Na AFCON 2026 um adepto tornou-se um símbolo não só de apoio a sua seleção, como uma homenagem a uma figura política tristemente recordada. Michel Nkuka Mboladinga ficou famoso por permanecer completamente imóvel no cumprimento dos jogos da sua seleção, no qual, o auto denominado artista, começou o seu ato simbólico em 2013, seguindo desde aí o seu país para onde quer que vá. Um gesto simples, imóvel de braço direito no ar, sendo esta uma referência clara e direta a estátua de Patrice Lumumba erigida na capital congolesa de Kinshasa. Mas quem era Patrice Lumumba?
Patrice Lumumba foi o primeiro primeiro-ministro da Republica Democrática do Congo, após tornarem-se independentes do Estado Belga, independência essa rápida e mal preparada, deixando um estado frágil, elites políticas inexperientes e forças armadas ainda controladas por oficiais belgas.
Em setembro de 1960, um mês após ser eleito, Lumumba aproveita que um discurso paternalista do rei Baudouin, então soberano do estado belga, e de maneira não prevista apodera-se do microfone e faz um dos discursos mais famosos e importantes por parte de uma ex-colónia. Os principais temas abordados foram a denúncia da violência colonial, a afirmação da dignidade africana, o facto da independência ser uma conquista e não um presente e a exploração económica por parte da Bélgica. Esta mensagem obteve de imediato um enorme apoio popular, mas Lumumba passa a ser visto como uma ameaça por parte da Bélgica e do Ocidente que queriam manter um controlo económico sobre o Congo.
Como resposta a Bélgica começou a financiar as forças anti-Lumumba e a apoiar a secessão do Katanga, região no sudeste do país e igualmente a região mais rica graças ao cobre, cobalto e principalmente ao urânio. O objetivo da sucessão do Katanga era manter os recursos locais fora do controlo do governo e para tal a Bélgica não hesitou em enviar militares e a manter os seus técnicos presentes. Infelizmente para a RDC a Bélgica não foi a única a estar envolvida já que os EUA e principalmente a CIA também não queriam um líder africano que não estivesse alinhado com o Ocidente a controlar os seus recursos, e para tal planearam ativamente neutralizar Lumumba.
O Congo pediu ajuda a ONU para proteger o seu país, e a organização mundial respondeu com uma missão “ONUC” para estabilizar o país, contudo recusou apoio direto a Lumumba contra a sucessão do Katanga.
Menos de 5 meses após ser nomeado primeiro-ministro, em outubro de 1960, Lumumba foi colocado sob prisão domiciliaria, após o golpe de estado de Mobuto, com o apoio militar e político de sectores belgas e ocidentais. No dia 27 de outubro, o antigo primeiro-ministro consegue escapar da prisão domiciliar e tenta viajar para Stanleyville onde tinha apoio dos seus aliados políticos, infelizmente foi recapturado 5 dias após a sua fuga e desta vez levado para uma prisão formal.
No dia 17 de janeiro de 1661, Patrice Lumumba e dois companheiros, Joseph Okito, vice-presidente do Senado e Maurice Mpolo, um dos seus generais foram levados de avião para Elisabethville, no Katanga. Durante o voo e após a chegada ao Katanga, os três homens foram espancados por os soldados que os escoltavam. Horas depois de terem chegado a região liderada por Moïse Tshombe, os três homens foram executados sem nenhum tipo de julgamento legítimo, por um pelotão de fuzileiros composto por forças do regime separatista e oficiais belgas, como revelam investigações históricas. Numa primeira altura o corpo dos três homens foram colocados numa fossa comuna, mas no dia seguinte uma equipa de policias belgas exumou o corpo de Lumumba, desmembrou-o em 34 partes e dissolveu a maior parte em ácido sulfúrico incinerando qualquer parte não dissolvida. O governo de Katanga aguardou perto de um mês para anunciar oficialmente a sua execução.
Após esse acontecimento a política congolesa foi composta por vários governos rivais a atuar ao mesmo tempo, juntamente com rebeliões, conflitos regionais e ingerência estrangeira, até que em finais de 1965 Mobuto dá o seu segundo e definitivo golpe de estado e torna-se ditador, passando a governar com mão de ferro durante mais de 30 anos.
Graças ao esforço de Michel Nkuka Mboladinga, a memoria de Lumumba perdura nas gerações mais novas, com estudantes argelinos a reproduzirem o seu famoso gesto numa representação gigante no deserto do Saara. A memoria de Lumumba não foi a único movimento que Mboladinga quis promover, efetivamente, com o seu estilo arrojado, o adepto mostrou ao mundo o que é a SAPE e o seu impacto no país. A SAPE é uma performance social usando roupas, postura corporal, linguagem e atitudes de civilidade com raízes no período colonial como uma forma de resistência, afirmação e subversão do poder colonial. Mostrando mais uma vez como o futebol pode e deve ser um palco para dar visibilidade às injustiças.
Marco Leite