Psicologia de Tolerância

Psicologia de Tolerância

Psicologia de Tolerância

A tolerância define-se como a capacidade de respeitar e aceitar as diferenças entre indivíduos e grupos, sejam estas culturais, religiosas, sociais ou políticas. Segundo a “Declaração de Princípios sobre a Tolerância” da UNESCO (1995, as cited in UNESCO, 2023), esta corresponde ao “respeito, aceitação e apreço pela rica diversidade das culturas e formas de expressão humanas”. Assim, a tolerância implica reconhecer que as pessoas podem ter valores ou estilos de vida diferentes sem comprometer a convivência social. Trata-se de um valor essencial para sociedades democráticas, pois promove o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais (United Nations Regional InformationCentre, 2023).

Do ponto de vista psicológico, a tolerância assenta em vários processos fundamentais como a empatia, a inteligência emocional e a tomada de perspetiva. A empatia refere-se à capacidade de compreender e responder aos estados emocionais de outras pessoas, podendo manifestar-se de duas formas principais: a empatia cognitiva, que envolve a compreensão dos pensamentos e sentimentos do outro, e a empatia afetiva, que se refere à capacidade de partilhar ou sentir as emoções de outra pessoa. Estes processos permitem interpretar as experiências alheias e responder de forma mais compreensiva nas interações sociais (Zirenko & Krasavtseva, 2021; Shi & Du, 2020). 

Entre os mecanismos que sustentam a empatia, destaca-se a tomada de perspetiva, isto é, a capacidade de imaginar uma situação a partir do ponto de vista de outra pessoa. Quando os indivíduos são incentivados a colocar-se na posição de alguém que necessita de ajuda, tendem a apresentar respostas empáticas mais intensas e maior sensibilidade perante o sofrimento alheio. Este processo facilita a compreensão das experiências dos outros e pode incentivar comportamentos mais solidários e cooperativos nas relações sociais (Beussink et al., 2017). 

Para além da empatia, a inteligência emocional constitui outro elemento central na base psicológica da tolerância. Indivíduos com níveis mais elevados desta competência demonstram maior capacidade para identificar, compreender e regular as próprias emoções, bem como para reconhecer as emoções dos outros. Estas competências favorecem relações interpessoais mais positivas, facilitam a comunicação e aumentam a probabilidade de os indivíduos adotarem a perspetiva do outro e demonstrarem preocupação empática, elementos essenciais para o desenvolvimento de atitudes tolerantes (Shi & Du, 2020; Tekke, 2026). 

Neste enquadramento, a psicologia social aprofunda o conceito ao nível intergrupal, definindo a tolerância não apenas como a ausência de preconceito, mas como a aceitação deliberada de crenças, valores ou práticas com os quais um indivíduo discorda ou desaprova. É fundamental distinguir que a tolerância não significa “valorizar a diversidade” ou ser indiferente; pelo contrário, exige que o indivíduo supere um julgamento crítico negativo inicial em favor de princípios mais amplos, como a liberdade ou a paz social (Verkuyten et al., 2022).

Para além dos processos individuais, a investigação destaca também fatores contextuais que influenciam a tolerância nas relações sociais, nomeadamente o ambiente onde o indivíduo cresce, sendo este o primeiro mediador da sua visão sobre o “outro” (Rodriguez et al., 2017). A perceção de apoio ou desaprovação dos pais em relação a relações intergrupais constitui um dos preditores mais fortes da distância social em jovens. Se os filhos sentem que os pais aprovam o contacto com membros de grupos minoritários, a sua predisposição para a tolerância aumenta significativamente (Ata et al., 2009). Da mesma forma, escolas que promovem um ambiente de apoio à construção de relacionamentos e que fornecem informações sobre diferentes culturas ajudam os alunos a compreender melhor os grupos minoritários. Neste âmbito, a Hipótese do Contacto Intergrupal afirma que ter um amigo de outro grupo (contacto direto) reduz atitudes negativas e a distância social em relação a esse grupo como um todo. O contacto frequente gera familiaridade (“familiarity breeds liking“), o que tende a aumentar a afeição (Ata et al., 2009).

Neste contexto social, as normas desempenham um papel determinante, estabelecendo aquilo que é considerado “correto” ou esperado dentro de uma sociedade e influenciando de forma significativa o comportamento das pessoas. Muitas vezes, as pessoas ajustam o seu comportamento de acordo com essas normas, por vezes dando-lhes mais importância do que às suas próprias crenças pessoais. Os meios de comunicação social desempenham um papel importante na transmissão dessas normas, tanto descritivas como prescritivas. Quando os media representam grupos minoritários de forma equilibrada e justa, podem promover normas sociais mais tolerantes. Por outro lado, representações estereotipadas ou enviesadas podem reforçar atitudes de intolerância (Ata et al., 2009).

