A frase é atribuída a Millôr Fernandes, escritor, desenhista e jornalista brasileiro nascido nos anos de 1923, falecido em 2012 com 88 anos de idade. Conhecido pelas suas colunas de humor gráfico nos jornais brasileiros, tem sobrevivido à Lei da Morte de Camões através do legado que deixa: os livros e frases suas que ficam eternamente gravadas. Esta é um perfeito diagnóstico da patologia da nossa era.
Basta olharmos à nossa volta, ouvirmos as conversas que irrompem da espuma dos dias e escutá-las com alguma atenção e distanciamento. Quantos de nós não vimos já, ao longo do tempo, a mudança de comportamento de uma pessoa apenas porque esta se tornou, de repente, rica? Ou com mais poder? Não é por acaso que o escritor e orador Robert G. Ingersoll, no remoto ano de 1883, proferiu a célebre frase “ Se quiser descobrir a verdadeira natureza de um homem, dê-lhe poder”.
Vivemos numa sociedade cada vez mais materialista, que confunde o ter por necessidade e o ter por vaidade. Samuel Lins, no Observatório de Desafios Sociais, tem desenvolvido investigação na área dos hábitos de consumo e de poupança dos portugueses. Com base nos dados e informações que recolheu, aponta que 35% dos portugueses realizaram alguma compra por impulso e que cerca de um terço dos portugueses foi às compras para aliviar algum sentimento negativo.
É impossível refletir sobre esta patologia sem viajarmos até à ditadura do espetáculo de Guy Debord. No seu livro, “Sociedade do Espetáculo”, argumenta que o “ser” acabou por ser substituído pelo “ter” e o próprio “ter” pelo “parecer”. Apesar de ter sido escrito em 1967, permanece completamente atual.
Nos dias que correm, o objeto perdeu a sua função utilitária e passou a tornar-se um símbolo de status. Não compramos um carro ou um relógio para nos movimentarmos ou para vermos as horas, mas para dizermos ao mundo quem somos e, acima de tudo, o que pretendemos ser. Aí corre-se um risco enorme — a partir do momento em que o valor do indivíduo se mede pelo poder que ostenta, o objeto deixa de cumprir a sua função utilitária, deixa de ser o servo e passa a cumprir o serviço de mestre.
Contudo, no final das contas, há uma certeza inevitável — como diz o ditado popular: vamos todos para o mesmo buraco. Sejamos pobres, ricos, bonitos ou feios, a morte é o fim deste caminho. Há um ditado chinês muito curioso que ilustra a finitude da vida e a igualdade no leito da morte: “No final da partida de xadrez, o rei e o peão vão para a mesma caixa”. Por isso, de nada adianta termos esta arrogância e sobranceria face ao outro. O importante é ter sem que o ter se detenha.
Tiago Delgado