O trono europeu não se conquista duas vezes por acaso| PSG 1-1 (4-3 após g.p.) Arsenal 

UEFA Champions League via “X”

O Paris Saint-Germain venceu, este sábado, o Arsenal na final da Liga dos Campeões, em Budapeste, revalidando o título europeu depois de triunfar nas grandes penalidades,por 4-3, após um empate a um golo no final dos 120 minutos. 

Kai Havertz adiantou os ingleses ainda nos primeiros instantes da partida, Ousmane Dembélé empatou de penálti na segunda parte e, no desempate decisivo, os erros de Eberechi Eze e Gabriel Magalhães acabaram por entregar aos parisienses uma conquista que os coloca entre os raros clubes capazes de vencer duas edições consecutivas da competição.

Ora, na verdade, muito antes de a bola rolar, a final já continha uma discussão fascinante. De um lado, estava uma equipa que procurava transformar um título numa dinastia. Do outro, encontrava-se um clube que queria tocar pela primeira vez numa taça que lhe escapara há duas décadas. 

A pergunta parecia simples, mas carregava uma profundidade difícil de medir. Quem tem mais fome? Quem já conhece o sabor da vitória e deseja repeti-lo ou quem nunca o experimentou e vive obcecado por alcançá-lo? Durante mais de duas horas, PSG e Arsenal tentaram responder a essa questão sem nunca o conseguirem fazer de forma definitiva.

O futebol, tantas vezes, mais do que um jogo, é uma ideia. Uma imagem construída antes do apito inicial. Um conjunto de expectativas que se cruzam, de teorias que se confrontam e de convicções que procuram sobreviver ao impacto da realidade. Em Budapeste, aconteceu precisamente isso, na medida em que a final se transformou numa disputa entre conceções distintas do jogo, entre uma equipa que acreditava na superioridade da sua estrutura coletiva e outra que aceitava partir de uma posição teoricamente inferior para transformar cada metro de relvado numa batalha.

Mikel Arteta apresentou uma escolha que dizia muito sobre aquilo que pretendia fazer. Ao optar porMyles Lewis-Skelly em detrimento de Martín Zubimendi, o treinador espanhol renunciava ainda mais ao controlo da posse do que seria previsível numa final contra o PSG. A mensagem era clara. O Arsenal não queria disputar o jogo nos termos do adversário, mas pretendia sobreviver sem bola, fechar espaços e tornar a vida impossível ao trio de meio-campo formado por Vitinha, João Neves e Fabián Ruiz. Era um plano de enorme ambição defensiva e, de facto, durante muito tempo, resultou de forma quase irrepreensível.

Aliás, o golo surgiu cedo demais para qualquer previsão. Apenas cinco minutos tinham passado quando um lance aparentemente inofensivo mudou por completo a narrativa da final. Marquinhos tentou aliviar a bola, LeandroTrossard ganhou o ressalto e Kai Havertz apareceu lançado. Tal como fizera pelo Chelsea, na final de 2021, frente ao Manchester City, em pleno Estádio do Dragão, ointernacional alemão acelerou sem oposição, transportou a bola durante dezenas de metros e disparou com violência para bater Matvey Safonov.

Foi um daqueles momentos que parecem alterar a gravidade de um jogo inteiro. De repente, o favoritismo do PSG ficou preso a uma desvantagem inesperada. E, talvez mais importante ainda, o Arsenal passou a poder jogar exatamente o jogo que queria.

Isto porque, a partir desse instante, a equipa inglesa construiu uma das exibições defensivas mais impressionantes que me recordo de ver numa final da Liga dos Campeões. Pode discutir-se a estética. Pode discutir-se a passividade em determinados momentos. O que não se pode discutir é a qualidade da execução.

O 4-4-2 dos londrinos funcionava como um mecanismo de precisão. Fechava completamente as entrelinhas, negava espaço no corredor central e obrigava o PSG a circular a bola por fora. Havertz e Martin Ødegaard protegiam as entradas interiores, Declan Rice e Lewis-Skelly controlavam tudo o que surgia à frente da defesa, BukayoSaka recuava constantemente para impedir as combinações entre Kvicha Kvaratskhelia e Nuno Mendes, enquanto Gabriel Magalhães e William Saliba dominavam a área com uma autoridade impressionante.

