As Raízes Psicológicas do Fascismo 

As Raízes Psicológicas do Fascismo 

As Raízes Psicológicas do Fascismo 

O que é o fascismo? Um olhar psicológico

A compreensão do fascismo exige um reenquadramento da análise meramente histórica para uma perspetiva que integre a psicologia das massas e a teoria social. Segundo Paxton (2004), o fascismo define-se menos por um corpo doutrinário estático e mais por um conjunto de “paixões mobilizadoras” que exploram o sentimento de declínio da comunidade. Politicamente, manifesta-se através do ultranacionalismo, do culto ao líder e da rejeição do pluralismo, contudo, a sua eficácia reside na capacidade de oferecer uma resposta coletiva a sentimentos profundos de humilhação e perda de controlo (Paxton, 2004).

Nesta perspetiva, o fascismo não é um fenómeno que surge “fora” do indivíduo, mas sim uma ideologia que explora disposições psicológicas comuns, como o desejo de pertença e a necessidade de segurança em tempos de anomia social. Ao transformar a ansiedade individual numa agressão coletiva contra o “outro”, o fascismo providencia uma estrutura de sentido que substitui a complexidade democrática por uma ordem absoluta e excludente (Paxton, 2004). Assim, a base psicológica do fascismo assenta na premissa de que a salvação do grupo justifica a suspensão da liberdade individual e da alteridade.

A personalidade autoritária

O esforço sistemático para mapear os traços psicológicos que predispõem o indivíduo ao fascismo foi realizado por Adorno e os seus colaboradores (1950) na obra The Authoritarian Personality. Através do desenvolvimento da “Escala F”, os autores identificaram um padrão de caráter caracterizado pela submissão acrítica a figuras de autoridade e pela agressividade dirigida contra grupos minoritários ou desviantes.

Para Adorno et al. (1950), este perfil psicológico tende a ver o mundo em termos puramente hierárquicos, onde a obediência é a virtude suprema e qualquer desvio das normas convencionais é percecionado como uma ameaça. A formação desta personalidade estaria, segundo os autores, ligada a contextos familiares e sociais repressivos, onde a hostilidade reprimida contra figuras dominantes é deslocada para grupos exteriores vulneráveis. Embora o modelo tenha evoluído para além das suas premissas psicanalíticas originais, a ideia central permanece relevante: o autoritarismo não é apenas uma escolha política, mas uma predisposição psicológica para a intolerância e para a manutenção de estruturas de poder rígidas. A personalidade autoritária serve, assim, como o solo fértil onde a retórica fascista germina, transformando inseguranças pessoais em dogmatismo político (Adorno et al., 1950).

Medo, ameaça e insegurança como motores psicológicos

A ascensão do fascismo em períodos de instabilidade é explicada por Jost e os seus colaboradores (2003) através do conceito de “conservadorismo como cognição social motivada”. Nesta perspetiva, a adesão a ideologias de extrema-direita é impulsionada por necessidades psicológicas básicas de gestão do medo e da incerteza. Quando as sociedades enfrentam crises económicas, culturais ou existenciais, os indivíduos experienciam uma redução na tolerância à ambiguidade e uma procura acelerada pelo encerramento cognitivo, o desejo de respostas rápidas, firmes e definitivas (Jost et al., 2003).

As crises não são as únicas causas do fascismo, mas atuam como catalisadores que ativam mecanismos de defesa psicológica. Segundo Jost et al. (2003), a perceção de ameaça ao sistema e a instabilidade identitária levam as pessoas a preferir ideologias que prometem ordem e controlo, mesmo à custa da liberdade. O fascismo apresenta-se como um “refúgio” ao simplificar a realidade social em categorias de “ordem vs. caos”, oferecendo um sentimento ilusório de segurança e previsibilidade num mundo em mudança acelerada (Jost et al., 2003). Desta forma, o medo e a insegurança tornam-se os motores que convertem cidadãos comuns em defensores de regimes autoritários.

