A empatia é tradicionalmente vista como a capacidade humana de sentir, compreender e partilhar os estados emocionais dos outros. Pode ser entendida como a perceção que uma pessoa tem sobre até que ponto consegue expressar os seus sentimentos de modo a ser compreendida. Esta competência tem um papel central na interação social e no alívio do stress, funcionando como um indicador de bem-estar e saúde emocional (Davis, 2018).
De acordo com a literatura, a empatia tem duas grandes dimensões: cognitiva e afetiva; às quais alguns autores acrescentam uma terceira: a compassiva (Carasso & Segel-Karpas, 2024).
A empatia cognitiva indica a habilidade de um indivíduo de perceber e compreender as necessidades do outro sem se envolver emocionalmente. É a representação mental e a reflexão do estado de outra pessoa, permitindo a compreensão das suas experiências emocionais sem ter que realmente vivenciar os seus sentimentos (Carasso & Segel-Karpas, 2024). Por sua vez, a empatia afetiva é o reconhecimento das emoções de outra pessoa através da expressão facial, gestos corporais, frequência da voz, tonalidade, tempo e amplitude. Implica sentimentos e sincronização com essas emoções, podendo incluir a imitação do estado afetivo do outro como resultado direto daquilo que ele sente (Carasso & Segel-Karpas, 2024). Por fim, a empatia compassiva envolve sentimentos de preocupação, simpatia e compaixão, bem como, a expressão desses sentimentos em relação aos outros. Normalmente, está associada a resultados positivos, como o comportamento caridoso, e é considerada o resultado de dois outros estados de empatia, a cognitiva e a afetiva (Daher et al, 2022).
A empatia é, portanto, um pilar das relações humanas. Facilita a comunicação, o entendimento mútuo e o fortalecimento dos laços interpessoais (Carasso & Segel-Karpas, 2024).
Nos relacionamentos românticos, a presença da empatia atua como fator moderador contra os efeitos da tensão conjugal, o que promove uma sensação de intimidade emocional, uma vez que aumenta a proximidade entre os parceiros que sentem que as suas opiniões e sentimentos são ouvidos e respeitados apesar dos conflitos (Binghai et al, 2018). Além disso, a empatia é um recurso valioso para a resolução de conflitos. Em relacionamentos conflituosos, parceiros com níveis mais elevados de empatia mostram-se mais inclinados para o perdão, o que facilita a comunicação interpessoal e diminui o impacto da tensão sobre a intimidade (Hurter et al, 2014).
Pelo contrário, a ausência da empatia traz consequências negativas significativas, sobretudo quando a comunicação se torna imprecisa. Uma das primeiras consequências é a ocorrência de mal-entendidos, frequentemente resultantes da confusão entre empatia e simpatia. Quando o ouvinte, em vez de clarificar a experiência do parceiro, expõe os seus próprios sentimentos, a resposta deixa de ser empática e falha em captar com precisão o que o outro está a sentir (Hurter et al, 2014). Além disso, a falta de empatia também conduz ao distanciamento e à perda de intimidade. Nos períodos conturbados, os indivíduos tendem a sentir-se afastados, o que reduz a capacidade de oferecer apoio e disposição para a autoexposição (Hurter et al, 2014).
No contexto académico, a empatia manifesta-se sobretudo na qualidade das relações interpessoais. Ao favorecer a cooperação entre colegas e professores, permite a valorização de diferentes perspetivas e o desenvolvimento de um trabalho em grupo mais eficaz. Simultaneamente, desempenha um papel crucial na promoção da saúde mental dos estudantes, fomentando redes de apoio que reduzem o isolamento e o estigma (Galinsky et al., 2014). Neste cenário, os núcleos e associações de estudantes surgem como espaços privilegiados de treino empático, incentivando práticas de escuta ativa, solidariedade e entreajuda.
Concomitantemente, a família constitui, por sua vez, o primeiro e mais influente contexto de socialização. A empatia facilita a escuta intergeracional, favorece a resolução de conflitos e sustenta vínculos afetivos seguros (Eisenberg et al., 2015). A literatura evidencia que os pais e cuidadores empáticos contribuem significativamente para o desenvolvimento socioemocional das crianças, potenciando competências como a regulação emocional, a autoestima e a capacidade de cooperação (Spinrad & Gal, 2018).
