Há poucas coisas tão simples na vida como querer ver um filme. Pelo menos, era o que eu pensava antes de o entretenimento se transformar numa espécie de teste à minha resistência psicológica e, sobretudo, ao saldo bancário.
O plano é sempre o mesmo: chegar a casa, vestir um pijama confortável, preparar qualquer coisa para comer e instalar-me no sofá. Uma noite perfeita. Abro a Netflix, percorro as novidades, consulto a Disney+, espreito a HBO e, por fim, chego ao Prime Video, onde encontro finalmente aquele filme que queria ver. A felicidade dura pouco: está disponível mediante pagamento adicional; claro, porque pagar uma mensalidade seria demasiado simples.
O streaming prometeu-me liberdade. “Acabaram-se os horários rígidos da televisão, os anúncios intermináveis e a obrigação de ver o filme que alguém decidiu transmitir numa terça-feira às 22 horas.”. Agora, somos livres de escolher o que queremos ver, desde que esteja na plataforma certa, no país certo e, de preferência, dentro do orçamento mensal que ainda não foi consumido por outras subscrições.
É quase poético.
A questão é que os filmes e as séries parecem ter desenvolvido uma personalidade bastante independente: cada um vive na sua plataforma e raramente aceita visitas. Queremos acompanhar uma série? Subscrição nova. Queremos ver aquele filme de que toda a gente fala? Outra subscrição. E se, por acaso, o encontrarmos no Prime Video, podemos sempre pagar mais um pouco. Afinal, já estamos ali. Seria uma pena desperdiçar a oportunidade de gastar dinheiro.
Entretanto, já me tornei especialista em acumular subscrições e, pior ainda, em arranjar justificações para manter todas. Pago a Netflix porque é onde me sinto mais vezes compreendida, aquela onde encontro mais coisas para ver. A HBO foi uma subscrição para ver uma única série, mas que continua ativa até hoje, porque, aparentemente, não consigo abandonar a minha tradição natalícia de rever os filmes de Harry Potter. A Disney+ também tem a sua razão de existir: a saga da Marvel (e convenhamos, disso eu não estou disposta a abdicar). E depois há o Prime Video. Este talvez seja o maior mistério de todos. Pago para ter acesso a filmes e séries, mas passo tanto tempo à procura de alguma coisa para ver, que começo a sentir que a verdadeira experiência oferecida pela plataforma é o desafio de nunca encontrar nada.
Mas o verdadeiro espetáculo começa quando chega a hora de escolher. Tenho centenas de títulos à minha disposição, recomendações feitas por algoritmos que afirmam conhecer os meus gostos e categorias para todos os estados de espírito. Ainda assim, depois de meia hora a percorrer o catálogo, acabo a rever uma série que já vi tantas vezes que poderia recitar o diálogo junto com as personagens.
E depois há aquele momento especial em que uma luz desce na minha cabeça, e me lembra de um filme. Abro a Netflix e começo a escrever o título na barra de pesquisa. A plataforma, sempre prestável, antecipa-se: completa o nome, apresenta o cartaz, mostra-nos o filme com uma confiança impressionante. Por momentos, sinto que finalmente fui compreendida. É este. É exatamente este que quero ver!
Carrego no título, cheia de esperança, e descubro que o filme não está disponível.
A Netflix sabe perfeitamente qual é o filme que quero ver. Sabe o nome, reconhece o cartaz e consegue encontrá-lo mais depressa do que eu encontraria as chaves de casa. Só não consegue, aparentemente, dar-me o filme. É como encontrar a viagem perfeita, ver as fotografias do destino, escolher as datas e fazer as malas, só para descobrir que posso admirar o destino à vontade, mas para chegar lá tenho de pagar outra vez. Obrigada pela ajuda, Netflix! Era mesmo isso que faltava à minha noite.
Mas o espetáculo não termina na pesquisa. Começa quando decido procurar noutra plataforma e percebo que o filme está disponível, sim, mas mediante pagamento adicional. Aparentemente, até o algoritmo tem sentido de humor. Não é nostalgia. É exaustão.
E, como se tudo isto não fosse suficiente, ainda existe a possibilidade de recorrer a uma VPN para aceder aos catálogos de outros países. Afinal, um filme que não está disponível em Portugal pode estar perfeitamente acessível noutro lugar do mundo. Parece a solução ideal, até nos lembrarmos de que os serviços de VPN também são pagos! Ou seja, para fugir às limitações de uma plataforma pela qual já pagamos, podemos sempre pagar por outra ferramenta que nos permita contorná-las. A este ritmo, qualquer dia precisamos de uma subscrição para pagar as subscrições. Ver um filme está a tornar-se uma atividade cada vez mais dispendiosa, sobretudo quando o objetivo inicial era apenas passar uma noite descansada no sofá.
E há qualquer coisa de particularmente humilhante em receber a pergunta “Então, o que vamos ver?” e perceber que, apesar de pagarmos para ter acesso a tanto entretenimento, não temos uma resposta. Estamos perante um catálogo gigantesco e comportamo-nos como se alguém nos tivesse entregado um comando sem pilhas.
Talvez o problema não esteja na falta de conteúdos, mas na forma como estes são distribuídos. Cada plataforma quer ter os seus exclusivos, conquistar novos assinantes e convencer-nos de que a próxima grande série justifica mais uma despesa mensal.
No fundo, já não basta perguntar se um filme é bom. É preciso saber onde está, se está incluído, se exige um pagamento adicional e se vale a pena manter mais uma subscrição só para o ver. O entretenimento passou a exigir pesquisa prévia, planeamento financeiro e uma capacidade de organização que uma noite no sofá não devia incluir.
Por isso, proponho uma nova categoria nos prémios de cinema: melhor argumento para justificar uma mensalidade. E um prémio especial para as plataformas que nos mostram exatamente aquilo que queremos ver, só para depois nos lembrarem que querer não é poder.
E amanhã lá estarei outra vez, sentada no sofá, com o comando na mão e a esperança renovada. Afinal, poderá ser o dia em que encontro alguma coisa para ver. Desde que esteja incluída na mensalidade… Viva a Pirataria!
Clara Vilela