João Álvaro, candidato a presidente do SC Vila Real: “O clube tem um potencial gigantesco”
Aproxima-se o dia em que os sócios do Sport Clube Vila Real decidirão o caminho que querem para o clube e a equipa que preferem para liderar essa caminhada. Estão na corrida três candidatos: João Álvaro, Rui Florindo e Francisco Carvalho e o jornal “O Torgador” entrevistou cada um deles (à exceção deste último que não se mostrou disponível) com o objetivo de clarificar os rumos que o clube alvinegro pode vir a tomar a partir de dia 25 de Maio.
João Álvaro, atual diretor de comunicação do SC Vila Real, e líder da lista “O Novo Bila” acedeu a conversar com “O Torgador”:
O Torgador (OT) – A época desportiva encaminha-se para o fim e o mandato, no qual ainda exerce funções de diretor de comunicação, também está próximo de findar. Pode fazer um balanço de ambos os períodos?
João Álvaro (JA) - Penso que é mais fácil fazer um rescaldo relativamente ao mandato que agora finda, visto que em termos desportivos ainda há jogos e objetivos para atingir, por isso ainda não é possível fazer um rescaldo em pleno. No mandato do presidente Artur Ribeiro, assumi um cargo um cargo ao nível da comunicação este ano e acho que foi um trabalho positivo, pois ampliamos a nossa presença nas redes sociais (Facebook e Instagram), restauramos algumas relações de confiança com alguns órgãos de comunicação social que estavam afastados do SC Vila Real, normalizamos também aquilo que eram os procedimentos da comunicação entre o clube e os órgãos de comunicação social com a criação das normas de relacionamento com os média enquadradas com o que é feito a nível do Campeonato de Portugal e principalmente ao nível da comunicação com os adeptos. Um dos grandes ativos que o SC Vila Real tem é a sua marca e nós sentíamos que a marca não estava devidamente protegida mesmo do ponto de vista formal. Neste momento a marca está salvaguardada e genericamente pode dizer-se que houve um incremento de confiança na relação com todos os atores que rodeiam o clube: desde logo o adepto, mas também os patrocinadores e a comunicação entre os próprios membros do clube. Houve também um foco maior na formação, que não tinha uma cobertura mediática e passou a ter. Portanto o balanço é claramente positivo nesse aspeto.
OT – Como surgiu e o que o levou a assumir esta candidatura? Sendo um membro da atual direção e contando na sua lista com vários nomes que transitam do mandato que agora termina, será uma candidatura de continuidade?
JA - Primeiramente gostava de frisar que esta não é uma candidatura individual, mas obviamente que todos os grupos têm uma liderança e eu assumo-a sem qualquer problema. O cariz da candidatura é mesmo o de ser uma candidatura de equipa, essa é uma vantagem que encontramos inclusive quando comparada com outras candidaturas. Assim, o que levou este grupo de sócios, alguns inclusive membros da atual direção, a assumir este projeto foi simplesmente o facto de se perceber que íamos realmente para eleições no fim da temporada, algo que não estava previsto pelo mandato normal. A partir do momento que percebemos que iam haver estas eleições apercebemo-nos também que havia um conjunto de condições que favoreciam o surgimento de uma candidatura com um cariz diferente. Surgiu de forma natural e é uma candidatura que procurará dar continuidade às coisas que foram bem feitas ao longo desta temporada mas é também uma candidatura de rutura, se assim lhe quisermos chamar, pois percebemos a uma determinada altura que o presidente não contava manter a estrutura que estava programada para este biénio e portanto, a partir daí o caminho que seguimos não foi coincidente com o dele.
OT – Mesmo assim, conta com o apoio de Artur Ribeiro, o atual presidente, visto que não se irá recandidatar?
JA - Bem, essa é uma pergunta que lhe deverá ser endereçada a ele para perceber o posicionamento dele nestas eleições.
OT - O facto de encabeçar uma lista e sabendo-se ainda da existência de mais duas candidaturas, acha que isto pode transmitir a ideia que é necessária uma mudança no rumo do SC Vila Real?
JA - Eu acho que acima de tudo, o facto de haver 3 candidaturas assumidas até ao momento reflete o grande potencial que o SC Vila Real tem e também a quantidade de gente disponível para dar um bocadinho do seu tempo ao clube e isso é totalmente positivo. Eu vejo com uma grande naturalidade e até com entusiasmo o facto de haverem várias candidaturas ao clube. Quanto à mudança que referiu, cabe aos sócios escolher e perceber essas nuances, mas a candidatura onde estão as pessoas que estiveram nos últimos anos no SC Vila Real está claramente identificada, mas sim, nós somos da opinião de que tem de haver uma mudança.
