Transmitido esta terça-feira à noite na RTP, o único debate televisivo entre os 11 candidatos à Presidência da República ficou marcado por temas internacionais, evidenciando discordâncias quanto à detenção de Nicolás Maduro e às pretensões de Donald Trump.
A intervenção dos Estados Unidos com uma operação militar na Venezuela foi o tema que iniciou o debate onde Luís Marques Mendes receia que este caso possa “legitimar outras situações” exemplificando com a intervenção da Rússia na Ucrânia, alertado que pode abrir precedentes no futuro. Henrique Gouveia e Melo classifica a intervenção como “ilegítima” recorrendo à Carta das Nações Unidas para invalidar a atuação de Trump, sublinhando que “Os países têm uma igual soberania e, portanto, não é um terceiro país que vai mudar o regime de outro país”. O apoio mais veemente à intervenção norte americana na Venezuela partiu de André Ventura, o líder do Chega questionou “Como é que queriam que os venezuelanos se livrassem de um ditador que controla as Forças Armadas, os tribunais, o poder político, o Parlamento e os jornais?” comparando o caso de Nicolás Maduro à captura de Osama Bin Laden, que “também não foi de acordo com o direito internacional”.
Por sua vez, António José Seguro considera que a atuação de Donald Trump não visou apoiar o povo da Venezuela, mas proteger interesses próprios, “Não houve nenhuma intervenção com o objetivo de repor a democracia ou a liberdade na Venezuela. Aliás, o Presidente Trump, horas depois, veio confirmar que a sua preocupação tinha a ver com a gestão das reservas do petróleo.” Para João Cotrim de Figueiredo é possível conciliar as duas posições: “aplaudir o derrube de um ditador sanguinário e censurar a forma como foi feito. Porque não era necessário ter sido feito unilateralmente”.
Comparando o regime de Maduro ao de Salazar, Catarina Martins sustenta que a ação externa não faz sentido, “Um país que teve uma ditadura fascista durante 48 anos, não estou a ver bem quem é que quer agora defender que o ideal para Portugal teria sido uma intervenção externa para prender o ditador português.” Também Antonio Filipe defende que nunca houve, entre os antifascistas portugueses, quem quisesse uma intervenção externa para terminar a ditadura. Em sintonia com Seguro, Jorge Pinto aponta para aquilo que considera serem as verdadeiras motivações de Donald Trump, “Quando é que falou de liberdade para os venezuelanos? Não falou. Onde é que falou da possibilidade dos milhares e milhares de venezuelanos que tiveram de fugir do país poder regressar ao país? Não falou, falou de petróleo, falou de recursos, falou de neocolonialismo.”
Conhecido pelo seu discurso satírico, o musico Manuel Vieira manifestou preocupação com uma eventual ação do Presidente norte americano em territórios de interesse em Portugal, “Nós temos de levar muito a sério aquilo que se está a passar na Gronelândia, onde temos bacalhau, e gostava de dizer que não gosto que os americanos lá estejam.” O sindicalista André Pestana sustenta que “uma potência estrangeira, ainda por cima com o poder bélico dos Estados Unidos, não pode achar-se no direito de invadir outro país., sobre a despesa em defesa, defendeu que “já há armas no mundo suficientes para destruir a humidade várias vezes” e apelou à mobilização da sociedade civil. Humberto Correia criticou ambos os lados, defendendo por um lado que se a Venezuela tivesse um regime democrático não estaríamos nesta situação”, e por outro que “a América” é “um perigo”.
Sobre o perfil de presidente que pretendem ser, todos os candidatos destacaram a necessidade de contribuir para resolver os problemas do país em áreas como habitação, saúde, retenção da juventude e apoio de idosos. Divergem, porém, na forma de lá chegar e na utilização dos poderes presidenciais. Segundo António José Seguro, o país precisa de vários compromissos e soluções, e de um presidente que saiba “manter o equilíbrio do sistema político”. O candidato assegurou que quer exercer a sua função presidencial de forma independente e em defesa de todos os portugueses. André Ventura afirmou que adotaria um papel ativo na presidência. “Precisamos de um presidente que tome decisões”, destacou e acrescentou, com Seguro, “ficaríamos exatamente na mesma” e que Marques Mendes seria “o presidente do Governo”.
