A nostalgia ainda me vai matar

A nostalgia ainda me vai matar

Eu sei que este título soa um bocado dramático, mas acho que todos temos o direito de exagerar um pouco de vez em quando e de nos permitirmos ampliar as nossas emoções, de forma a sentirmos tudo aquilo a que nos tentamos convencer de que não nos afeta e a deitar tudo cá para fora. Se fores uma pessoa que está sempre bem, arranja sempre uma maneira, dá sempre o seu jeito de forma a que tudo dê certo, sem ninguém se aperceber, tens este direito de “dramatizar” a dobrar.

Depois, claro que no momento em que o corpo se regular, priorizar o raciocínio mental e voltar o coração ao seu compasso normal, aquela pequena explosão te vai atormentar em alguns dias, normalmente quando fechas os olhos para dormir.

E não precisa de ser uma expressão de sentimentos, quer dizer, quem nunca se sentiu assombrado por uma pequena queda na rua, ou por responder errado a uma pessoa e ter feito figura de estúpido, ou ter agido simplesmente de uma maneira em que agora olhamos para trás e pensamos “Meu Deus, por que é que fiz aquilo? Que raio de ideia tinha na cabeça?”

Então, normalmente, sempre que a palavra “nostalgia” aparece, é em uma frase motivacional a pairar em algum canto, ou num vídeo fofinho nas redes sociais com uma melodia calma e good vibes, um filtro colorido, talvez clipes de um pôr do sol, com flores, praia, um animal de estimação, coisas que nos remetam a memórias felizes de infância. Mas a nostalgia pode ter esses momentos que nos envergonham hoje. Ou pior, pode ter também gravada aquela altura em que estávamos no fundo no poço e onde hoje ainda sentimos as cicatrizes de ter saído de lá.

E quantas vezes nós não ouvimos uma música em que estava sempre presente durante um período da nossa vida, ou cheiramos um perfume que nos desbloqueia o pensamento de alguém. Ou quando damos por nós a ver as nossas fotos da galeria e a sorrir com a lembrança, ou a reler conversas…

O problema aqui é: nós ainda somos demasiado jovens! Nós estamos sempre a lembrar e a relembrar do que já vivenciámos, mas e quando formos velhinhos? Eu acho que não aguento ficar mais consciente das minhas ações, e saber que vou errar, e depois esse erro me atormentar em forma de pensamento indesejado, e saber que esse erro foi necessário, mas ainda assim…

É como se vivêssemos constantemente para o passado, já que o dia a dia é sempre o mesmo, o futuro não é nítido, mas sempre que olhamos para trás reparamos em como tudo simplesmente aconteceu, e nós nem sequer nos demos conta.

É por isso que digo que esta nostalgia, feliz e triste, extremamente dual, ainda me vai matar. Porque não existe forma de regressar. A nossa “versão anterior” ainda continua connosco, e vai continuar para sempre, e se manifestará através das lembranças, fazendo-nos sentir exatamente a mesma emoção sempre no presente.

Iara Pinto