Por sinal, durante largos períodos, parecia que o PSG tinha a bola apenas porque o Arsenal permitia que a tivesse. É precisamente aqui que a estatística falha tantas vezes na análise do futebol. O PSG acumulava posse, trocava centenas de passes e passava grande parte do tempo instalado no meio-campo contrário. No entanto, raramente criava verdadeiro perigo. No fundo, a posse existia, mas a ameaça não.

Vitinha procurava assumir protagonismo na construção, Fabián Ruiz descia frequentemente para participar no início das jogadas e até jogadores mais adiantados recuavam para procurar contacto com a bola. O problema é que esse movimento constante acabava por reduzir o próprio espaço da equipa parisiense. Rice e Lewis-Skelly sentiam-se confortáveis porque ninguém procurava verdadeiramente explorar as suas costas. As referências eram claras, pelo que o Arsenal as identificava facilmente e respondia sem sobressaltos.

O resultado foi um PSG algo estranho. Uma equipa habituada a desmontar adversários através da criação de superioridades constantes e que, desta vez, se via reduzida a cruzamentos sucessivos para uma área controlada por Gabriel e Saliba.

Neste contexto, por muito que se valorize o talento ofensivo dos franceses, é impossível não reconhecer o mérito do trabalho defensivo dos ingleses. Houve momentos em que a organização do Arsenal fez lembrar os melhores blocos de José Mourinho no Chelsea, no Inter ou no Real Madrid. Acompanhamentos perfeitos, coberturas permanentes, distâncias curtas e concentração absoluta. Numa palavra, soberbo. Aprecie-se ou não o método, aquilo era uma verdadeira aula sobre como defender.

E enquanto o PSG procurava respostas, o Arsenal continuava a encontrar pequenas brechas para ameaçar. Havertz, numa exibição de manual para quem aprecia avançados capazes de desmontar pressões sem precisar de tocar constantemente na bola, esteve perto de bisar já nos descontos da primeira parte, só que uma intervenção decisiva de Marquinhos impediu que os ingleses chegassem ao intervalo com uma vantagem ainda mais confortável.

Quando o árbitro apitou para o descanso, a sensação era inevitável. O Arsenal tinha produzido 45 minutos muito próximos da perfeição dentro daquilo que pretendia executar. O PSG tinha mais bola, mas não tinha controlo emocional nem territorial da final.

E, no entanto, havia uma dúvida que permanecia suspensa sobre Budapeste: seria possível manter aquele nível de exigência defensiva durante mais 45 minutos?

A resposta começou a surgir precisamente onde o jogo parecia indicar que teria de surgir. Pela esquerda, isto é, pelo corredor onde o talento individual do Paris Saint-Germain era mais difícil de controlar durante noventa minutos inteiros.

Até ao intervalo, Kvaratskhelia tinha vivido quase permanentemente cercado. Sempre que recebia, encontrava duas camisolas vermelhas à sua espera. Nuno Mendes também passara largos períodos preso às exigências defensivas impostas por Bukayo Saka. Mas, naturalmente, havia um limite para tudo e o desgaste começou lentamente a aproximar-se desse limite.

Deste modo, a segunda parte trouxe um Arsenal diferente. Não necessariamente por escolha, mais por necessidade.

Defender tão bem exige uma quantidade brutal de energia física e mental. Cada cobertura tem de ser perfeita, cada deslocação tem de acontecer no instante exato, cada referência tem de ser mantida durante segundos que parecem minutos. E quando a fadiga aparece, surgem,inevitavelmente, pequenos atrasos, seja meio metro de espaço, um segundo de hesitação ou uma cobertura que chega ligeiramente tarde.

Contra uma equipa comum isso pode não significar nada, mas, contra o PSG significa quase tudo.

Arteta percebeu, portanto, que os seus pupilos já não podiam limitar-se a esperar. Os ingleses começaram a subir mais vezes na pressão, procurando impedir que os franceses instalassem o jogo no último terço. O problema é que esse contexto favorece precisamente aquilo que o campeão europeu faz melhor, ou seja, atrair para depois progredir.

Desta forma, a pressão deixou de encontrar o mesmo sucesso da primeira parte. O PSG começou finalmente a superar a primeira linha defensiva inglesa com alguma regularidade. Os espaços surgiram, as distâncias aumentaram e, consequentemente, o jogo entrou numa fase completamente diferente.

