No dia 31 de agosto escreve-se mais um pedaço de história naquele que é considerado por muitos o maior dérbi do país.
Braga e Vitória defrontam-se pela quarta jornada do campeonato português, naquele que é o jogo número 162 entre as duas equipas, sendo os registos nada mais que extraordinários pelo modo como se apresenta uma quase igualdade em todos eles. São, nesses 162 jogos 65 vitórias para o Braga, 35 empates e 62 vitórias para o Vitória. No Municipal de Braga o jogo já contêm outra história, sendo a equipa da casa a mais beneficiadora, contendo 48 vitórias, 17 empates e apenas 16 derrotas. No estádio D. Afonso Henriques, os números sorriem mais aos Conquistadores, tendo 45 vitórias, 18 empates e 17 derrotas. Estes números por si já são extraordinários, mas ficam ainda mais se virmos os golos, havendo uma maior vitória do SC Braga marcando 223 golos, enquanto o Vitória fica atrás apenas por 6 golos, marcando 217.
O Vitória-Braga fica muito além de um simples dérbi, nele está envolvida história que provém mesmo dos tempos da criação do Condado Portucalense, sendo nos tempos mais antigos, uma rivalidade por poder, tendo Braga o centro da fé do Condado, a Sé de Braga e Guimarães o poder político, sendo a capital do Condado e também contendo um dos grandes fatores da rivalidade, a Colegiada da Senhora da Oliveira, que rivalizava com a Sé de Braga e era apoiada pelos monarcas da cidade de Guimarães. Esta rivalidade traria-nos uma das histórias mais conhecidas sobre a rivalidade entre as cidades quando, no longínquo ano de 1608, freiras receberam comissários do arcebispo de faca na mão. A história conta que, durante o século XVI (16), o Convento de Santa Clara, hoje casa da Câmara Municipal de Guimarães, este sobre alçada dos Priores da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, ao chegar o ano de 1608, passou formalmente para a obediência jurídica do Arcebispo de Braga, algo que de facto não agradou muito as freiras do convento, por razões diversas sendo as mais conhecidas a forte ingerência e tentativas de controlo pelas autoridades eclesiásticas de Braga. Em sinal de protesto contra tais as visitações e ordens rígidas que vinham de Braga, reza a história que as freiras se barricaram e enfrentaram os emissários vizinhos enviados pelo arcebispo, empunhando facas de cozinha.
Outra das histórias relacionadas à rivalidade das duas cidades é de que, empresários de Braga estariam, por volta do séc. XIX e séc. XX, a roubar os “contratos” dos vimaranenses, levando a um dos maiores momentos de tensão entre as cidades, que foi “A Pedrada de 1885” realizada no dia anterior as Nicolinas, festas vimaranenses dos estudantes em honra a S. Nicolau, quando procuradores à Junta Geral do Distrito foram apedrejados nas ruas de Braga.
No milénio seguinte, começaria a surgir em Portugal uma maior atenção ao desporto-rei e claro que a rivalidade seria para ele também transmitida. O SC Braga foi fundado oficialmente no dia 19 de Janeiro de 1921 sobretudo por estudantes da cidade, entre eles João Gomes, que se tornaria primeiro presidente do clube. Guimarães, não querendo ficar atrás do rival criou o clube em 1913, após a junção do Sport Club Vimaranense e do Foot-ball Grupo Vimaranense em 1913, mudando o nome para Vitória Sport Clube em 1918. Mas seria apenas em 1922 que se tornaria oficial a sua fundação.
