A crise migratória em Ceuta, o envio da chamada “Lei do Retorno e Asilo” para o Tribunal Constitucional, a polémica em torno dos exames nacionais, a descida prevista dos preços dos combustíveis, a evolução das contas públicas e a continuidade dos conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia são os principais temas em destaque no Expresso Político desta semana.
A crise migratória em Ceuta continuou a marcar a agenda política europeia, depois da entrada em massa de dezenas de milhares de pessoas provenientes de Marrocos. A situação levou Espanha a reforçar o controlo da fronteira e a pedir maior apoio europeu, tendo Portugal apoiado a realização de uma reunião extraordinária dos ministros da Administração Interna da União Europeia para analisar a crise. A questão migratória teve também repercussões em Portugal, com o Presidente da República, António José Seguro, a enviar para o Tribunal Constitucional o diploma sobre o retorno de estrangeiros e a concessão de asilo, suscitando dúvidas sobre algumas das suas normas, nomeadamente em matéria de separação familiar e expulsão de menores ou de progenitores de crianças portuguesas. O Governo, por sua vez, defendeu uma política migratória mais controlada e orientada para as necessidades do mercado de trabalho. O ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, considerou que o modelo de “portas escancaradas” à imigração “não deu bom resultado”, embora tenha defendido que Portugal deve continuar disponível para receber trabalhadores estrangeiros que tenham condições para viver e trabalhar no país.
Na educação, os exames nacionais voltaram a estar no centro da atualidade. Os resultados da segunda fase e das reapreciações da primeira fase começaram a ser divulgados, mas persistiram problemas na entrega das classificações a algumas escolas. O Ministério da Educação garantiu que apenas um número residual de resultados permanecia por enviar e assegurou que nenhum aluno seria impedido de se candidatar ao ensino superior na primeira fase. A polémica resulta dos problemas registados este ano com o novo modelo de classificação digital das provas, que provocou atrasos e levou a um número muito elevado de pedidos de reapreciação. Mais de 20 mil alunos tinham pedido a reapreciação das notas da primeira fase, mais do triplo do número registado no ano anterior, mantendo o processo de classificação dos exames como uma das principais polémicas na área da Educação durante este verão.
No plano económico, uma das notícias com impacto mais direto no orçamento das famílias é a forte descida prevista para os preços dos combustíveis a partir de segunda-feira, 10 de agosto. As previsões do setor apontam para uma redução de cerca de 12 cêntimos por litro no gasóleo e 12,5 cêntimos na gasolina. A 7 de agosto, o preço médio do gasóleo encontrava-se nos 2,051 euros por litro e o da gasolina nos 1,98 euros, pelo que a descida representa um alívio significativo para os consumidores. A redução resulta sobretudo da evolução das cotações internacionais do petróleo, depois de semanas marcadas pela instabilidade no Médio Oriente.
Também na economia, os dados mais recentes mostram sinais positivos no crescimento português, com o Produto Interno Bruto a crescer 2,5% em termos homólogos no segundo trimestre de 2026 e 0,8% face aos três meses anteriores. O resultado representa uma aceleração da economia portuguesa relativamente ao trimestre anterior, com as exportações de bens e serviços a contribuírem para a evolução positiva. Em sentido menos positivo, a dívida pública voltou a provocar críticas ao Governo. O rácio da dívida pública aumentou de 91% para 92,9% do PIB entre o primeiro e o segundo trimestre, uma subida de 1,9 pontos percentuais. André Ventura classificou os dados como sinal de “péssima gestão” do Governo, enquanto o Executivo tem defendido que a evolução deve ser analisada no contexto da trajetória global das contas públicas e do crescimento económico. O aumento trimestral surge numa altura em que Portugal tinha conseguido reduzir significativamente o peso da dívida nos últimos anos, depois de ter encerrado 2025 com um rácio de 89,7% do PIB.
No plano internacional, a guerra entre os Estados Unidos e o Irão continuou a provocar fortes consequências políticas e económicas. Durante a semana, Donald Trump cancelou uma operação militar que estava prevista contra o Irão, abrindo espaço para novas negociações e provocando uma descida significativa dos preços do petróleo nos mercados internacionais. O Brent chegou a cair cerca de 7%, refletindo as expectativas de uma possível redução das tensões e de uma eventual reabertura das rotas de transporte no Golfo. Apesar disso, as negociações continuam marcadas pela incerteza e permanecem em aberto questões relacionadas com o controlo do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo. Ao mesmo tempo, o Senado norte-americano aprovou por larga maioria um novo pacote de sanções contra a Rússia e o Irão, aumentando a pressão económica sobre os dois países e prevendo a possibilidade de novas tarifas sobre Estados que mantenham uma forte dependência energética de Moscovo.
Na guerra de Gaza, a tentativa de alcançar um acordo de paz sofreu um novo revés. O Presidente norte-americano, Donald Trump, tinha anunciado um plano de 15 pontos destinado a avançar para o fim do conflito e ao desarmamento do Hamas. No entanto, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, anunciou que Israel rejeita o plano nos termos apresentados e afirmou que não haverá retirada das forças israelitas enquanto o Hamas não estiver completamente desarmado. A decisão representa mais um obstáculo às negociações e mantém a incerteza sobre o futuro de Gaza.
Na Ucrânia, a guerra continua igualmente sem uma solução à vista. A Rússia manteve os ataques com drones e mísseis contra várias cidades ucranianas, provocando mortos e dezenas de feridos. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos e os aliados europeus continuam a discutir a necessidade de reforçar a defesa aérea ucraniana e de aumentar o papel da Europa na sua própria segurança. A guerra continua, assim, ligada ao debate mais amplo sobre a segurança europeia, especialmente num momento em que os recursos militares norte-americanos estão também sob pressão devido ao conflito com o Irão.
João Barbas