, o que é um bocado paradoxal e uma irónica contradição, mas aí está a beleza desta mais recente adição à discografia de Dominic Fike. Numa nota secundária, muitas vezes, não consigo tirar da cabeça a ideia de que Dominic Fike é um Mac Miller de um universo alternativo em que ele era um bom vocalista e inclinava-se mais para o pop e rap melódico.
Nota: 7,5/10
António Saavedra