OT - Falando de mudança, isso leva-nos para as intenções concretas da sua lista. Em termos de futebol há várias questões a abordar: a formação, o futebol sénior, a parceira com a Footconect… Que projeto idealizam para o futebol?
JA - Aquilo que nós pretendemos, sabendo da existência dessa parceria que até tem sido questionada por alguns sócios, nós queremos muito dizer o seguinte: existe de facto um contrato e o SC Vila Real vai honrá-los como entidade de bem que é e como pessoas de bem que somos as pessoas que queremos dirigir o clube. Portanto, nós não vamos rasgar contratos nenhuns, mas temos uma ideia definida do que queremos para o clube em termos de futebol e aí não consigo falar de futebol sénior sem falar de futebol de formação, para nós as duas áreas estão interligadas. A nossa grande aposta vai ser na formação, por isso não seria coerente dizer que o que vamos fazer nos seniores é injetar muito dinheiro no clube para subir de divisão no imediato ou manter parcerias com empresários que tragam jogadores de um nível competitivo acima do que nós estamos, que é o Distrital de Vila Real. Eu acredito que tem de haver uma grande coerência na mensagem que passamos e na nossa candidatura a coerência passa por aí, por dizermos claramente que a nossa aposta é na formação e que vamos diminuir a dependência que, efetivamente, sentimos que a equipa sénior tem tido de jogadores de fora, não necessariamente estrangeiros, não é isso que está em causa. Hoje em dia o futebol é um negócio globalizado e a ideia romântica de que podemos chegar à 1ª divisão com jogadores da casa... É assim, o SC Vila Real tem na génese da sua riquíssima história um amadorismo muito grande, um amadorismo pela positiva e precisamente a ideia de que os jogadores da terra representavam o SC Vila Real, a cidade e a região. Sendo ambiciosos e tendo como objetivo colocar o clube nos patamares principais do futebol português, nós não descuramos nem diabolizamos nenhum dos atores que estão no futebol neste momento, sejam jogadores estrangeiros, jogadores nacionais, sejam eles empresários ou outros clubes, não descuramos nenhum tipo de parceria que seja lícita e legítima que exista no futebol. Aquilo que posso dizer mais resumidamente é: a nossa aposta é na formação e a nossa aposta no futebol sénior será condizente com essa aposta na formação. Fazer esta ligação pressupõe uma série de coisas, até porque a formação demora a dar resultados obviamente, pressupõe numa primeira fase que nós tenhamos um plano que nos possa levar daqui a dois anos a ter o clube estruturado nesse sentido, mas é claramente uma aposta de futuro, com estabilidade, mas de futuro. Mais do que essa aposta imediata ao nível dos jogadores, o que nós queremos é dar a estrutura à formação, não só a nível de espaços de treino, mas também ao nível de recrutar os melhores treinadores de formação para o SC Vila Real. O clube tem um potencial enorme no seu todo e, na nossa opinião, não está a ser plenamente alcançado e esse potencial divide-se em vários parâmetros em que pode ser avaliado, mas a formação é sem dúvida o principal. Nós estamos situados numa capital de distrito, temos uma área de recrutamento natural muito grande e não é simplesmente admissível que com estes fatores o SC Vila Real não esteja noutros patamares tanto a nível de seniores como de formação.
OT - Para além do futebol, fez questão de destacar as modalidades. Que passos serão dados nas modalidades, se a sua lista for a eleita?
JA - Nós temos o programa dividido nas três áreas em que queremos intervir: futebol sénior, formação e modalidades. Nós queremos que as modalidades assumam a importância que sempre assumiram na história do SC Vila Real, pelo menos na sua história mais antiga. É verdade que hoje em dia o SC Vila Real é sinónimo, quase em exclusivo, de futebol sénior, mas é necessário perceber que os grandes momentos de glória do clube advêm das modalidades. Neste momento, estão em funcionamento o voleibol e a patinagem artística, sendo este último um projeto recente criado neste mandato que ainda vigora, já o voleibol é um projeto que tem mais de um ano. Houve algumas pessoas com alguma ligação sentimental e histórica ao clube que resolveram reativar a secção de voleibol e o clube praticamente deu o nome para que esse grupo de pessoas pudesse trabalhar. O que nós queremos no caso particular do voleibol é ir mais além. Nós já reunimos com a secção de voleibol e explicamos que a nossa visão é a das modalidades plenamente integradas no clube, sentimos que voleibol e Vila Real fazem sentido no SC Vila Real até pelo crescimento notável a que assistimos. Começamos com 12 ou 13 meninas inscritas e federadas no voleibol e neste momento o clube conta com mais de 70 jogadoras e fechamos, inclusive, a possibilidade de inscrições porque é incomportável ao nível de espaços de treino, será uma questão a resolver também. Este crescimento exponencial tem a ver com a forma como as pessoas veem a modalidade. Assim, o que nós queremos é aproveitar sinergias de modo a potenciar a marca, e para que esta seja forte temos que lhe ter associada valores coerentes e transversais a todas as áreas do clube. Desta forma, em relação às modalidades que existem, o objetivo é integrá-las plenamente no clube para que elas possam beber dessas sinergias e valores. Temos ainda em mente que a pessoa responsável pelo departamento das modalidades ficará incumbida pelo funcionamento das existentes, mas também terá uma função de prospeção de novas modalidades. Iremos auscultar a população jovem para perceber o que faz sentido surgir no seio do SC Vila Real, entender que oferta é que ainda não existe e que nós temos de dar resposta e vamos, efetivamente, dar prioridade a aquilo que ainda não existe. Pelas relações existidas com os outros clubes da cidade e do concelho, entendemos que não faz grande sentido duplicarmos a oferta que já existe em termos de modalidades.