Em seguida Gouveia e Melo criticou o “cinismo” do sistema político e dos dois principais partidos portugueses que governam o país “há 20 anos”, responsabilizando-os pelos problemas atuais de Portugal, sobre a sua própria candidatura, comprometeu-se a “contribuir verdadeiramente para a segurança” e para “a estabilidade do país”, mantendo-se “equidistante”. “Não serei marioneta de ninguém”, afirmou. Marques Mendes afirmou que “não vou ser nem amigo do Governo nem adversário do governo”. Acrescentou que, pretende “dar condições políticas ao governo para governar durante a legislatura”, Quando a discussão incluiu referências a Sá Carneiro por diferentes partidos, Marques Mendes considerou a situação “um abuso”.
O candidato liberal João Cotrim de Figueiredo respondeu: “era só o que faltava que eu não pudesse manifestar admiração e respeito por portugueses que serviram a democracia”, explicando que se inspira em Sá Carneiro e Passos Coelho.
Defendeu ainda que o presidente, ao dialogar com o governo, “deve saber do que está a falar”.
À esquerda, a atenção centrou-se na hipótese de desistência dos candidatos menos votados, em benefício de António José Seguro, o único da mesma corrente política posicionado para disputar a segunda volta. Jorge Pinto, deputado do Livre, garantiu: “No que de mim depender, não será por mim que António José Seguro não será Presidente da República de Portugal”, desafiando os candidatos de esquerda a impedir que uma vitória da direita abra caminho a uma eventual revisão constitucional.
O deputado comunista António Filipe afirmou de forma firme: “A minha candidatura é para levar até ao fim. Ponto final, parágrafo”, e a bloquista Catarina Martins replicou com ironia: “Se Jorge Pinto queria concertar alguma posição. Podia-me ter telefonado”. O próprio candidato apoiado pelos socialistas rejeitou quaisquer entendimentos à esquerda. “O caminho sou eu que o trilho, não depende absolutamente de ninguém, não fiz acordos absolutamente com ninguém. É assim desde o início, até ao final”, afirmou Seguro. António Filipe acrescentou que “sou do PCP mas não sou candidato partidário”. Explicou que pretende “outro rumo para o país”, valorizando os serviços públicos, intervindo sem se submeter a poderes externos, defendendo a soberania e, “dentro do quadro das competências do presidente”, analisando a constitucionalidade de legislação que considere “lesiva dos direitos dos trabalhadores”.
Catarina Martins retomou a palavra para afirmar que “compete ao presidente da República equilibrar e lançar os debates”, de forma a que estes “possam desbloquear soluções” para o país. “No que me diz respeito, a esquerda irá ter em quem votar no dia 18”, prometeu. Jorge Pinto interveio para afirmar que seria um “presidente que seria um contrapeso num país que está já demasiado virado à direita”. O sindicalista André Pestana afirmou que pretende trazer aos portugueses “a esperança”. Acrescentou que “é preciso enfrentar poderosos interesses que estão instalados”, referindo-se, entre outros, aos banqueiros.
O pintor de rua Humberto Correia explicou que a sua candidatura é “com uma missão”: “Venho aqui da pobreza e é a pobreza de muitos portugueses que me trouxe até aqui”. Manuel João Vieira colocou no centro da sua candidatura a inclusão na Constituição “do direito à felicidade para todos os portugueses (…) em cada esquina colocaria uma mãe, porque os portugueses precisam de alguém que os abrace”, foi também o primeiro candidato a abordar o problema do envelhecimento da população, afirmando que “é preciso fazer bebés”.
A imigração também esteve entre os temas discutido neste debate, questionado sobre a decisão do governo italiano de acolher mais imigrantes, Ventura reiterou que o país precisa de controlar a imigração registada nos últimos anos e afirmou que “Portugal pode crescer” com “imigração controlada” e acusou Seguro de ser responsável por “terem deixado entrar pessoas que nem sabíamos quem eram nem de onde vinham”.