Importa também clarificar uma distinção frequentemente confundida na literatura: a relação entre tolerância e preconceito. Tolerância e preconceito não são opostos diretos, mas processos distintos. Enquanto o preconceito se refere a uma antipatia generalizada em relação a categorias ou grupos de pessoas, a tolerância (especificamente no modelo de abstenção ou forbearance) foca-se na aceitação deliberada de crenças ou práticas específicas de que um indivíduo desaprova, como ideias, opiniões e/ou comportamentos (Verkuyten et al., 2022).

Para que exista tolerância, é necessário que haja uma objeção inicial ou um julgamento negativo. Não se “tolera” algo de que se gosta ou a que se é indiferente. Neste sentido, a tolerância reconcilia o julgamento crítico com a decisão de não interferir na liberdade alheia, exigindo esforço cognitivo e autorregulação. Enquanto que o preconceito e a desaprovação podem ser reações intuitivas e viscerais, a tolerância surge quando processos deliberativos ponderam princípios, como a liberdade de expressão ou direitos iguais, para aceitar o que nos gera desconforto(Verkuyten et al., 2022).

Considerando estes mecanismos psicológicos, torna-se relevante compreender de que forma estas competências se desenvolvem ao longo da vida. A investigação sugere que a tolerância não é apenas uma característica individual estável, mas uma competência que pode ser desenvolvida através da educação, da experiência social e da aprendizagem socioemocional (Tekke, 2026). 

Neste processo de desenvolvimento, destaca-se o papel da consciência social, entendida como a capacidade de perceber e interpretar as emoções e necessidades de outras pessoas em diferentes contextos sociais. Indivíduos com maior consciência social tendem a demonstrar maior empatia, capacidade de colaboração e sensibilidade às diferenças presentes nos grupos sociais. Estas competências facilitam a construção de relações interpessoais baseadas no respeito e na compreensão mútua (Tekke, 2026). 

O desenvolvimento destas competências está também associado à aprendizagem socioemocional e às experiências sociais que promovem a compreensão das emoções e das perspetivas dos outros. Níveis mais elevados de inteligência emocional e consciência social estão relacionados com maior empatia e formas mais construtivas de lidar com conflitos interpessoais. Ao favorecer a compreensão de diferentes pontos de vista e a regulação emocional, estas competências podem contribuir para o desenvolvimento de atitudes mais tolerantes nas interações sociais (Tekke, 2026; Shi & Du, 2020). 

A nível conceptual, é importante diferenciar a tolerância do relativismo uma vez que ambos se relacionam com a aceitação da diversidade, mas assentam em processos cognitivos e morais diferentes. A principal diferença está na atitude inicial perante uma prática ou crença (Verkuytenet al., 2022).

A tolerância implica necessariamente a existência de desaprovação. Uma pessoa pode considerar determinada ideia ou comportamento errado ou desagradável, mas decide não interferir, permitindo a sua existência por respeito a princípios mais amplos, como a liberdade de expressão ou os direitos individuais. Já o relativismo tende a defender que não existem padrões universais para julgar outras culturas ou valores, levando muitas vezes a uma postura de neutralidade ou de suspensão do julgamento (Verkuyten et al., 2022).

Outra diferença relevante prende-se na existência de limites. A tolerância não significa aceitar tudo indiscriminadamente. Existem práticas consideradas intoleráveis, sobretudo quando violam direitos humanos, causam danos ou promovem opressão. Quando uma prática entra em conflito com princípios morais fundamentais, ela ultrapassa os limites da tolerância e pode ser rejeitada (Verkuyten et al., 2022). Por outro lado, o relativismo baseia-se na ideia de que normas e valores devem ser avaliados apenas dentro do contexto cultural em que surgem, defendendo que não é possível julgá-los a partir de critérios externos. Estudos de desenvolvimento cognitivo sugerem que a capacidade de tolerar é psicologicamente mais complexa do que uma postura relativista de indiferença. Enquanto o relativismo pode ser entendido como uma forma de neutralidade ou ausência de julgamento, a tolerância representa uma atitude ativa que concilia o julgamento crítico com o respeito pelo direito à diferença (Verkuyten et al., 2022).

