O conflito entre os Estados Unidos da América e a Venezuela não pode ser compreendido apenas através da retórica da democracia ou da ilegitimidade eleitoral. Trata-se de um confronto estrutural que articula interesses económicos, energéticos, monetários e, mais recentemente, securitários, no contexto do sistema internacional contemporâneo. A Venezuela detém cerca de 20 % das reservas comprovadas de petróleo do mundo, o que a torna um ator estratégico central na geopolítica energética global. Esta posição confere-lhe relevância internacional, mas também a expõe a pressões externas constantes, sobretudo por parte dos Estados Unidos, cuja política externa está profundamente ligada à estabilidade do mercado petrolífero e à hegemonia do dólar.
Durante grande parte do século XX, a Venezuela foi um fornecedor estável de petróleo para os EUA e encontrava-se integrada no sistema económico ocidental. Contudo, a eleição de Hugo Chávez em 1998 representou uma rutura significativa, ao promover a nacionalização do setor petrolífero, reforçar o papel do Estado e politizar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Paralelamente, a política externa venezuelana passou a aproximar-se de potências consideradas rivais estratégicos de Washington, como a Rússia, a China e o Irão. A tentativa de golpe de Estado de 2002, seguida do rápido reconhecimento do governo provisório pelos Estados Unidos, aprofundou a desconfiança mútua e marcou um ponto de não retorno nas relações bilaterais.
A compreensão deste conflito exige a análise do sistema do petrodólar, estabelecido após o abandono do padrão-ouro em 1971. A institucionalização da venda de petróleo em dólares garantiu uma procura global constante pela moeda norte-americana e consolidou a hegemonia financeira dos EUA. Neste contexto, o questionamento venezuelano da centralidade do dólar — através da defesa de transações petrolíferas noutras moedas e da criação de mecanismos alternativos de pagamento — representou um desafio simbólico e político à ordem monetária vigente. Embora a Venezuela não tivesse capacidade para derrubar esse sistema, a sua posição colocava em causa um dos pilares fundamentais do poder económico norte-americano.
Após a morte de Chávez, em 2013, Nicolás Maduro assumiu a presidência num cenário de fragilidade económica agravada pela queda dos preços do petróleo e pela intensificação das sanções internacionais. As eleições de 2018, marcadas por irregularidades, exclusão de líderes da oposição e ausência de observação internacional independente, foram consideradas ilegítimas pelos Estados Unidos e por vários aliados. Essa recusa de reconhecimento não se limitou a critérios técnicos, mas enquadrou-se numa estratégia mais ampla de isolamento político e económico do regime venezuelano.
Nos anos seguintes, o discurso norte-americano passou a incorporar uma dimensão securitária mais explícita. O então presidente Donald Trump afirmou repetidamente que o governo de Nicolás Maduro teria libertado criminosos e enviado deliberadamente indivíduos perigosos para os Estados Unidos, contribuindo para o aumento da criminalidade no país. Trump sustentou ainda que a queda dos índices criminais na Venezuela seria explicada por essa suposta exportação de criminosos, associando casos isolados de violência cometidos por cidadãos venezuelanos à ideia de uma política estatal coordenada. Estas declarações foram amplamente contestadas por organizações independentes de verificação de factos, que apontaram a ausência de provas empíricas que sustentassem a alegação de que Caracas teria promovido o envio sistemático de criminosos para território norte-americano, bem como a inexistência de dados oficiais que indiquem uma taxa de criminalidade desproporcional entre imigrantes venezuelanos nos EUA.
O conflito atingiu um novo patamar em 3 de janeiro de 2026, quando os Estados Unidos realizaram uma operação militar em território venezuelano, bombardeando alvos estratégicos e anunciando a captura do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, posteriormente transferidos para os EUA para responder a acusações criminais, incluindo narcotráfico e terrorismo. Esta ação foi amplamente criticada por diversos Estados e organizações internacionais como uma violação da soberania nacional e do direito internacional, ainda que tenha sido defendida por setores políticos norte-americanos como necessária para restaurar a estabilidade regional.
Em síntese, o conflito entre os Estados Unidos e a Venezuela resulta de uma sobreposição de disputas relacionadas com recursos energéticos estratégicos, hegemonia monetária global, legitimidade política e construção de narrativas de segurança. A democracia e o combate ao crime surgem como elementos centrais do discurso público, mas não esgotam as razões do confronto. O petróleo e o dólar permanecem no centro das dinâmicas de poder internacional, e os desenvolvimentos recentes evidenciam a profundidade estrutural deste conflito no sistema internacional do século XXI.
Texto: Marco Leite