Estratégias psicológicas no Fascismo

Segundo Jason Stanley, o fascismo opera fundamentalmente através de uma política de divisão social, baseada na oposição entre “nós” e “eles”, sustentada por medo, raiva e desumanização (Gamrath, 2022). A retórica fascista identifica inimigos internos – étnicos, religiosos ou ideológicos – e remove progressivamente limites morais no tratamento desses grupos, tornando aceitáveis práticas discriminatórias e violentas. Nesse processo, valores como verdade, civilidade e decência perdem relevância, sendo substituídos por slogans simples, linguagem moralizante e propaganda emocional (Gamrath, 2022).

Líderes fascistas frequentemente chegam ao poder por meios democráticos, mas passam a governar de forma autoritária, exigindo lealdade pessoal e reforçando identidades étnicas ou nacionais específicas. A sociedade é, então, dividida entre um grupo moralmente superior (“nós”) e um grupo inferiorizado (“eles”), descrito como preguiçoso, criminoso, parasitário ou ameaçador da cultura e das tradições (Gamrath, 2022). Essa lógica constitui a base psicológica para práticas de desumanização, simplificação cognitiva e normalização do autoritarismo.

Desumanização e lógica “nós vs. eles”

A desumanização é um mecanismo central no funcionamento do fascismo, pois reduz a empatia e facilita a aceitação da violência contra grupos-alvo. O estudo de Landry et al. (2022), ao analisar propaganda nazista entre 1927 e 1945, demonstra que antes do Holocausto ocorreu um declínio progressivo na atribuição de “experiência” aos judeus, isto é, da sua capacidade de sentir emoções e sofrimento. Essa negação da experiência mental antecedeu a violência em massa, apoiando a hipótese da desresponsabilização moral, segundo a qual a desumanização remove restrições morais à agressão.

Após o início do Holocausto, a propaganda passou a enfatizar a “agência” dos judeus, retratando-os como agentes intencionais e malevolentes. Este deslocamento indica um processo de demonização, no qual o grupo-alvo é simultaneamente desumanizado e apresentado como uma ameaça poderosa, legitimando a violência extrema (Landry et al., 2022). Assim, a lógica “nós vs. eles” não apenas exclui simbolicamente, mas também legitima práticas destrutivas.

Cognição simplificada e rejeição da ambiguidade

A adesão a ideologias fascistas está associada a estilos cognitivos que favorecem a simplificação da realidade e a rejeição da ambiguidade. Van Hiel et al. (2016) demonstram que atitudes de direita, especialmente o conservadorismo sociocultural, estão positivamente associadas à rigidez cognitiva e à intolerância à ambiguidade. Estes estilos cognitivos refletem uma preferência por soluções claras, pensamento dicotómico e manutenção de estratégias familiares. Desta forma, a rejeição da ambiguidade reduz a complexidade da realidade social, tornando-a mais compatível com ideologias autoritárias e dicotómicas (Van Hiel et al., 2016).

Indivíduos com identidades políticas intensas  tendem a apresentar menor flexibilidade mental, maior dogmatismo e maior disposição para magoar outros e sacrificar-se por um grupo ideológico. Esta inflexibilidade facilita a adesão a visões rígidas e intolerantes, reduzindo a capacidade de lidar com ambiguidades sociais e diferenças (Zmigrod, 2020).

Além disso, o fascismo exige lealdade pessoal ao líder e rejeita o debate racional, promovendo uma “irrealidade” sustentada por propaganda, teorias da conspiração e ataques à educação e à ciência (Gamrath, 2022). Ao enfraquecer critérios partilhados de verdade, o autoritarismo torna-se mais aceitável, e a obediência passa a ser vista como virtude moral.

Propaganda, emoções e manipulação psicológica

Analisar o fascismo a partir da psicologia implica compreender como as emoções podem ser usadas politicamente para moldar perceções, atitudes e comportamentos coletivos. A propaganda fascista não procura convencer sobretudo pela via racional; procura, antes, ativar estados emocionais que diminuam o pensamento crítico e aumentam a adesão a narrativas simples, identitárias e autoritárias (Stanley, 2018).

