Para quem vive a praxe, mas também para quem a observa de fora, a frase que dá nome ao título deste artigo é familiar. Talvez já a tenham ouvido por aí nos corredores da universidade ou enquanto passeavam junto às praxes ou mesmo até quando estavam inseridos num ambiente praxístico.
Normalmente, surge em contextos de irregularidade ou de solidariedade para com os pares: seja pelo incumprimento de ordens superiores, seja porque um caloiro está sozinho a cumprir um exercício ou, ainda, porque o grupo é penalizado pelo erro de um elemento — é precisamente neste ponto que quero que te foques.
Num ambiente de praxe como o da UTAD — nomeadamente do curso de Ciências da Comunicação do qual falo com conhecimento de causa —, quando estas situações acontecem, é comum o grupo “pagar” pelo erro de um elemento. A forma de pagamento traduz-se na realização de um pouco de atividade física ao ar livre ao mesmo tempo que se diz, em voz bem audível: “Obrigado, partner João (por exemplo)”.
Importa notar que, neste contexto, o termo partner equivale ao uso de “camarada” ou “companheiro” noutras situações sociais. É uma das designações que os caloiros usam entre si e que funciona como um símbolo imediato de camaradagem e união.
Não estou aqui para dissertar sobre a praxe, mas antes para pegar nesta ideia que está recorrentemente no ambiente praxístico e elevá-la ao patamar do mundo em que vivemos — pelo erro de um, pagam todos. É assim que acontece na praxe.
A pergunta que se impõe é esta: “Será justo eu pagar por um erro que não cometi?” Podes afirmar, categoricamente, que não, que não é justo, uma vez que não fui eu que realizei a ação e, por isso, não posso ser responsável por algo que não fiz. Pegando no exemplo da praxe, é exatamente o contrário do que acontece: sou penalizado mesmo não tendo nenhuma relação aparente com o que se passou.
Bom, a verdade é que podemos ser, sim, responsáveis por aquilo que não fizemos. Hans Jonas, o filósofo alemão do século XX, no seu livro “O princípio da responsabilidade — Ensaio de uma ética para uma civilização tecnológica”, apresenta-nos o conceito de responsabilidade elevado ao mais alto nível.
Reparem, o conceito de responsabilidade deriva do latim responsabilis, que, por sua vez, provém do verbo respondere, ou seja, sou obrigado a responder pelos meus próprios atos ou pelos de terceiros. E, Hans Jonas, num mundo onde a técnica e a tecnologia não param de evoluir, propõe que olhemos para este mundo através de uma outra dimensão ética: eu sou responsável não só pelos meus atos, mas também pelos atos dos outros.
Se, para Kant, a responsabilidade da minha ação terminava quando morria, para Jonas, na minha ação não posso perder de vista as gerações que vêm a seguir. Mas por quê? “Não tenho que ver com elas…”, podias argumentar. A verdade é que já não é bem assim…Hoje, uma decisão tecnológica como, por exemplo, o uso de Inteligência Artificial ou a presença de microplásticos nos oceanos afeta pessoas do outro lado do planeta e gerações que ainda nem nasceram.
Não existe uma separação entre o nós e o resto do mundo. Estamos numa constante simbiose e dependência face a tudo o que nos rodeia. A interligação com a natureza é uma realidade há muito conhecida.
Para concluir, vale a pena olhar para o que Emmanuel Lévinas nos diz sobre esta “justiça” e o ditado popular “pelo erro de um, pagam todos”.
O filósofo francês vai mais a fundo nesta questão e socorre-se de uma célebre frase de Dostoievski para afirmar: «Todos somos culpados de tudo e perante todos, e eu mais do que os outros.». Ou seja, se o “outro” comete um erro ou sofre, a culpa é também minha porque eu não fiz o suficiente para o impedir ou para criar um mundo onde ele não precisasse de agir assim.
Na teoria filosófica, esta simbiose faz todo o sentido. Mas, na prática do nosso dia a dia, estaremos realmente dispostos a carregar o peso dos erros de quem nos rodeia e a assumir essa culpa universal?
Tiago Delgado