Em reação às declarações de Ventura, o candidato apoiado pelo PS considerou que ele “está nas eleições erradas”. “Se quer discutir com o PS eu dou-lhe o número de telefone de José Luís Carneiro”, disse, frisando que é preciso “organizar e controlar quem entra no país”. Catarina Martins destacou que “integração é ter acesso a aprender a língua”. Acrescentou que “o nosso problema não é onde a pessoa nasceu. O nosso problema é o salário baixo”, defendendo assim “salários dignos para todos”. Cotrim de Figueiredo aproveitou a sua intervenção para se dirigir aos pensionistas, afirmando que pensões mais altas “são necessidade absoluta”.
O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal acrescentou que, para tal, é preciso crescimento económico, aumento da natalidade e a regeneração do sistema de segurança social. Jorge Pinto defendeu que o “mais importante é dar condições a todas as pessoas que chegam ao nosso país”, colocando como prioridade as crianças, que devem “aprender a língua portuguesa assim que chegam para se integrarem”. Marques Mendes afirmou que a situação da imigração “está muito mais equilibrada”. “Precisamos dos imigrantes para a nossa economia, mas tudo tem de ser feito com equilíbrio”, acrescentou, reiterando que o “modelo que está hoje em prática é o mais equilibrado”.
Gouveia e Melo afirmou que, em matéria de imigração, o essencial é “regular, controlar e integrar” numa “economia com modelo novo e coesão social”. Questionou ainda: “Estamos aqui num debate para a presidência ou para a governação? É que parece que estamos numa para a governação”, dirigindo-se a Seguro e Marques Mendes, criticou que “os dois candidatos que vêm do sistema não conseguiram vencer nos seus próprios partidos, mas vêm aqui tentar um consenso geral para serem o topo da pirâmide do nosso sistema político”, acrescentando que “é muito difícil ter candidatos que são facilitadores de negócios”.
O candidato apoiado pelo PSD e CDS-PP qualificou os ataques do independente como “ordinarice”, acusando-o de “se especializar na lama”. Gouveia e Melo reagiu dizendo que “Ordinário é favorecer negócios no Estado”. Marques Mendes reforçou que nunca foi “facilitador de negócios” e desafiou o antigo chefe do Estado-Maior da Armada a apontar um “caso concreto”, Gouveia e Melo mencionou “os painéis solares da Madeira” e empresas que alegadamente estariam “relacionadas com influências” de Mendes, protagonizando um momento de tensão no debate. Sobre imigração, António Filipe afirmou que a extinção do SEF foi um “erro gravíssimo”.
O candidato apoiado pelo PCP apelou a que se “fale verdade” e assegurou que a “esmagadora maioria dos imigrantes vem para trabalhar, ganhar a vida e não cometer crimes”. Humberto Correia defendeu que “tem de haver um equilíbrio e a imigração tem de ser controlada” e acrescentou que “a melhor integração para a imigração faz-se na escola”.
Manuel João Vieira salientou o desequilíbrio entre litoral e interior e criticou a falta de controlo do território. “Não existindo, é mais fácil ameaças externas apoderarem-se de parte do território”, observou. André Pestana afirmou ser “o único candidato que quer acabar com os subsídios milionários aos partidos”, acusando os demais de não esclarecerem de onde vão obter recursos para melhorar a vida dos portugueses, o candidato apoiado pelo Chega rebateu: “André Pestana deve ter a pestana pouco aberta para não perceber que o Chega apresentou três vezes para se acabar com benefícios fiscais dos partidos e outras coisas”, acrescentou ainda que Pestana “andou em três partidos” e que “todos eles defenderam mais subvenções e privilégios” para os partidos.
O candidato eleito nas presidenciais de 18 de janeiro substituirá Marcelo Rebelo de Sousa, que tomou posse em 2016. Caso nenhum concorrente consiga maioria absoluta, a segunda volta será realizada a 8 de fevereiro, com os dois mais votados.
Lara Sousa