Há mais de três semanas que os estudantes franceses mantêm pressão com protestos contra o governo. A fúria dos jovens tem-se feito ouvir cada vez mais. Neste momento, a Praça da Bastilha é o epicentro da luta estudantil.
Na base desta revolta, os estudantes, a maioria com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos, enumeram flagelos como salas de aula superlotadas, falta de docentes, degradação das instalações escolares e horários excessivamente sobrecarregados.
Apesar de grande parte das manifestações se terem demonstrado pacíficas, alguns manifestantes atearam fogos e vandalizaram abrigos de autocarros. A resposta da polícia foi rápida e incisiva, com o recurso a gás lacrimogéneo, bastões e granadas de atordoamento.
As autoridades foram, posteriormente, acusadas de uso excessivo da força por parte de organizações de direitos humanos e estudantes. Até ao momento, 18 inquéritos internos a alegadas condutas indevidas da polícia foram abertos e vários cartazes circularam pelas ruas a criticar a posição das autoridades. “Demasiado novos para sermos ouvidos, suficientemente crescidos para levarmos com gás lacrimogéneo”, foi um dos exemplos.
Pelo menos 164 pessoas foram detidas durante as manifestações de estudantes e o Ministério do Interior confirmou que 71.500 pessoas participaram nas manifestações, das quais 24.500 marcaram presença no principal protesto em Paris.
Avançou ainda com informações relativas aos feridos e confirmou já haver 12 membros das forças de segurança, oito docentes e dez estudantes do ensino secundário na soma. Para além disso, na passada quarta-feira, o Governo suspendeu a utilização de granadas de atordoamento no policiamento dos protestos, após um incidente que levou um adolescente a perder uma mão.
O conflito ganha eco dentro do país
À luz deste tumulto, verificou-se um agravamento crescente em regiões próximas tais como os Alpes Marítimos, Marselha, Lille, Grenoble, Lyon ou Sedan. As queixas fazem-se ouvir e os estudantes denunciam ainda as refeições caras, temperaturas extremas no verão e no inverno dentro das salas de aula e a existência de “percevejos e chuveiros avariados” no internato.
A sete meses das eleições presidenciais, os protestos estudantis transformaram-se num motivo de conflito entre o governo conservador e o partido de esquerda França Insubmissa (LFI), uma polarização cada vez mais evidente.
Sébastien Lecornu, atualmente primeiro-ministro, criticou a “escalada irresponsável” por parte da LFI; já Jean-Luc Mélenchon, líder do partido de esquerda, acusa o governo de ser o responsável e de ter “ordenado a repressão”.
Por sua vez, a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) afirma que: “Os estudantes do secundário não são arruaceiros: são jovens (…) que querem ser ouvidos”. Também o presidente da Câmara de Saint-Denis, do LFI, Bally Bagayoko, pediu que as autoridades falassem com os jovens de modo a verificar se estão a ser instrumentalizados ou a pensar, a organizar-se e a defender as condições de estudo e a preservar o seu futuro.
Numa tentativa de aliviar as tensões que se vivem, o ministro da Educação, Edouard Geffray, anunciou à televisão TF1, na noite de quinta-feira, que cerca de 3.000 professores substitutos serão colocados nos próximos dias para abater a falta de docentes nos 114 liceus mais afetados pelos protestos.
Entre as exigências populares impossíveis de serem ignoradas e um Governo sem margem financeira, o ministro da Economia, Roland Lescure, reiterou que o Governo tentará acomodar os pedidos de financiamento adicional para as escolas, apesar de existirem grandes limitações ao orçamento de 2027. Assim, no projeto atual de orçamento, a educação deverá receber um aumento de verbas, com a despesa a subir 1,4% para 90,9 mil milhões de euros.
O representante do sindicato de estudantes, Marius Mesnil, já respondeu à nova mudança, afirmando que “estão-nos a oferecer migalhas” e apela a todos os estudantes a uma nova vaga de manifestações.
ONU atenta às manifestações
Na passada sexta-feira, as Nações Unidas (ONU) manifestaram preocupação perante os protestos de estudantes em toda a França. Shabia Mantoo, porta-voz do organismo da ONU para os direitos humanos, afirma: “Estamos a seguir com preocupação os incidentes relacionados com os protestos estudantis e os bloqueios de liceus em França, alguns dos quais se tornaram violentos”.
Com base numa sondagem realizada pela Elabe para a BFM TV, 72% dos franceses consideram legítimas as reivindicações dos estudantes, mas 55% defendem que os protestos devem terminar.
O que começou como uma manifestação centrada em Paris, da noite para o dia explodiu e estendeu-se a outros países. Em Bruxelas, a população saiu à rua para denunciar o aumento do custo de vida e as medidas anunciadas pelo Governo para o orçamento do Estado para 2027.
Os protestos assumiram contornos mais violentos, o que levou à detenção de mais de 100 pessoas. Os transportes públicos e o tráfego aéreo estão também a ser afetados; até ao momento, 140 voos foram cancelados e apenas duas linhas de metro funcionam.
Bernard Quintin, ministro do Interior, afirmou nas redes sociais que: “o Estado não se deixará impressionar” e que a resposta policial e penal “estará sempre à altura dos danos causados”.
É já a quarta manifestação nacional do ano no país e a ela juntaram-se professores e alunos que protestam contra os cortes na educação.
Do outro lado do oceano…
Já no Brasil os estudantes também se fizeram ouvir, após a vitória de Flávio Bolsonaro com 47,03% dos votos contra 45,16% de Lula da Silva, na primeira volta das eleições. Os estudantes de universidades e instituições federais convocaram manifestações em oposição ao candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro.
Os protestos começaram no Rio de Janeiro, conduzidos por estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) e rapidamente se estenderam a outras universidades.
Estas mobilizações opõem-se à proposta de redução de gastos no serviço público, nomeadamente na educação
O presidente da Federação Nacional de Estudantes de Direito (Fened), Hugo Silva, refere que o espaço público reflete a consciência histórica de uma geração que não aceita retrocessos institucionais. “Costumam dizer que a juventude é o futuro do Brasil, mas nós somos o presente. E é agora que queremos ter garantido o nosso direito à universidade pública, à saúde de qualidade, à educação e às políticas sociais que transformam a vida do nosso povo”, afiança.
O corpo estudantil está a ser apoiado por outras frentes populares, sindicatos e entidades como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Levante Popular da Juventude.
Diana Silva