Foi também (e sobretudo) aí que Kvaratskhelia apareceu verdadeiramente na final. Até então escondido pelo rigor defensivo adversário, o georgiano começou a receber em condições mais favoráveis. Nuno Mendes passou a acompanhá-lo com maior frequência. Paralelamente, Désiré Doué também encontrou um contexto menos congestionado para atacar a última linha. Pela primeira vez, o Arsenal sentiu desconforto. Era impossível não sentir, verdade seja dita.

Efetivamente, durante largos meses, o PSG mostrou ser a equipa europeia mais capaz de destruir adversários coletivamente no último terço. Uma equipa capaz de criar padrões ofensivos sofisticados, de gerar combinações sucessivas e de transformar pequenas vantagens em ocasiões claras de golo. Em Budapeste, o Arsenal conseguiu reduzir drasticamente essa capacidade durante uma hora, mas não conseguiu eliminá-la por completo, pelo que, aos poucos, a pressão tornou-se insustentável.

Achraf Hakimi avisou primeiro através de um livre direto que David Raya segurou sem dificuldade. Pouco depois surgiu o momento que alterou definitivamente a história da final.

Kvaratskhelia recebeu na área depois de mais uma combinação pelo corredor esquerdo. Cristhian Mosquera, que até então realizara uma exibição muito competente, chegou ligeiramente atrasado ao lance. O contacto existiu. Daniel Siebert não hesitou. Penálti.

Dembélé caminhou para a marca dos onze metros rodeado por uma tarde estranha. A verdade é que o francês nunca conseguiu ter grande influência no jogo corrido. Foi bem controlado durante quase toda a partida e encontrou dificuldades para receber em condições favoráveis. Ainda assim, o futebol tem esta capacidade singular para transformar jogadores que estão a protagonizar exibições discretas em protagonistas absolutos num único instante.

Dembélé não vacilou. Raya caiu para um lado. A bola seguiu para o outro. Budapeste voltava ao ponto de partida. Mas não era realmente o mesmo jogo.

O empate abriu espaços, libertou corredores, desfez parte das amarras estratégicas que tinham condicionado a final durante mais de uma hora. Adicionalmente, o Arsenal viu-se obrigado a procurar algo mais, o que permitiu ao PSG passar a encontrar aquilo que procurara durante todo o encontro.

Foi precisamente nesse momento que os franceses estiveram mais perto de ganhar o troféu sem recurso ao prolongamento. Kvaratskhelia protagonizou uma arrancada extraordinária, bateu Saliba e rematou, só que o poste salvou o Arsenal. Durante uma fração de segundo, a reviravolta pareceu inevitável, mas o ferro decidiu o contrário.

Pouco depois, Vitinha apareceu à entrada da área e disparou ligeiramente por cima. A imagem simbolizava bem a sua exibição. Nem sempre vistosa, mas quase sempre influente. Cada ataque parisiense passava pelos seus pés, cada fase de construção começava na sua inteligência posicional. Num futebol cada vez mais acelerado, Vitinha continua a jogar com uma serenidade quase desconcertante.

Ainda assim, para mim, o grande símbolo dos pentacampeões franceses foi outro: João Neves. É escandalosamente bom aquilo que João Neves fez durante toda esta temporada, bem como nesta final.

Fala-se muito de Vitinha, justamente. Aliás, não foi por acaso que foi eleito o melhor jogador em campo nesta final. Mas João Neves oferece uma coleção de soluções que poucos médios do futebol mundial conseguem apresentar, no sentido em que recupera bolas, fecha espaços, antecipa-se, cobre, apoia permanentemente, transporta, tem critério com bola e intensidade sem o esférico. Em síntese, parece existir sempre uma resposta disponível para cada problema que o jogo coloca.

O Arsenal, por seu lado, ainda tentou responder. Viktor Gyökeres entrou para acrescentar profundidade,Jurriën Timber procurou dar outra agressividade ao corredor, ao passo que Gabriel Martinelli e Noni Madueke tentaram aproveitar os espaços deixados por um PSG mais exposto. Contudo, as melhores ocasiões continuaram a surgir junto da baliza inglesa.

Vitinha voltou a ameaçar e Barcola teve duas oportunidades importantes – uma delas terminou na malha lateral já em tempo de compensação, sendo que a outra encontrou a coragem habitual de David Raya.

