Afinal, a idade perdoa

Afinal, a idade perdoa

Uma casa cheia num Sábado à noite que antecedia o conforto de um Domingo à tarde.
Rui Veloso começava o espetáculo em lume brando que nada faria prever o que aí se avizinhava.

À segunda vez que presenteia o público com uma das suas aclamadas músicas diz-nos que queria unir as pedras desavindas e as escoras do seu mundo movediço.
Mal sabia ele que era uma noite de cumprir desejos e de “ter amarras nesse cais”.
Foi enchendo o palco e preenchendo uma atmosfera cada vez mais apta para o servir.
De certeza, que raros são os músicos portugueses que conseguem ser aplaudidos três vezes numa só música- quando a iniciam, a meio e no final.
Rui Veloso é uma dessas raridades que mal inicia já tem uma sala cheia de aplausos, a meio o público não conseguindo guardar o êxtase só para o final liberta-o de imediato quando a sua voz deixa de ser escutada.

Após este inicio, o pai do Rock português acaricia-nos com músicas que já lhe pertencem há uma “carrada de anos”. Algumas dessas não tão conhecidas do público e, por conseguinte, a criar um certo distanciamento entre o palco e quem ouve o que de lá provém. Nada disto era para ficar, pois mesmo nesses “hits” longínquos da sua carreira ninguém estagnava e o “bailarico” era notório.
Muito por culpa, também, da banda que o acompanha! Três segundas vozes, uma guitarra, uns pratos e o inevitável Zé Nabo de há umas largas décadas. Tudo isto em conjunto parecia fazer mais sentido, tudo isto estava mais conectado… quase como se não conseguissem existir singularmente.
Aproximamo-nos de um concerto que o fim parece estar para chegar daqui a nada. Ninguém esperava duas horas de concerto. Até que, entre risos, Rui Veloso diz “Porra, isto hoje está a correr bem” e continuamos a receber o ar da sua graça.
Recorda os tempos de vir a Vila Real comer posta e goza com o facto de se já se conseguir comer posta no Algarve e em todo lado, como se as terras começassem a perder as suas características devido a uma globalização forçada.
Ainda relembra o tempo em que dava concertos de pé e o quanto lhe irrita fazê-lo sentado.

Posto isto e quando parecemos estar a cair numa monotonia, levanta-se  finalmente e apresenta “Chico Fininho” ao público, da mesma maneira que possivelmente o faria com 20 anos: na sua energia frenética e imparável. Ainda nos presenteia com uns êxitos antes de abandonar a sala com uma ovação desmedida.

Claro, regressa para o encore e é então que nos dá “Não há estrelas no céu” com um eco a ultrapassar a voz original e esse mesmo com uma assertividade de pasmar.
“A Paixão” é a sua última música e, sem dúvida, o momento da noite.

Levanta-se mais uma vez e dá um espetáculo de harmónica que ninguém esperaria daquela forma. Numa noite em que se esperava um certo cansaço de espetáculos e mais espetáculos, apenas uma presença amena e fugaz de Rui Veloso, ele fez questão de encher o palco e despede-se dizendo “Isto será sempre diferente, mas hoje foi bom. Estávamos todos a falar disso lá dentro.”
O ar de rock permanece e a idade, de facto, perdoa.

José Carvalho

Fotografia: O Torgador (Marcelo Martins)