OT – Quanto à massa adepta e população da cidade de Vila Real, sente que os adeptos do SC Vila Real estão próximos do clube?
JA - Nós sentimos que não, é um bocadinho voltar ao que disse anteriormente, nós sentimos que o clube tem um potencial gigantesco graças a várias características endógenas e é de facto o clube da cidade com mais tradição, ou seja, essas características quase que “obrigam” o SC Vila Real a ser a cara da cidade a nível desportivo. Respeitando todos os clubes do concelho, nós não queremos ser os melhores só pela marca ou só pela história, queremos ser os melhores para ter os melhores a trabalhar connosco, queremos ter o melhor projeto desportivo para mostrar aos pais e aos adeptos e não queremos ser os melhores por decreto, mas sim por mérito. Logo, quando digo que este potencial não está a ser devidamente explorado, prende-se também muito por esta questão da ligação aos adeptos, pois sentimos que houve um “desligar” sentimental de grande parte da cidade para com o clube e esse é um dos flagelos que queremos resolver. Uma das regras da nossa candidatura é não falar mal de ninguém, queremos apresentar o nosso projeto pela positiva e pelo clube. Assim, para resolver essa ligação perdida com os vila-realenses queremos ter uma equipa sénior que seja o espelho da formação, uma formação de excelência e mostrar que a abrangência do clube se estende para as modalidades. Tendo um foco tão vincado na formação, é importante esclarecer que o clube não tem só responsabilidades desportivas, o clube tem responsabilidades sociais muito fortes. Hoje em dia, há valores que o desporto coletivo dá aos jovens que não se encontram em mais lado nenhum, mais ainda quando atravessamos uma crise de valores quanto à juventude atual. Esses valores têm que ser incutidos no SC Vila Real, principalmente na formação, isto é algo que levamos muito a sério até porque estaremos a formar os futuros vila-realenses e nossos futuros conterrâneos, por isso queremos assumir também esse papel social.
OT – Um clube que queira crescer de forma sustentada, precisa de uma estrutura que acompanhe também esse crescimento. Que alterações se podem esperar ao nível da estrutura do SC Vila Real?
JA - A base do sucesso futuro é a estruturação do clube no presente e nós querendo um clube de futuro, temos que arrumar o que está desarrumado. Para nós, estruturar será sinónimo de abrir o clube porque sentimos que nos últimos anos o SC Vila Real se fechou em torno de pouca gente e consequentemente houve pouca abertura à novidade e à mudança. Já foram dados passos na direção certa neste último ano, mas sentimos que depois desse primeiro passo faltaram os passos consequentes dentro da estrutura do clube e não foi possível abrir o clube como é desejável. Este é um dos fatores fundamentais, entendemos que o clube precisa de se abrir a muita gente e essa é a matriz da nossa estruturação. Falando em pessoas, já divulgamos várias pessoas e as áreas principais onde iriam exercer dentro nossa lista de candidatura e para além dessa questão da equipa, entendemos que a questão da liderança é importante. Quem estiver à frente do clube tem que possuir alguns skills de liderança, gestão, coordenação, que, sem falsas modéstias, a candidatura assume na pessoa do seu candidato, que sou eu.
OT – Em termos gerais, que feedback tem recebido a sua candidatura?
JA - Temos recebido um feedback muito positivo ao nível dos adeptos e vemos com agrado que o aparecimento de uma candidatura com o cariz da nossa, que me parece único, tenha sido tão bem recebida. O tecido empresarial também nos tem dado um parecer positivo, a pessoa que vai desempenhar as funções comerciais já as está a desempenhar atualmente e algumas portas que estavam fechadas no início da época, agora estão dispostas a abrir-se e expressaram de forma direta que se formos eleitos querem fazer parte do projeto. A cidade não está de costas voltadas para o clube por decreto, é um mito que tem de ser desmontado porque há muita gente que quer ajudar o clube, mas pretendem ver um projeto mobilizador e de confiança, no qual se possam rever, logo há que estabelecer essas bases. Tem sido um orgulho que esta candidatura receba todos estes pareceres positivos.