Quatro emoções surgem de forma recorrente neste tipo de retórica: o medo, o orgulho nacional, o ressentimento e a nostalgia. O medo é ativado através da construção de ameaças internas e externas, desencadeando respostas defensivas automáticas e reduzindo a disponibilidade para a análise crítica (Marcus et al., 2000). O orgulho nacional oferece uma identidade coletiva idealizada, proporcionando um sentimento de pertença e superioridade moral. O ressentimento canaliza frustrações sociais e económicas para grupos específicos, facilitando a procura de culpados. A nostalgia, por sua vez, idealiza um passado mítico apresentado como moralmente superior ao presente, sugerindo que a solução passa por um “regresso” a essa ordem perdida. Do ponto de vista psicológico, estas emoções estreitam o foco cognitivo, favorecem julgamentos rápidos baseados em heurísticas e aumentam a recetividade a soluções autoritárias que prometem segurança e restauração (Kahneman, 2011).

A eficácia da propaganda não depende apenas do conteúdo emocional, mas também da forma como a mensagem é estruturada. A repetição constante de ideias torna-as familiares e, por isso, mais facilmente aceites como verdadeiras (Stanley, 2018). Paralelamente, a criação de bodes expiatórios responsabiliza minorias ou opositores por problemas estruturais, legitimando processos de desumanização. Estes mecanismos exploram vieses cognitivos amplamente estudados pela psicologia, como o viés de confirmação e a tendência para preferir explicações simples em contextos de incerteza (Kruglanski, 2004).

Na atualidade, estes mesmos mecanismos encontram nas redes sociais um meio particularmente eficaz de difusão. Algoritmos privilegiam conteúdos emocionalmente intensos, aumentando a visibilidade de mensagens que provocam medo, indignação ou raiva (Brady et al., 2017). Memes, vídeos curtos e slogans visuais condensam mensagens simplistas em formatos altamente partilháveis, enquanto a velocidade de propagação dificulta a verificação crítica da informação. A propaganda deixa, assim, de estar apenas nos cartazes e discursos públicos, passando a circular em feeds personalizados, explorando os mesmos mecanismos psicológicos com eficácia amplificada pela tecnologia.

Como resistir à manipulação fascista

Compreender os mecanismos psicológicos que sustentam a propaganda fascista permite também identificar ferramentas psicológicas de prevenção. Se estas ideologias se alimentam da ativação emocional, da simplificação cognitiva e da obediência acrítica à autoridade, então a resistência passa por desenvolver competências que reforcem a autorregulação emocional, o pensamento reflexivo, a empatia e a responsabilidade individual.

De acordo com Van Prooijen e Krouwel (2019), ideologias políticas extremas tendem a partilhar características psicológicas comuns: pensamento rígido, necessidade de certeza, sensibilidade a ameaças percebidas e forte submissão a autoridades vistas como legítimas. Estas características indicam, ao mesmo tempo, os pontos onde a prevenção psicológica pode atuar.

A literacia emocional, ou seja, a capacidade de reconhecer, nomear e compreender as próprias emoções é uma defesa central contra discursos que instrumentalizam medo, raiva e ressentimento (Gross, 1998). Quando o indivíduo identifica que está a reagir emocionalmente a uma mensagem, cria-se um espaço psicológico entre a emoção e a ação, reduzindo a probabilidade de adesão automática a narrativas manipuladoras.

Desenvolver pensamento crítico implica questionar a simplicidade excessiva de certas explicações sociais e reconhecer a tendência humana para procurar confirmações das próprias crenças. A consciência de vieses cognitivos, como o viés de confirmação e a influência da repetição, permite detetar quando uma mensagem está a explorar atalhos mentais em vez de promover reflexão informada. Esta competência é particularmente relevante num contexto mediático saturado de informação rápida e emocionalmente carregada (Sunstein, 2017).

O contacto direto entre membros de diferentes grupos sociais constitui um dos fatores mais robustos na redução de preconceitos. A interação cooperativa favorece a empatia e dificulta processos de desumanização, que são centrais na retórica fascista. Ao conhecer o “outro” como indivíduo concreto, torna-se psicologicamente mais difícil aceitar narrativas que o apresentam como ameaça abstrata.

