Dinâmicas Amorosas em Jovens Adultos 

Dinâmicas Amorosas em Jovens Adultos 

As configurações amorosas dos jovens adultos na contemporaneidade passaram por uma reestruturação em comparação com os padrões do passado. Destacam-se, neste contexto, as dinâmicas amorosas não monogâmicas, como o poliamor, em que os indivíduos estabelecem vínculos afetivos e/ou sexuais simultâneos com múltiplas pessoas, sempre com o conhecimento e consentimento de todas as partes envolvidas, ou o “amor líquido” caracterizado por vínculos frágeis e instáveis, construídos sob a tensão constante entre o desejo de intimidade e o medo do compromisso (Best, 2018; Machado & Scorsolini-Comin, 2017).

Apesar de ainda não estarem amplamente difundidas a nível global, observa-se atualmente uma maior abertura para estas formas de relacionamento. Entre estas, destacam-se a difusão das relações abertas, que permitem a formação de novos vínculos, comparadas à predominância das relações fechadas, que se restringem aos vínculos já existentes, apresentando-se como alternativas à monogamia tradicional (Machado & Scorsolini-Comin, 2017).

Conforme referem as teorias clássicas do desenvolvimento humano, como a Teoria do Desenvolvimento Psicossocial de Erikson (1959), o período compreendido entre os 18 e os 25 anos é frequentemente associado ao início da vida adulta. Esta fase do ciclo vital é marcada pelo conflito psicossocial entre a intimidade e o isolamento, no qual emerge a necessidade de estabelecer relações íntimas significativas sem comprometer a construção da identidade pessoal (Fernandes et al., 2024).

Neste sentido, a adultez jovem caracteriza-se por uma maior valorização da exploração do amor e da sexualidade, frequentemente em detrimento do compromisso relacional a longo prazo, refletindo um período de experimentação e negociação dos vínculos afetivos (Fernandes et al., 2024). Paralelamente, estudos recentes têm evidenciado uma maior diversidade nas atitudes dos jovens adultos face aos modelos relacionais. Um exemplo disso é o estudo de Sizemore e Olmstead (2018), que analisou a predisposição de adultos emergentes para se envolverem em relações consensualmente não monogâmicas. Os resultados indicam que, embora a monogamia continue a ser o modelo relacional predominante, existe um grupo significativo de jovens adultos que manifesta abertura ou curiosidade face a formas alternativas de relacionamento, refletindo a pluralidade de valores, expectativas e experiências características desta fase do desenvolvimento.

A literatura científica corrobora que jovens adultos têm altas expectativas em relação ao amor, principalmente nos campos da satisfação, apoio emocional e felicidade. Na prática, a maioria dos jovens sofre de uma incapacidade em vários graus para conseguir gerir a frustração individual e instabilidade emocional nas suas relações, inclusive na intimidade que consegue (ou não) desfrutar (Fernandes et al., 2024).

Dados recentes refletem que a modernização está associada a níveis mais altos de intimidade, paixão e dedicação (apesar da fragilidade destes níveis quanto mais elevada for a modernização), sendo a igualdade de género um fator relevante na melhor qualidade das relações. Num ponto de renegociação de experiência do amor, as sociedades coletivas têm-se associado a um maior bem-estar com a intensidade do amor para padrões de compromissos, enquanto as sociedades excessivamente individualistas mostraram fraqueza da experiência do amor e baixa intensidade emocional (Fernandes et al., 2024; Sorokowski et al., 2023).

O impacto psicológico do poliamor é profundamente influenciado pela qualidade da comunicação e pela gestão das expectativas, desafiando a premissa de que a monogamia é o único caminho para a estabilidade emocional . A prevalência do desejo por dinâmicas não-monogâmicas consensuais é significativamente mais elevada do que as normas sociais sugerem, indicando que, para muitos indivíduos, a exploração de múltiplas ligações pode estar alinhada com uma necessidade autêntica de diversidade relacional e suporte emocional expandido (Moors et al., 2021).

Do ponto de vista da satisfação psicológica, não existem diferenças inerentes no bem-estar entre indivíduos monogâmicos e poliamorosos, desde que a estrutura seja consensual. O impacto positivo manifesta-se através do desenvolvimento de competências interpessoais avançadas, como a negociação de limites e a regulação de ciúmes, em conjunto com a segurança na vinculação e a confiança mútua atuam como pilares preventivos contra a ansiedade, permitindo que a pluralidade de parceiros funcione como uma rede de apoio que dilui a pressão emocional tipicamente depositada numa única pessoa (Moors et al., 2021).