Seriam nos primeiros anos de ambos os clubes que surgiram também os primeiros jogos no Campeonato Distrital de Braga. Seria em 1939 que se registou a maior vitória do Vitória sobre o Braga, numa vitória de 9-2, em Guimarães, no campo de Benlhevai. Nessa década é também visto uma perda do Braga no domínio regional, dando lugar ao Vitória como potência da região. Esse Vitória seria o primeiro dos dois a frequentar a primeira divisão portuguesa, quando sobe no ano de 1941 e só voltaria à segunda divisão em 1955. Regressaria à primeira divisão em 1958, não descendo mais até ao final do século. Do outro lado, o Braga faz a sua primeira aparição no topo do futebol português em 1945, recebendo também o Estádio 28 de Maio como uma motivação para o clube. Desceriam de divisão em 1956, voltando no ano a seguir à primeira. Seria o Vitória que, nesse século se sobressairia, sendo candidato assíduo aos lugares primários na tabela classificativa, chegando por vezes a lutar pelo campeonato, sendo o melhor exemplo a época 68/69, quando ficou a apenas 3 pontos do campeão Benfica. Nos anos 80, o Vitória entrava na sua Era Dourada, ao leme do presidente Pimenta Machado, participando por várias vezes nas competições europeias e vencendo mesmo, em 1988, a Supertaça de Portugal frente ao FC Porto. O Braga por outro lado entrava numa das suas piores fases da história, estando constantemente a lutar contra a despromoção em grande parte dos anos. É no virar do século que a história começa a ficar mais favorável ao Braga. Em 2003 e com a chegada de António Salvador para a presidência do clube, o Braga cresce como a principal potência do Minho. Entre 2004 e 2013 o Braga consegue mesmo manter a sua presença constante nas competições europeias, chegando mesmo a ser campeões da última edição da Intertoto Cup. O Braga também proclamaria o vice-campeonato no ano de 2010, tendo liderado a maior parte do campeonato e assegurando a sua primeira participação na UEFA Champions League, chegando mesmo à competição após vencer as eliminatórias frente a Celtic e Sevilha. Em 2013, chegariam até à final da Liga Europa, que acabariam por perder para o FC Porto em Dublin. Participaram na Champions League do ano seguinte, sendo eliminado na fase de grupos. O rival Vitória não teve um início de século semelhante ao rival. O clube acabaria mesmo por descer na época 2005/06, subiria no ano seguinte e ficariam em terceiro lugar, numa luta até à última jornada com o Sporting CP pelo segundo lugar. O Vitória ganhava assim a sua primeira oportunidade de disputar o mais alto torneio do futebol europeu, sonho que foi afastado pelo Basel da Suíça, com um golo anulado que perturba até hoje os adeptos vimaranenses, pela má anulação do golo de Roberto. Na época 2012/13, o Vitória vence o Benfica na final da Taça de Portugal e aumenta o seu palmarés para dois títulos. Nos anos seguintes o Braga exibiria uma superioridade ao Vitória, chegando mesmo a registar, na época 2017/18, em pleno D. Afonso Henriques, um 0-5, a maior vitória do conjunto de Braga frente ao eterno rival.
O auge desta rivalidade surgiria na época passada, aquando da Taça da Liga, onde os dois rivais venceriam Sporting e Benfica para se enfrentarem numa final histórica, a primeira final entre os dois clubes. No dia 10 de Janeiro de 2026, no estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, que Vitória e Braga se enfrentaram na final da Taça da Liga. O Braga começaria melhor, com o golo de livre de Mario Dorgeles aos 16 minutos de jogo. Na segunda parte seriam os conquistadores a pegar no jogo, marcando de grande penalidade por Samu, ao minuto 58, e no minuto 83 seria o gigante Ndoye a marcar o 2-1. Já nos minutos de compensação, o Braga ganharia um penálti e seria Charles, guarda-redes vitoriano, o herói ao defender o remate de Zalazar para trazer para Guimarães a Taça e por cima, a honra de se vangloriar campeão em cima do maior rival. No dia 31, escreve-se mais uma página nesta história milenar. Já sem freiras e comerciantes ao barulho, serão os jogadores que defenderam as cores das suas cidades. De um lado o vermelho e branco que carrega o brasão da cidade de Braga, do outro o preto e branco com o 1º Rei de Portugal na frente. Quem será que dança o vira do Minho no jogo, será Vicens e o esquadrão bracarense ou será Tiago Margarido e os seus soldados vimaranenses? Amanhã saberemos, sempre sabendo que este é o melhor dérbi de Portugal.
Autor: Rúben Fernandes
Imagem: CNNPortugal