Nem todos os verões são sinónimo de férias, bom tempo, descanso e dias quentes à beira-mar. Alguns carregam datas que a humanidade gostaria de nunca ter escrito. Apenas três dias depois de Hiroshima ter sido devastada pela primeira bomba atómica utilizada em guerra, o mundo assistiu novamente ao poder destrutivo do átomo. A 9 de agosto de 1945, foi a vez de Nagasaki. Numa manhã em que o destino da cidade chegou a depender das nuvens que cobriam outro ponto do Japão, uma segunda explosão nuclear confirmou que o mundo tinha entrado definitivamente numa nova e assustadora era.
Há 81 anos, pelas 11h02, a cidade japonesa de Nagasaki foi atingida pela bomba atómica Fat Man, lançada pelo bombardeiro norte-americano Bockscar. Mais potente do que a bomba utilizada três dias antes em Hiroshima, o engenho explodiu sobre o vale de Urakami e libertou uma força equivalente a cerca de 21 quilotoneladas de TNT. Em poucos segundos, milhares de pessoas perderam a vida, edifícios desapareceram e uma cidade inteira ficou marcada por uma destruição que continuaria a fazer vítimas muito depois de o clarão desaparecer do céu.
Mas Nagasaki quase não foi Nagasaki. O principal alvo da missão norte-americana naquela manhã era Kokura, uma cidade com importantes instalações militares. Quando o Bockscar chegou à região, encontrou o alvo parcialmente encoberto por nuvens e fumo. Depois de várias tentativas sem conseguir as condições necessárias para lançar a bomba, a tripulação seguiu para o alvo secundário, Nagasaki. Também aí as nuvens dificultavam a visibilidade, até que uma abertura momentânea permitiu identificar a cidade. Uma alteração meteorológica de poucos minutos acabou, assim, por separar dois destinos, Kokura escapou à bomba, Nagasaki entrou para sempre na História.
A geografia da cidade acabou por limitar parcialmente a dimensão da devastação. Rodeada por montanhas e distribuída por vários vales, Nagasaki não permitiu que a onda de choque se propagasse da mesma forma que em Hiroshima. Ainda assim, a região de Urakami ficou praticamente destruída. Entre os edifícios atingidos encontrava-se a Catedral de Urakami, então uma das maiores igrejas católicas da Ásia, situada a poucas centenas de metros do hipocentro. As suas ruínas tornaram-se uma das imagens mais marcantes da tragédia e um símbolo de uma cidade que viu desaparecer, num instante, casas, escolas, fábricas, locais de culto e milhares de vidas.
Tal como em Hiroshima porém, a explosão foi apenas o início. Aos mortos imediatos juntaram-se nos dias, meses e anos seguintes, vítimas de queimaduras graves, ferimentos e exposição à radiação. Os sobreviventes, conhecidos como Hibakusha, carregaram durante décadas as consequências físicas e psicológicas daquele 9 de agosto. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas tenham morrido até ao final de 1945, embora seja impossível determinar com absoluta precisão o verdadeiro número de vítimas.
Nagasaki ficaria também inevitavelmente ligada ao fim da Segunda Guerra Mundial. No mesmo dia do bombardeamento, a União Soviética iniciou a ofensiva contra as forças japonesas na Manchúria, depois de declarar guerra ao Japão. Perante a sucessão de acontecimentos Hiroshima, a entrada soviética no conflito e Nagasaki, o imperador Hirohito anunciou a 15 de agosto, a decisão japonesa de aceitar a redenção. A assinatura formal aconteceria a 2 de setembro de 1945, encerrando oficialmente a Segunda Guerra Mundial.
O debate sobre a necessidade e a justificação dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki permanece, mais de oito décadas depois, profundamente controverso. Para os Estados Unidos, os ataques foram apresentados como uma forma de acelerar a redenção japonesa e evitar uma invasão terrestre que poderia provocar um número ainda maior de mortos. Outros historiadores e críticos questionam a necessidade do uso de armas nucleares, sobretudo pela dimensão das vítimas civis e pelo contexto militar e diplomático em que o Japão se encontrava. Entre argumentos estratégicos e dilemas morais permanece uma certeza, Nagasaki tornou impossível olhar para a guerra da mesma forma.
Hoje, a cidade que conheceu a destruição nuclear transformou a memória em apelo à paz. Todos os anos, a 9 de agosto, Nagasaki recorda as vítimas e renova a mensagem contra as armas nucleares. No Parque da Paz, a enorme Estátua da Paz aponta uma mão para o céu, lembrando a ameaça nuclear, enquanto a outra se estende horizontalmente, simbolizando a paz. Os olhos fechados prestam homenagem às vítimas.
Três dias separaram Hiroshima de Nagasaki. Poucos minutos e algumas nuvens separaram Kokura do mesmo destino. O verão de 1945 mostrou, talvez como nenhum outro momento da História, até que ponto decisões humanas, circunstâncias e acaso podem alterar para sempre a vida de milhares de pessoas. O clarão que iluminou Nagasaki durou apenas alguns segundos, mas a sua sombra atravessou gerações. Oitenta e um anos depois, recordar Nagasaki não é apenas olhar para aquilo que aconteceu. É lembrar aquilo que nunca mais pode acontecer.
Ana Linhares