Para além da sua natureza desenvolvimental, a tolerância apresenta igualmente benefícios relevantes para o funcionamento individual e social. Um dos principais efeitos associados à empatia é o aumento de comportamentos pró-sociais e altruístas. Estudos indicam que níveis mais elevados de empatia estão associados a uma maior probabilidade de os indivíduos ajudarem os outros e adotarem comportamentos cooperativos, enquanto níveis reduzidos de empatia podem relacionar-se com comportamentos prejudiciais, como a violência (Zirenko& Krasavtseva, 2021). 

Adicionalmente, a presença de empatia e consciência social contribui igualmente para relações interpessoais mais positivas e ambientes sociais mais harmoniosos, com interações sociais mais construtivas e resolução pacífica de conflitos. Desta forma, a tolerância pode desempenhar um papel importante na promoção de comunidades mais inclusivas e colaborativas (Tekke, 2026). 

Estas competências encontram-se ainda associadas ao bem-estar psicológico. Indivíduos com maior inteligência emocional e capacidade empática apresentam níveis mais elevados de bem-estar e menor sofrimento psicológico, uma vez que conseguem lidar de forma mais adaptativa com situações emocionalmente exigentes e contribuem para uma maior resiliência e qualidade de vida (Shi & Du, 2020; Tekke, 2026). 

Apesar destes benefícios, a tolerância enfrenta desafios significativos na sua aplicação prática, sobretudo quando estão em causa valores pessoais, crenças religiosas ou identidades culturais. Nessas situações, as diferenças podem ser percecionadas como ameaças às próprias convicções ou ao grupo social (UNESCO, 1995).

De facto, diversos estudos mostram que muitas pessoas defendem a tolerância em teoria, mas podem revelar comportamentos intolerantes em contextos emocionalmente intensos ou perante grupos com os quais discordam profundamente, evidenciando a complexidade psicológica e social deste conceito (Hjerm et al., 2020). Por esta razão, organizações internacionais sublinham a importância de promover a tolerância através da educação, do diálogo e da compreensão intercultural, como forma de fortalecer sociedades mais inclusivas e democráticas (UNESCO, 2023).

Referências

Ata, A., Bastianb, B. & Lusher, D. (2009). Intergroup contact in context: The mediating role of social norms and group-based perceptions on the contact–prejudice link. Elsevier, 33, 498-506.http://dx.doi.org/10.1016/j.ijintrel.2009.05.001

Beussink, C. N., Hackney, A. A., & Vitacco, M. J. (2017). The effects of perspective taking on empathy-related responses for college students higher in callous traits. 

Hjerm, M.  Eger, M., Bohman, A. & Connolly, F. (2020). A new approach to the study of tolerance: Conceptualizing and measuring acceptance, respect and appreciation of difference. Springer, 147, 897–919https://doi.org/10.1007/s11205-019-02176-y

Personality and Individual Differences, 119, 86–91. https://doi.org/10.1016/j.paid.2017.07.005 

Rodriguez, C., Baker, L., Pu, D. & Tucker, M. (2017). Predicting parent-child aggression risk in mothers and fathers: Role of emotion regulation and frustration tolerance. Child Fam Stud, 26, 2529–2538.https://doi.org/10.1007/s10826-017-0764-y

Shi, M., & Du, T. (2020). Associations of emotional intelligence and gratitude with empathy in medical students. BMC Medical Education, 20, 116. https://doi.org/10.1186/s12909-020-02041-4 

Tekke, M. (2026). Beyond emotion: Social awareness as a key to wellbeing and reduced violence tendency in university students. Humanities and Social Sciences Communications, 13, 174. https://doi.org/10.1057/s41599-025-06475-3 

UNESCO. (1995). Declaration of principles on tolerance. UNESCO. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000134037

UNESCO. (2023). Tolerance.https://www.unesco.org/en/tags/tolerance

United Nations Regional Information Centre. (2023). A importância da tolerância num mundo dividido.https://unric.org/pt/a-importancia-da-tolerancia-num-mundo-dividido/ 

Verkuyten, M., Yogeeswaran, K. & Adelman, L. (2022). The social psychology of intergroup tolerance and intolerance. European Review of Social Psychology, 34(1), 1-43. https://doi.org/10.1080/10463283.2022.2091326

Zirenko, M. S., & Krasavtseva, Y. V. (2021). Tolerance of uncertainty and emotional intelligence as predictors of empathy. European Proceedings of Social and Behavioural Scienceshttps://doi.org/10.15405/epsbs.2021.12.02.80 

Autoria: NUPSI

Imagem: Érica Oliveira