Um dos aspetos psicológicos mais relevantes nas ideologias extremas é a tendência para a submissão acrítica à autoridade. Desenvolver um sentido de responsabilidade individual implica reconhecer que a obediência não elimina a responsabilidade moral pelas próprias ações. Esta consciência reduz a probabilidade de participação passiva em dinâmicas coletivas de exclusão e discriminação legitimadas por figuras de autoridade. Em conjunto, estas competências funcionam como fatores protetores psicológicos. 

Psicologia e Fascismo

Pensar o fascismo a partir da psicologia implica compreender que este não é apenas um fenómeno histórico, mas uma possibilidade psicológica latente nas sociedades modernas, como já sugeria Fromm (1941). A psicologia é, por isso, fundamental não só para explicar o passado, mas para compreender os mecanismos emocionais e cognitivos que continuam a sustentar a adesão a narrativas autoritárias no presente. Ao identificar esses processos, torna-se possível fortalecer competências como autorregulação emocional, pensamento crítico e responsabilidade individual.

Em última análise, a democracia depende não apenas de instituições formais, mas de cidadãos capazes de lidar com a ambiguidade, resistir à simplificação manipuladora e assumir responsabilidade pelas próprias escolhas. Sem essa maturidade psicológica coletiva, os valores democráticos tornam-se vulneráveis à erosão gradual.

Referências

Adorno, T. W., Frenkel-Brunswik, E., Levinson, D. J., & Sanford, R. N. (1950).
The Authoritarian Personality. Harper & Row.

Brady, W. J., Wills, J. A., Jost, J. T., Tucker, J. A., & Van Bavel, J. J. (2017). Emotion shapes the diffusion of moralized content in social networks. PNAS, 114(28), 7313–7318. https://doi.org/10.1073/pnas.1618923114

Fromm, E. (1941). Escape from freedom. Farrar & Rinehart.

Gamrath, D. (2022, 8 de junho). How fascism works, and how to stop it: Dehumanizing people is the first and last step in a fascist society. Real Change News.https://www.realchangenews.org/news/2022/06/08/how-fascism-works-and-how-stop-it-dehumanizing-people-first-and-last-step-fascist

Gross, J. J. (1998). The emerging field of emotion regulation. Review of General Psychology, 2(3), 271–299. https://doi.org/10.1037/1089-2680.2.3.271

Jost, J. T., Glaser, J., Kruglanski, A. W., & Sulloway, F. J. (2003). Political conservatism as motivated social cognition. Psychological bulletin, 129(3), 339–375. https://doi.org/10.1037/0033-2909.129.3.339

Kahneman, D. (2011). Thinking, fast and slow. Farrar, Straus and Giroux.

Kruglanski, A. W. (2004). The psychology of closed mindedness. Psychology Press.

Landry, A. P., Orr, R. I., & Mere, K. (2022). Dehumanization and mass violence: A study of mental state language in Nazi propaganda (1927–1945). PLoS ONE17(11), e0274957.https://doi.org/10.1371/journal.pone.0274957

Marcus, G. E., Neuman, W. R., & MacKuen, M. (2000). Affective intelligence and political judgment. University of Chicago Press.

Paxton, R. O. (2004). The Anatomy of Fascism. Vintage.

Stanley, J. (2018). How fascism works: The politics of us and them. Random House.

Sunstein, C. R. (2017). Republic: Divided democracy in the age of social media. Princeton University Press.

Van Hiel, A., Onraet, E., Crowson, H. M., & Roets, A. (2016). The relationship between right–wing attitudes and cognitive style: A comparison of self–report and behavioural measures of rigidity and intolerance of ambiguity. European Journal of Personality30(6), 523–531. https://doi.org/10.1002/per.2082

Van Prooijen, J.-W., & Krouwel, A. P. M. (2019). Psychological features of extreme political ideologies. Current Directions in Psychological Science, 28(2), 142–147. https://doi.org/10.1177/0963721419829496

Zmigrod, L. (2020). The role of cognitive rigidity in political ideologies: theory, evidence, and future directions. Current Opinion in Behavioral Sciences34, 34–39. https://doi.org/10.1016/j.cobeha.2019.10.016

Autoria: NUPSI

Imagem: Érica Pista