Humberto Gomes disse no passado sábado o adeus às balizas na chamada “Catedral do Andebol Português” o Pavilhão Flávio Sá Leite. O guarda-redes, um dos maiores nomes da história do ABC e da seleção nacional, disputou o seu último jogo como atleta, frente ao Póvoa, numa despedida marcada pela emoção e pelo peso simbólico do adeus de um guarda-redes histórico para a modalidade.
Humberto Gomes chegou ao andebol quase por acaso. Nascido em Braga, mas criado na Venezuela, para onde a família tinha emigrado, regressou a Portugal por volta dos dez anos. No desporto escolar foi parar à baliza por ninguém lá querer ir, e foi o professor Luís Covas quem o incentivou a levar o andebol a sério. Passou a pasta a Jorge Rito que o convidou para o ABC de Braga, clube onde se formou a partir de 1989 e que se tornaria a casa da sua vida desportiva.
Ao longo de 34 anos de carreira, Humberto Gomes vestiu ainda as camisolas de FC Gaia, São Bernardo, Belenenses, Sporting CP e Póvoa AC, mas foi sempre a Braga que voltou. Ao ABC ligou-se em três ciclos distintos, somando ao todo mais de vinte anos pelo clube bracarense, e é por essa relação de décadas que hoje é lembrado como uma das figuras maiores da história do andebol nacional.
O momento mais alto dessa relação com o ABC aconteceu na época de 2015/16, quando o clube conquistou o seu último título de campeão nacional, decidido num jogo 5 de reviravolta frente ao Benfica, no Flávio Sá Leite. É essa a memória que o próprio Humberto escolhe como a mais marcante de toda a carreira: “tivemos a catedral do andebol completamente cheia”, recordou recentemente, numa referência ao pavilhão que ajudou a encher tantas vezes ao longo de duas décadas.
Pela seleção nacional, o currículo de Humberto Gomes atinge também os patamares mais altos da modalidade. Destacam-se o Mundial 2021, no Egipto, onde foi eleito o melhor jogador em campo no encontro frente à gigante Noruega, e a presença nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, disputados já em 2021, que marcaram o regresso de Portugal a uma fase final olímpica de andebol masculino ao fim de décadas de ausência.
Ao anunciar o fim da carreira como atleta, Humberto Gomes dedicou o seu percurso a três nomes que já não estão entre nós: Alfredo Quintana, guarda-redes do FC Porto e da seleção nacional, que faleceu em 2021 aos 32 anos; Paulo Morgado, guardião histórico do ABC e da seleção, falecido há poucas semanas; e Aleksander Donner, o treinador ucraniano que foi selecionador nacional e é apontado por muitos como o maior técnico que passou pelo andebol português. Um gesto que resume bem a forma como Humberto sempre entendeu o andebol: um percurso feito de memória coletiva, não apenas de conquistas individuais.
Humberto Gomes fecha assim um ciclo recheado de conquistas. Do palmarés do guardião, destacam-se duas extintas EHF Challenge Cup, terceiro escalão do andebol europeu, e a nível nacional fecha com 11 troféus: 4 Campeonatos Nacionais, 3 Taças de Portugal, 3 Supertaças e 1 Taça da Liga.
A carreira como atleta chega ao fim, mas a ligação ao ABC não. Humberto Gomes segue agora como treinador de guarda-redes do clube, dando continuidade, de outra forma, ao percurso que começou ali mesmo, há 34 anos.
Atletas vão e vêm, mas Humberto Gomes será um atleta que ficará para a eternidade. O andebol português agradece e aplaude de pé esta grandíssima carreira.
Autor : David Silveira
Imagem : zerozero
