Weapons

Dezanove? Não. Dezassete crianças, uma noite e um mistério que transforma uma pequena comunidade num lugar onde ninguém parece estar a salvo.

Há desaparecimentos que deixam perguntas. Em Weapons, deixam uma cidade inteira à beira da loucura.

Realizado por Zach Cregger, o mesmo cineasta responsável por Barbarian (2022), Weapons (2025) parte de uma premissa tão simples quanto inquietante: numa pequena cidade norte-americana, dezassete crianças de uma mesma turma desaparecem durante a noite, à mesma hora e sem qualquer explicação. Às 2h17 da manhã, todas saem de casa e correm em direção à escuridão. Todas, menos uma. Alex, o único aluno que permanece, torna-se uma das poucas pistas de um caso que rapidamente ultrapassa os limites do racional.

O mistério instala-se desde os primeiros minutos, mas Cregger não tem pressa em oferecer respostas. Pelo contrário, constrói uma narrativa que obriga o espectador a desconfiar de tudo e de todos. A professora Justine Gandy, interpretada por Julia Garner, passa a ser alvo das suspeitas dos pais, enquanto Archer Graff, vivido por Josh Brolin, procura desesperadamente descobrir o que aconteceu ao filho. À medida que outras personagens entram na história, o desaparecimento ganha novas dimensões e a sensação de que algo está profundamente errado torna-se impossível de ignorar.

Uma das escolhas mais interessantes do realizador é contar a história através de diferentes perspetivas. Em vez de acompanhar uma única investigação do início ao fim, o filme divide-se em capítulos centrados em várias personagens, revelando novos detalhes a cada mudança de ponto de vista. O que inicialmente parece não fazer sentido começa, aos poucos, a encaixar. Ainda assim, cada resposta abre espaço para outra pergunta, mantendo o espectador preso a uma narrativa que raramente segue o caminho esperado.

É precisamente nesta construção que Weapons encontra uma das suas maiores forças. O terror não depende apenas de sustos repentinos ou de imagens grotescas. Está também nos silêncios prolongados, nos comportamentos inexplicáveis e na estranheza de situações aparentemente banais. Uma casa pode tornar-se ameaçadora, um rosto familiar pode provocar desconforto e uma simples corrida pela rua pode transformar-se numa das imagens mais perturbadoras do filme.

A atmosfera é reforçada pelo trabalho sonoro e visual, que contribui para criar uma sensação constante de insegurança. Cregger sabe quando deixar o silêncio ocupar o ecrã e quando quebrá-lo com momentos de violência inesperada. O resultado é um filme que alterna entre o mistério, o horror sobrenatural e sequências de brutalidade explícita, sem perder a identidade própria. Nem sempre é subtil, mas raramente deixa o espectador indiferente.

Também as interpretações merecem destaque. Julia Garner transmite a fragilidade de uma professora encurralada entre a culpa, o medo e a desconfiança de uma comunidade que procura desesperadamente um culpado. Josh Brolin dá corpo à angústia de um pai incapaz de aceitar o desaparecimento do filho. No entanto, é Amy Madigan, no papel de Gladys, quem deixa uma das marcas mais fortes. A sua presença é desconcertante e contribui para criar uma figura que parece pertencer a um pesadelo do qual ninguém consegue acordar.

Para lá do sangue e dos momentos de maior violência, o filme deixa ainda espaço para uma reflexão sobre o medo coletivo e a facilidade com que uma comunidade pode transformar a incerteza em acusações. Perante uma tragédia sem explicação, a necessidade de encontrar um responsável torna-se quase tão assustadora como o próprio acontecimento. Em vez de unir as pessoas, o desaparecimento das crianças alimenta a desconfiança e revela o lado mais agressivo de quem procura respostas a qualquer custo.

O título, Weapons, ganha assim uma dimensão que vai além da violência física. As pessoas podem ser manipuladas, usadas e transformadas em instrumentos para atingir outras. A ameaça não está apenas naquilo que vemos, mas também na possibilidade de perdermos o controlo sobre as nossas próprias ações.

Apesar de algumas escolhas narrativas que poderão dividir opiniões, sobretudo pela forma como o filme mistura o grotesco com momentos de humor negro, Weapons consegue distinguir-se num género repleto de fórmulas repetidas. A sua história é imprevisível, a atmosfera é desconfortável e a revelação do mistério conduz a um desfecho tão violento quanto memorável.

Neste Halloween, há muitos filmes capazes de nos fazer saltar da cadeira. Weapons prefere algo mais persistente: deixar-nos desconfiados depois de os créditos terminarem. Porque, por vezes, o pior não é aquilo que se esconde na escuridão, mas aquilo que acontece quando alguém decide trazer o pesadelo para o mundo real.

Mariana Pinto