Um problema para depois

Um problema para depois

É fácil criticar o pânico de alguém quando não somos nós a senti-lo.

Vejamos o seguinte cenário: um aluno com um sonho esforça-se; estuda, vai a todas as aulas e até tem um comportamento exemplar. Faz os exames nacionais com a expectativa de entrar no curso e universidade que sempre sonhou e para que tanto se esforçou. A prova perde-se, existem apenas fragmentos dela que não podem ser interpretados isoladamente. O aluno quer respostas, quer que o seu trabalho seja avaliado corretamente, com o rigor que merece para não ter de adiar o seu sonho. Os seus pais marcaram férias, o tão merecido descanso para depois retomar o trabalho árduo. Será que vamos ter de cancelar as férias? Será o meu exame corrigido a tempo? Será que o professor que o corrigiu teve tempo e recursos para corrigir com olhos atentos? Será que vou ter de repetir a prova?

A culpa não é dos professores. A culpa não é do aluno. A culpa não é das férias em família.

Queremos inovar. Queremos fazer parte da era tecnológica, então vamos alterar todo o sistema de correção das provas mais importantes para o futuro dos nossos jovens. Não, não vamos alterar o ensino em si, apenas a correção dos exames nacionais. Os alunos estão cada vez menos interessados por causa dos telemóveis. A culpa é dos telemóveis. Não conseguimos chamar a atenção deles, a culpa não é nossa, nem do sistema; é dos telemóveis! Agora que queremos digitalizar a correção das provas estão todos revoltados, um “alarmismo” absurdo. Tudo se vai resolver. Quer dizer, nós fomos alertados pela Missão Escola Pública desde abril para os problemas que podiam surgir, mas isso era um problema para depois. Agora, o depois chegou e nós estamos a resolver tudo, está tudo sob controlo. Parem lá com esse drama descabido!

É fácil criticar o pânico de alguém quando não somos nós a senti-lo. Qualquer coisa, não vamos de férias, são apenas férias em família. Depois o aluno, o filho, quiçá entra na universidade que fica tão longe de casa, tão longe da mãe, do pai e dos seus irmãos. Qual é o mal de cancelar estas férias em família?

Não fiz a mais pequena diligência para pôr este plano em prática […] fui inconsciente como uma criança […] mesmo com a ideia dos perigos não fiz mais do que brincar, descurando os verdadeiros perigos.” – Franz Kafka

Irene Silva