E assim, quase sem que ninguém desse verdadeiramente por isso, a final caminhou para um destino que durante muito tempo parecera improvável: o prolongamento.

Talvez porque o desgaste já fosse demasiado. Talvez porque o medo de errar começasse a sobrepor-se à vontade de vencer. Talvez porque ambas as equipas compreendessem a proximidade do abismo. A verdade é que o prolongamento teve pouca magia, uma vez que houve duelos, intensidade e sofrimento, mas pouco futebol capaz de decidir uma Liga dos Campeões.

De resto, Vitinha saiu com queixas físicas. O PSG reorganizou-se e o Arsenal voltou a fechar espaços. João Neves e Declan Rice continuaram a fazer aquilo que fazem melhor, recuperando bolas que parecem perdidas e resolvendo silenciosamente problemas que poucos conseguem identificar.

A decisão aproximava-se e seria tomada no local onde a racionalidade deixa de existir: na fatídica marca dos onze metros.

Há uma diferença enorme entre imaginar um penálti decisivo e viver a essência de um penálti decisivo. Na infância daqueles que tanto amam o desporto rei, a cena repete-se milhares de vezes. O relógio marca o último minuto. O estádio inteiro prende a respiração. A bola espera sobre a marca dos onze metros. O remate entra. O herói nasce.

Na realidade, a história raramente é tão simples. A pressão pesa mais. As pernas respondem menos. O silêncio torna-se ensurdecedor. E o sonho de uma vida inteira pode desaparecer numa fração de segundo. Foi exatamente isso que aconteceu em Budapeste.

Enquanto os jogadores se reuniam antes do desempate, David Raya estudava apontamentos rodeado pelo treinador de guarda-redes, pelo suplente Kepa Arrizabalaga e por elementos da equipa técnica. Procurava padrões, tendências ou pequenos detalhes que pudessem fazer a diferença.

Do outro lado, os jogadores do PSG carregavam uma confiança construída por anos de crescimento coletivo e pela convicção de quem já tinha passado por momentos semelhantes.

Gonçalo Ramos foi o primeiro a avançar e, sem hesitações nem drama, não tremeu. Gyökeres respondeu da mesma forma. Doué também converteu. Até aí, nada separava as equipas.

A primeira fissura surgiu quando Eberechi Eze colocou a bola ao lado da baliza. A pressão mudou imediatamente de campo, até porque Nuno Mendes tinha a possibilidade de aumentar a vantagem parisiense, mas Raya adivinhou o lado e defendeu. O Arsenal respirou de novo. Rice marcou. Hakimi respondeu. Martinelli também não falhou. Lucas Beraldo manteve a vantagem francesa.

E chegou, então, o momento que define tantas finais.

Gabriel Magalhães caminhou sozinho em direção à marca de penálti. Durante 120 minutos tinha sido um dos melhores jogadores em campo, ao liderar uma defesa extraordinária, tendo cortado cruzamentos, fechado espaços e dominado duelos. Na realidade, representava tudo aquilo que o Arsenal tinha feito de bem naquela tarde.

Porém, o futebol tem uma crueldade muito própria, já que, por vezes, transforma heróis em vítimas num único instante.

Gabriel rematou por cima, a bola subiu, o sonho desceu ea final terminou nesse preciso momento.

As lágrimas do central brasileiro explicaram melhor do que qualquer análise aquilo que significa perder uma Liga dos Campeões desta forma. Poucos jogadores mereciam aquele desfecho individual depois da exibição que tinham realizado, mas o futebol não distribui recompensas em função do merecimento emocional. Pelo contrário, distribui-as em função dos detalhes e esses sorriram ao PSG.

No final, olhando para os 120 minutos, fica uma sensaçãoque talvez desagrade aos que procuram respostas simples, dado que o Arsenal executou brilhantemente o plano que desenhou, mas o PSG foi a melhor equipa. E as duas afirmações podem, perfeitamente, coexistir sem qualquer contradição.

Afinal, durante uma hora, os londrinos aproximaram-se muito da perfeição dentro da estratégia que escolheram, tendo em consideração o facto de terem defendido deforma extraordinária, de terem fechado os espaços interiores, de terem anulado as principais dinâmicas que normalmente tornam o PSG imparável, e, acima de tudo, de terem mostrado uma disciplina coletiva raríssima neste nível competitivo.