Contudo, os estilos modernos de relações não são isentos de desafios. O maior obstáculo à saúde mental dos praticantes de poliamor é o “stress de minoria” provocado pelo estigma e pela marginalização social. O esforço psicológico dispendido na gestão da privacidade e na luta contra preconceitos pode gerar cansaço emocional, ansiedade e isolamento. Posto isto, o sucesso psicológico nestas dinâmicas depende menos da quantidade de parceiros e mais da capacidade do indivíduo em cultivar relações éticas enquanto lida com um contexto social que ainda não valida totalmente estas estruturas de afeto (Moors et al., 2021).

Neste cenário, o papel do psicólogo revela-se fundamental na mediação entre a experiência individual e as pressões normativas. No acompanhamento de dinâmicas não-monogâmicas, o profissional deve atuar na desconstrução de preconceitos, validando a estrutura relacional escolhida e ajudando a distinguir entre conflitos relacionais comuns e o sofrimento derivado da marginalização externa (Moors et al., 2021). Cabe ao psicólogo fomentar estilos de vinculação seguros, auxiliando na aquisição de ferramentas emocionais que permitam não só gerir múltiplos afetos em simultâneo, mas também ressignificar o ciúme através do conceito de compersão, um estado emocional positivo que uma pessoa experiencia ao saber que o seu parceiro está a obter prazer ou felicidade através de outra relação (Moors et al., 2021).

A psicologia tem a especial função de criar diálogos que permitam lidar com a ausência de modelos sociais tradicionais. Ao compreender que a satisfação no poliamor está fortemente ligada à transparência e à qualidade dos acordos estabelecidos, o psicólogo ajuda a garantir que o indivíduo desenvolva a resiliência necessária para manter a sua integridade emocional perante um contexto social desfavorável (Moors et al., 2021).

A compreensão psicológica das relações amorosas promove a conscientização sobre os comportamentos e padrões das gerações e culturas, e incentiva um ambiente de crescimento e desenvolvimento pessoal. Através desta compreensão podemos atuar na melhoria da autoestima e autoimagem, na estruturação de relacionamentos mais satisfatórios, desvinculados do estigma social, contribuindo para a convivência harmoniosa de todos (Herek, 2009; Reis & Shaver, 1988).

Referências bibliográficas

Best, S. (2018). Liquid love: Zygmunt Bauman’s thesis on sex revisitedSexualities, 22(7–8), 1094–1109.https://doi.org/10.1177/1363460718795082

Fernandes, M. I., Sousa, C., Conde, A. R., Silva, F., & Ferreira, M. J. (2024). Exploring the relationship between capacity to love and well-being: A comparative study of emerging adults and middle-aged adults. Sexuality & Culture, 28, 1424–1445.https://doi.org/10.1007/s12119-023-10184-x

Herek, G. M. (2009). The impact of stigma on romantic relationships: A review. Journal of Social Issues, 65(4), 725-740. https://doi.org/10.1111/j.1540-4560.2009.01622.x

Machado, R. D. C., & Scorsolini-Comin, F. (2017). O poliamor na contemporaneidade: Uma revisão da literatura científica. Temas em Psicologia, 25(4), 1631–1645. https://doi.org/10.9788/TP2017.4-18Pt

Moors, A. C., Schechinger, H. A., Balzarini, R., & Flicker, S. (2021). Internalized consensual non-monogamy negativity and relationship quality among people engaged in polyamory, swinging, and open relationships. Archives of Sexual Behavior, 50(4).https://doi.org/10.1007/s10508-020-01885-7

Reis, H. T., & Shaver, P. (1988). Personal growth and relationship satisfaction: The role of mutual support. Journal of Personality and Social Psychology, 54(4), 662-668. https://doi.org/10.1037/0022-3514.54.4.662

Sizemore, K. M., & Olmstead, S. B. (2018). Willingness of emerging adults to engage in consensual non-monogamy: A mixed-methods analysis. Archives of Sexual Behavior, 47(5), 1423–1438.https://doi.org/10.1007/s10508-017-1075-5

Sorokowski, P., Kowal, M., Sternberg, R. J., Aavik, T., Akello, G., Alhabahba, M. M., Alm, C., Amjad, N., Anjum, A., Asao, K., Atama, C. S., Duyar, D. A., Ayebare, R., Conroy-Beam, D., Bendixen, M., Bensafia, A., Bizumic, B., Boussena, M., Buss, D. M., . . . Vega, L. D. (2023). Modernization, collectivism, and gender equality predict love experiences in 45 countries. Scientific Reports13(1), 773. https://doi.org/10.1038/s41598-022-26663-4

Autoria: NUPSI