OT – Tendo em conta as condições que o SC Vila Real possui, até onde acha que o clube pode chegar? Qual será o limite do potencial que referiu anteriormente?
JA - Penso que não há limite porque tudo depende da atratividade da marca e de outros variadíssimos fatores. Eu penso que mais importante que os limites, é o facto de que quanto mais estiverem os nossos pés assentes no chão, menos limites teremos. Nesta altura, em que ainda estamos longe de poder atingir grandes voos, devemos centrar-nos em atingir o potencial natural que o SC Vila Real tem e que com uma direção fazendo o seu trabalho, digamos, normal colocaria o clube num patamar de Campeonato de Portugal na metade superior da tabela. Não penso que o potencial natural seja uma 2ª Liga porque o SC Vila Real não tem no seu passado recente essa experiência. No entanto, quando chegarmos a esse potencial natural já haverá um conjunto de condições criadas para que o potencial seja ainda mais elevado, até porque com o tecido empresarial, demografia e infraestruturas que hoje em dia possuímos o potencial será redimensionado e aí voltaremos ao início desta resposta: não haverá limite quando as coisas são bem feitas.
OT – Assumir as “rédeas” de um clube é um trabalho de equipa, no entanto a existência de um líder é algo fundamental. Que tipo de liderança gostaria de assumir, se fosse o candidato eleito pelos sócios?
JA - Uma liderança que eu aprendi ao longo da vida, ou seja, uma liderança pela positiva e com muita delegação. Só faz sentido estabelecer uma equipa se houver confiança nela, aliás a confiança entra na definição daquilo que é uma equipa. Se não houver confiança seria um grupo de pessoas e não uma equipa, isto é algo que se pode extrapolar para o que acontece dentro de campo ou em qualquer uma das modalidades, por isso na diretiva também acontece e desde logo a confiança é um fator fundamental. Existindo competência e confiança nas pessoas, a liderança em que me revejo tem muita delegação, para além disso seria uma liderança de proximidade e acompanhamento, sendo também o que eu gostava que fosse o reflexo da proximidade entre os sócios e o clube. Queremos ser abertos para ouvir, porque há muita gente com muitas ideias em Vila Real e é preciso ouvi-las e coloca-las a ajudar o clube. Acima de tudo, uma liderança abrangente. Respeitando aquela máxima de não falarmos mal de ninguém, penso que a força de uma liderança também se vê pelas pessoas de que nos rodeamos. Devemos fomentar a cultura de trazer os melhores para trabalhar connosco. Mas ainda bem que faz essa pergunta porque a questão da liderança e da equipa versus a individualidade é fundamental e vai estar muito em jogo nestas eleições. Tendo em conta as candidaturas assumidas, à data de hoje, a força da nossa equipa pode ser um fator diferenciador. É preciso que as pessoas percebam uma coisa, a cidade está farta de messias que iam colocar o SC Vila Real para lá daquele potencial que falamos há bocado e eu estou convencido que essa não é a forma de levar a cidade até ao clube e acho que essa não é a maneira que os sócios querem seguir para gerir o clube. Ninguém faz nada sozinho, muito menos num clube desportivo, onde a primeira coisa que aprendemos num clube é que quem quer a bola só para si, nunca ganha.
OT – O aspeto comunicacional é algo imperativo neste período de campanha, mas também assume grande importância dentro de um clube. Já deixou várias mensagens fortes ao longo da entrevista, mas se tivesse que deixar uma mensagem principal qual seria? Que papel reservará para a comunicação, se for eleito?
No fundo, a mensagem que a nossa lista quer passar é a ideia de respeitar o passado, construir o presente e crescer no futuro, porque entendemos que se nós não soubermos de onde vimos, dificilmente traçaremos um caminho na direção adequada. Quanto à comunicação num clube como o SC Vila Real, esta assume um papel fundamental, não é algo acessório. Temos que ser eficazes e competentes ao nível da informação e comunicação, essencialmente para chamar e prender aqueles que nos interessam, neste caso sócios e adeptos. É uma área que evoluiu muito nestes últimos tempos e o clube sentiu isso e foi uma lacuna identificada e colmatada em parte no ano passado e o que nós queremos é continuar a melhorar nessa área. Nós queremos uma transparência muito grande, um clube de portas abertas e paredes de vidro, digamos assim. Queremos que qualquer sócio consiga perceber o que se está a passar dentro do clube e dentro de todos os departamentos. Em termos macro, é isto que queremos a nível de comunicação, que será o elo que ligará a cidade ao clube.
Xavier Costa
Fotografias: O Torgador (João Pereira)