Cada vez mais, é propagada a ideia de “autoisolamento”, de nos colocarmos sozinhos para construir o futuro perfeito, de que não precisamos de ninguém e de que não seremos salvos por outras mãos além das nossas.
Especialmente nas redes sociais, é muito utilizada a ideia de deixar para trás pessoas que já não se alinham com o momento da vida em que estamos, simplesmente descartar um amigo de infância só porque já não é conveniente, o ambiente é outro, ou ainda porque agora existe uma distância maior ou novas influências.
Não apenas o desfazer de relações “só porque sim”, esta ideia de autossuficiência influencia-nos também no distanciamento das nossas comunidades. Se virmos bem, os nossos pais mantêm contacto quase diário com os vizinhos, e se encontrarem um conhecido no supermercado, são capazes de ficar longos minutos em uma conversa. Nós, jovens, por outro lado, trocamos um aceno de cabeça, levantamos a mão em cumprimento, ou pior, evitamos completamente a presença dessa pessoa, trocamos de corredor e fingimos que não vimos.
Este cenário com um colega ou um mero conhecido é aceitável (ou então é apenas uma situação normalizada), mas quando passamos este desconhecimento a alguém que um dia já foi realmente próximo, é onde vemos que esta falta de conexão humana já foi longe demais, até porque, como assim, uma pessoa que já nos acompanhou durante tanto tempo é apenas um estranho atualmente?
Desde crianças brincamos e vemos animações com o lema “um por todos e todos por um”, aprendemos assim o valor da lealdade, uma arte cada vez mais perdida nos dias de hoje, devido à imposta solidão em que aparentemente todos nos temos de colocar e à simplicidade que é por vezes cortar raízes com alguém, sem motivo aparente, apenas por uma questão casual. Pior do que esta reclusão voluntária é quando trocamos a amizade pela conveniência e decidimos perder pessoas apenas porque já não são necessárias, o que é exatamente o contrário daquilo a que fomos ensinados.
“Os amigos contam-se pelos dedos das mãos”, “é melhor qualidade do que quantidade”, “um bom amigo vale por um milhão”, será realmente que seguimos estes conselhos? Não teremos nós abandonado ninguém porque apareceu alguém novo na cidade? Não terá sido mais fácil marcar planos com essa nova pessoa ao invés de esperar por uma data que se encaixe com alguém mais distante? São questões que podem deixar um gosto amargo na boca ao respondê-las, mas pior do que esse sentimento é o daquele que esperou e sentiu que não valeria o esforço.
Deste modo, o ideal da fraternidade está também em vias de extinção. Um pilar seguido pela sociedade durante séculos, que até já foi razão de guerra, cada vez mais desligado na atualidade, substituído pelo individualismo, pelo olhar cego das nossas ambições, com a noção apagada de que, apesar de estarmos em barcos diferentes, navegamos no mesmo mar, e de que é mais fácil para todos se decidirmos remar em um sentido comum.
Não me entendam mal, eu também sou do pensamento de que trilhar um caminho solitário muitas vezes é a melhor opção, e que acima de tudo, o respeito que temos por nós próprios tem de ser o mais importante, mas se tens um amigo, alguém que ames mesmo sem ser necessário uma componente romântica, a tua pessoa ride or die, que sempre está contigo no que der e vier, acho que por vezes podes dar uma pausa na tua situação atual e ir dar uma caminhada com ele.
Esta ideia de falta de interesse e de isolamento cada vez mais intricada em nós é a razão pela qual se estão a perder relações importantes. É necessário rever urgentemente os nossos valores e o conceito de estarmos uns para os outros, de ajuda mútua, de saber dar a mão e de estar lá nos bons e maus momentos. Assim como é crucial introduzir a volta do perdão, de saber pedir desculpa, de conseguir ultrapassar uma situação menos boa com uma conversa genuína e sentida, não apenas deixar pairar frases incompletas, ou então o completo silêncio, e conseguir ouvir de forma impecável o que o outro nos diz, sem ter o ruído do nosso ego.
Iara Pinto