Mas também é verdade que, depois do golo de Havertz, recusaram praticamente toda a iniciativa ofensiva e esse detalhe acabou por ter consequências. Quando uma equipa abdica de atacar, entrega inevitavelmente mais posse, mais território e mais oportunidades ao adversário. Pode sobreviver durante algum tempo. Pode sobreviver durante muito tempo. O que raramente consegue é sobreviver para sempre.

O PSG passou grande parte da tarde abaixo daquilo que normalmente produz, muito por mérito do Arsenal, uma vez que, como já referido, não encontrou os corredores habituais, não conseguiu criar superioridades com frequência, viu Dembélé desaparecer durante longos períodos, circulou de forma demasiado lenta e previsível, e foi quase obrigado a recorrer a cruzamentos em quantidade quase desesperada.

Ainda assim, continuou a insistir, a procurar e a acreditar. E quando finalmente encontrou uma combinação capaz de romper a muralha inglesa, transformou-a no empate que mudou tudo.

A partir desse instante, o encontro passou a pertencer mais aos franceses. As transições podiam ter consumado a reviravolta, até porque Kvaratskhelia esteve a centímetros dela, Vitinha também e Barcola igualmente. Faltou apenas uma definição mais eficaz. Por isso mesmo, os penáltis acabaram por parecer uma conclusão lógica e, de certa forma, justa.

Numa final com pouca magia e muitos duelos, com menos brilho ofensivo do que seria expectável para duas equipas desta dimensão, o PSG demonstrou algo que distingue as equipas históricas das restantes, isto é, a capacidade para vencer mesmo quando não consegue ser a melhor versão de si própria.

Por isso, quando o árbitro apitou pela última vez e os jogadores parisienses correram em direção à bancada, não estavam apenas a celebrar mais uma Liga dos Campeões.Estavam, simultaneamente, a confirmar uma verdade que a Europa já não pode ignorar.

Convém, ainda, referir que, com esta conquista, o emblema gaulês junta-se a Real Madrid, Benfica, Inter de Milão, Ajax, Bayern Munique. Liverpool, Nottingham Forest e AC Milan na lista de equipas que conseguiram a proeza de vencer a Taça dos Campeões Europeus/Liga dos Campeões em dois anos consecutivos. Uma lista reservada aos que conseguem transformar uma conquista numa era e um triunfo isolado numa demonstração de força sustentada.

Pessoalmente, confesso que nunca me revi na forma como o Paris Saint-Germain chegou ao topo do futebol europeu. O projeto nasceu de um investimento sem paralelo, alimentado pelos recursos do Catar e pela ambição de Nasser Al-Khelaifi em transformar um clube relevante numa potência global. 

Durante anos, o PSG pareceu acreditar que o caminho mais curto para a glória passava por acumular estrelas, inflacionar mercados e tentar comprar prestígio à velocidade com que comprava talento. Nunca gostei dessa lógica nem nunca me identifiquei com ela e acredito que pouca gente a aprecie, visto que o futebol vive de muito mais do que de capacidade financeira e, durante demasiado tempo, pareceu existir uma tentativa de forçar a história a acontecer.

Mas também seria intelectualmente desonesto não reconhecer aquilo que o PSG fez para se transformar na equipa que hoje domina a Europa. Houve uma mudança clara de rumo. Houve a inteligência de entregar o projeto a Luis Enrique, um treinador capaz de construir uma ideia coletiva acima dos nomes. Houve a visão de Luís Campos na estrutura desportiva, substituindo a obsessão pelas superestrelas por uma política de recrutamento muito mais criteriosa e funcional. Houve a coragem de trocar o brilho individual pelo compromisso coletivo. 

Atualmente, este PSG não vive de capas de revista nem de galácticos em fim de carreira. Vive de jogadores que correm, pressionam, interpretam o jogo e colocam o coletivo acima do ego. Com maior ou menor simpatia que o clube desperte, o crescimento recente assenta muito mais em competência do que em ostentação. E é precisamente por isso que este bicampeonato europeu parece diferente dos sonhos artificiais que o antecederam. Neste caso, pela segunda vez, tenho a sensação de que o PSG não venceu apenas porque tinha mais dinheiro. Venceu porque se tornou, genuinamente, uma grande equipa.

Realmente, estava mesmo a ver-se que uma equipa construída desta forma não tinha sido feita para vencer apenas uma vez.

Autoria Raúl Saraiva