E (im)provavelmente ser feliz

E (im)provavelmente ser feliz

Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.


Este artigo é particularmente especial para mim, uma vez que, no dia que
hoje passa, completo o meu vigésimo aniversário. Há 20 anos, precisamente às 20
horas e 20 minutos, eu fui apresentado ao Mundo. Durante este tempo, fui dando
por mim numa imorredoira jornada de auto-conhecimento – a qual ainda dura e,
suspeito, não terá um final em breve -, ao longo da qual me posicionei, amadureci
emocional e ideologicamente, e percebi que a vida é, de facto, uma constante
habituação à dor, em todas as suas formas.

A ridicularia de vir para aqui dar lições de moral do alto da minha sapiência
vintenária não é descritível, mas sendo este um espaço de reflexão e liberdade,
permitam-me reflectir. Não faço tenções de escrever uma crónica politicamente
carregada, isso ficará para outra vez; nem tampouco de irritar um grupo de
cidadãos com uma “opinião controversa”, ou lá como lhe queiram chamar; mas
sim arranjar ainda outra forma de ficar em paz com a ideia de crescer e com a
inevitabilidade do envelhecimento. Este último Domingo, estive com o meu bisavô,
o Sr. José Soares dos Santos, que conta já com 90 primaveras e uns trocos. Ao olhar
aquela figura a que me habituei a chamar, singelamente, Avô Zé, com a sua pele
enrugada e postura cansada, mas ainda com um sentido de humor apurado,
bastante apetite e um bigode que sim senhor, saí-me com um “Se eu chegar à sua
idade com tanto cabelo, já fico satisfeito!” – bom comentário, estabelece uma
relação de proximidade entre os personagens, ajuda o enredo a evoluir. No entanto,
se eu me puser a pensar bem sobre isso, a verdade é que eu não faço assim tanta
questão. E não me estou a referir a não fazer questão de chegar aos 90 anos com
um bom cabelo, que eu não tenho nada contra os carecas, mas… deixem-me estar
em paz…, mas sim à ideia de aspirar algo a uma distância de 70 anos.

O nosso problema, enquanto seres racionais, é a nossa forma de ser
inconformista. Não falo em todos os campos, obviamente, porque o comodismo é
muito perigoso quando se entra na política, por exemplo, mas, no que toca ao
envelhecimento, devíamo-nos deixar estar quietos. Passamos toda uma infância a
querer ser adolescentes, toda uma adolescência a querer ser adultos, toda uma
idade adulta a aspirar à reforma, e toda uma velhice a querer ser criança outra vez.
Quando pensamos nisso, o facto de doenças como o Alzheimer irem começando
por apagar as memórias das mais recentes para as mais antigas acaba por parecer
uma cruel jogada do nosso psicológico, que nos reaviva um tempo que está tão
longe quanto possível, e que nunca mais pode ser vivido.

Faz também agora 20 anos que saiu um filme de comédia intitulado “Click”,
com o Adam Sandler como personagem principal. A história é simples: um homem
comum recebe um telecomando capaz de controlar o tempo e a realidade. O
comando permite-lhe pausar, tirar o som, aceder ao menu (por alguma razão), mas,
principalmente, avançar. E ele começa a passar à frente discussões, eventos
aborrecidos nos quais tem de estar, etc. O problema é que ele usa tanto essa
função que o comando se começa a programar sozinho, e ele acaba por perder
partes realmente importantes da sua vida, como o tempo em família e o
crescimento dos filhos, culminando numa cena final bastante emotiva em que ele
percebe que, ao não se permitir viver nos altos e baixos da vida, acabou por
também perder tudo o que de mais importante para ele havia. Por mais estúpido
que este exemplo possa parecer, a verdade é que este filme nos mostra que crescer
é perceber que viver com os olhos constantemente postos no futuro ou sempre a
lamentar-se pelo que já passou não é realmente viver.

Eu sou uma pessoa nostálgica por natureza. Não minto quando digo que
falar do passado é algo que me causa muito sofrimento, porque é duro recordar
coisas e pessoas que o tempo se encarregou de levar com ele. Mas, em paralelo,
sou grato por me sentir assim, porque isso significa que tenho razões para sentir
saudades. Eu fui feliz e sou feliz, pois sei que amanhã hei-de também sentir
saudades pelo que estou a passar hoje, e a vida, como eu dizia no início, é feita
disso mesmo: andarmos aqui, meios perdidos, a tentar arranjar formas de nos
habituarmos à dor. Só que, às vezes, a dor é como o medo: é importante para
sabermos que ainda conseguimos sentir.


“Sou Português, de classe média-média
Filho dos meus pais
Escritor por escolha, pensador por obrigação
Humorista de convenção com a mania que tem graça,
Sou o Guilherme dos Santos Gomes, 20 anos, de Lamego
Ainda a tentar aprender como se vive
E isto é que é uma porra, hein?”

Guilherme Gomes