No campo profissional, a empatia é uma ferramenta fundamental, sobretudo nas chamadas profissões de ajuda (Psicologia, Medicina, Serviço Social e Educação), nas quais a compreensão sensível do outro é indispensável à eficácia da prática (Gerdes & Segal, 2011). Contudo, os seus benefícios estendem-se a todas as áreas laborais. Relações empáticas entre colegas contribuem para ambientes de trabalho mais saudáveis e colaborativos, enquanto líderes empáticos tendem a inspirar equipas mais motivadas, resilientes e produtivas (Clark et al., 2019).
Num plano mais alargado, a empatia desempenha um papel transformador no contexto social e comunitário. Ao incentivar comportamentos pró-sociais, alimenta práticas de voluntariado, cidadania ativa e movimentos de justiça social (Batson, 2011). A capacidade de reconhecer a dor e a necessidade do outro fortalece laços comunitários e contribui para a construção de sociedades mais solidárias e inclusivas.
Contudo, importa reconhecer os desafios inerentes ao exercício da empatia. Uma das principais confusões reside na distinção entre empatia e simpatia, enquanto a simpatia se traduz numa resposta emocional de compaixão ou pena, a empatia implica compreender profundamente a experiência do outro sem ser necessário partilhar integralmente o seu sofrimento (Neff, 2003). Além disso, o contacto constante com a dor alheia pode conduzir à fadiga por compaixão e ao burnout, sobretudo entre profissionais de saúde e educação (Figley, 2017). Por conseguinte, para prevenir estes riscos, é fundamental conjugar a prática empática com o autocuidado, através de estratégias como supervisão, definição de limites e técnicas de mindfulness, que permitem preservar a saúde mental sem abdicar da sensibilidade ao outro (Shapiro & Carlson, 2017).
O desenvolvimento da empatia exige uma prática intencional e articula dimensões cognitivas e emocionais (Davis, 2018; Decety & Cowell, 2015). Entre as estratégias mais eficazes, destaca-se a escuta ativa, que permite ouvir genuinamente o outro e criar vínculos de confiança, a linguagem inclusiva, que favorece a aceitação da diversidade e contribui para relações mais justas, e o contacto com diferentes realidades culturais que permite ampliar perspetivas e fortalecer a capacidade de compreender experiências distintas (Clark et al., 2019; Decety & Cowell, 2015; Gerdes & Segal, 2011). Para promover práticas empáticas e propagar ações generosas, é necessário desde cedo incluir certos conceitos, como a educação socioemocional, regulação emocional e resolução pacífica de conflitos. Tal como estas, existem outras práticas que se mostram eficazes na prevenção de comportamentos agressivos e na promoção de atitudes pró-sociais (Eisenberg et al., 2015; Spinrad & Gal, 2018).
A empatia revela-se uma competência treinável e transformadora, cuja prática intencional potencia não apenas o desenvolvimento pessoal, mas também o fortalecimento das relações interpessoais (Davis, 2018; Decety & Cowell, 2015). Ao ser cultivada de forma consciente, a empatia contribui para relações mais autênticas, ambientes de trabalho colaborativos e comunidades mais solidárias, assumindo-se como um elemento central na construção de uma sociedade mais justa e humana.
Referências Bibliográficas:
Batson, C. D. (2011). Altruism in humans. Oxford University Press.
Binghai, S., Zhou, L., Xiao, W., Zhao, X., Zhang, W., & Li, W. (2018). Accurate empathy of romantic partners increases pain ratings but promotes recovery. Journal of Pain Research, 11, 403–410. https://www.dovepress.com/article_from_submission.php?submission_id=101395
Carasso, E., & Segel-Karpas, D. (2024). Marital strain and emotional intimacy in midlife couples: The moderating role of empathy. Personal Relationships, 31(3), 648–663. https://doi.org/10.1111/pere.12559
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Hurter, S., Paloyelis, Y., Williams, A., & Fotopoulou, A. (2014). Partners’ empathy increases pain ratings: Effects of perceived empathy and attachment style on pain report and display. The Journal of Pain, 15(9), 934–944. https://doi.org/10.1016/j.jpain.2014.06.004
Neff, K. D. (2003). The development and validation of a scale to measure self-compassion. Self and Identity, 2(3), 223–250. https://doi.org/10.1080/15298860309027
Shapiro, S. L., & Carlson, L. E. (2017). The art and science of mindfulness: Integrating mindfulness into psychology and the helping professions (2nd ed.). American Psychological Association. https://doi.org/10.1037/0000022-000
Spinrad, T. L., & Gal, D. E. (2018). Fostering prosocial behavior and empathy in young children. Current Opinion in Psychology, 20, 40–44. https://doi.org/10.1016/j.copsyc.2017.08.004
Autoria: Nupsi
Imagem: Érica Oliveira