“Tudo começa com uma coisa magnífica. Uma flor. Apenas uma flor. Depois, uma abelha. Muita frágil, muito complicada.”
O conceito “Bugonia” remete para a antiga crença de que poderiam surgir, espontaneamente, a partir da carcaça de um boi em decomposição abelhas. Deste ritual nasceria o mel, símbolo de prosperidade, da organização social e do trabalho árduo das abelhas operárias. Uma metáfora quase poética, o conforto de acreditar que a matéria morta ainda é capaz de fazer renascer algo belo.
O cineasta grego Yorgos Lanthimos retorna aos grandes ecrãs e apresenta Bugonia, um filme que mistura a ficção científica, o humor duvidoso e as inevitáveis críticas sociais.
Na corrida aos óscares, o filme foi nomeado para quatro categorias, nomeadamente, Melhor Filme, Melhor Atriz para Emma Stone, Melhor Roteiro Adaptado para Will Tracy e Melhor Trilha Sonora Original.
Nos primeiros minutos do filme é estabelecido um paralelismo que nos apresenta as personagens principais e as realidades opostas em que vivem. De um lado, Michele Fuller, a quem Emma Stone dá vida, é-nos apresentada sob um véu de rigidez corporativa, uma prestigiada CEO no setor farmacêutico que materializa o sucesso, a reputação, um sistema que opera sobre todos nós.
Do lado oposto, Teddy Gatz, interpretado por Jesse Plemons, é um apicultor e um trabalhador comum, esmagado pela rotina cotidiana, o tipo de pessoa invisível na sociedade. Teddy é acompanhado pelo seu primo Don (Aidan Delbis), um jovem ingénuo que o segue, não por estar completamente convicto nas suas visões, mas por o amar incondicionalmente.
Movido pelas preocupações ambientais, Teddy acreditaprofundamente que as negligencias que a Natureza sofre, a figura mais frágil existente, foram causadas por alienígenas infiltrados na Terra que têm como objetivo final destruí-la. Convencidos por essa verdade absoluta, acreditam que Michele é também uma alienígena, que usufrui da sua crueldade corporativa e da arte da manipulação emocional para aniquilar o planeta.
Guiados pelas suas convicções, os dois jovens decidem raptá-la com o intuito de conseguirem conectar-se com a Nave Mãe e fazerem um acordo com o Imperador de Andrómeda para não destruir o planeta Terra.
Bugonia mantem, do início ao fim, um tom provocador, uma narrativa desconfortável, áspera e apreensiva.
Yorgos tem um olhar privilegiado para perceber, não apenas o absurdo do ser humano e ter compaixão por isso, como o espírito da curiosidade, destruição e medo que sempre dominou a nossa espécie.
O filme é um espelho deformado que insiste em revelar aquilo que queremos omitir, um planeta cansado, a corrupção do sistema e uma humanidade que tropeça em si mesma e se rege pela fantasia antropocêntrica de que somos indispensáveis para o planeta continuar a existir.
As dúvidas que permanecem no filme obrigam-nos a refletir até que ponto a paranoia humana e as conspirações podem ser uma realidade insana que fingimos ignorar para a nossa própria proteção. Até que ponto as crenças individuais podem descobrir (ou não) as verdades que fingimos não existirem. Um mundo desconhecido, por explorar e que nos encaminha para um abismo existencial
A narrativa planta a semente da dúvida que é regada pela curiosidade e apreensão humana. Aqui, a ficção e a realidade entrelaçam-se e dela surge uma linha tênue que nos faz questionar a realidade que aceitamos como verdadeira.
A mente do público é colocada, propositadamente por Lagos, numa indecisão cíclica até ao final. É um momento envolvente e intenso, fragmentamo-nos entre o absurdo da situação, a hipótese de fazermos também nós parte desse absurdo e a reflecção de sermos o clímax, o produto mais puro da absurdidade humana.
No fim, quando o filme dá lugar aos créditos permaneceremos em silencio, as dúvidas persistem, dúvidas pelo que vimos, pelo que não vimos, pelo que conhecemos e desconhecemos. Duvidamos de nós mesmos e do curso que a humanidade está a levar. Duvidamos se algum dia conseguiremos sair da nossa bolha e perceber o verdadeiro significado da nossa condição humana.
Talvez o filme não seja sobre alienígenas, ou talvez seja, as dúvidas permanecem.
Diana Silva
