Entre rutura e mediação: o debate decisivo da segunda volta

Entre rutura e mediação: o debate decisivo da segunda volta

No passado dia 27 de janeiro teve lugar o único debate televisivo para a segunda volta das eleições presidenciais. De um lado, António José Seguro, apoiado pelo PS e com apoios de todas as candidaturas presidenciais à esquerda; do outro, André Ventura, apoiado pelo Chega. O debate, com um tempo mais alargado, tinha como intenção uma troca de ideias mais livre, mas destacou-se pelas interrupções.

Seguro inicia o debate afirmando que recebeu, da esquerda à direita, apoios de todo o tipo de pessoas, que admitem ver nele as qualidades que um Presidente da República deve ter: experiência, moderação e desejo de mudança do que está mal no país. Defende ainda uma sociedade que proteja todos os seres humanos, sem discriminações, e afirma-se como um presidente que vem para unir. Definiu compromissos na área da saúde — “garantir aos portugueses saúde a tempo e horas”; na criação de oportunidades — “garantir aos nossos jovens que o país não é só bom para viver, mas também é bom para trabalhar”; e na habitação — “que não seja um luxo apenas para alguns”. Defende ainda o compromisso de fazer de Portugal um país moderno e justo.
O candidato socialista rejeita a ideia de uma eleição “Esquerda x Direita”: “Eu dirijo-me a todos os portugueses e é por isso que tenho apoios quer da esquerda, quer da direita, quer de pessoas que não se enquadram em quadrante nenhum.”

André Ventura rebate os apoios recebidos por António José Seguro vindos do espectro à direita: “vários adversários não estão a apoiar o Dr. António José Seguro pelo próprio Dr. António José Seguro (…) Não estão a votar por António José Seguro, estão a votar contra mim”. O candidato recorre ainda a uma frase de Aníbal Cavaco Silva, ex-Primeiro-Ministro e ex-Presidente da República, que se referia a António José Seguro como “inseguro, medroso, sem capacidade qualquer de liderança”, afirmando: “isto não é sobre António José Seguro, é sobre cancelarem-me a mim e cancelarem o projeto de mudança e de rutura com o sistema”. André Ventura defende que foi criado em Portugal um sistema de interesses que não está preparado para a mudança e que os apoios a António José Seguro nada mais passam de tentativas para manter e sustentar esse sistema, afirmando tratar-se de uma eleição da elite contra o povo.

Seguro responde afirmando que qualquer pessoa pode mudar de opinião e que vê como positivo existirem apoios de vários campos políticos à sua candidatura. Quanto à “eleição da elite contra o povo”, afirma ter um milhão e setecentos mil portugueses que votaram em si: “se isto não é o povo, onde está o povo?”. Justifica os apoios à direita não por uma questão ideológica, mas por acreditar que veem nele um Presidente da República que “garanta a proteção do nosso chão comum”: a democracia, a liberdade e o respeito.
No que toca à recusa do debate das rádios, Seguro afirma só precisar de defender uma posição sobre cada assunto e ataca o adversário: “eu percebo que o deputado André Ventura, que tem várias posições sobre vários assuntos, precise de um debate sobre cada uma das suas posições”.

Relativamente ao perfil de Presidente da República que cada candidato defende, André Ventura apresenta um papel vigilante: “se é para estar lá sem fazer nada, nem vale a pena pagar um salário ao Presidente da República”, acrescentando: “se é para estar lá sem fazer nada, percebo que escolham o António José Seguro em vez de mim”. Ventura admite assumir exigências ao Governo, sendo interventivo em defesa do povo, e afirma que nunca defenderá o Parlamento nem as elites. Defende um diálogo institucional combinado com pressão pública sempre que considere que as coisas estão a falhar.

António José Seguro, por sua vez, defende um Presidente exigente quanto a resultados. Assegura que, enquanto Chefe de Estado, procurará o compromisso entre todas as forças políticas para garantir soluções para os problemas do país. Mais focado no tema da saúde, mostra-se inconformado com a situação em Portugal: “Vi durante a campanha idosos que chegavam junto de mim e diziam: ‘Eu já tenho medo de adoecer’”. Defende soluções duradouras e critica a mudança constante de governação, de ano em ano e meio. Assume-se como um Presidente cooperante e não ruidoso: “Quero ser o Presidente da República das soluções para que os portugueses tenham uma vida melhor e uma vida digna.”

O seu adversário desvalorizou este ponto de vista, afirmando: “António José Seguro conseguiu falar durante dois minutos e trinta e seis sem dizer uma única coisa (…) Não pode fazer o seu caminho para a presidência só a dizer generalidades”.

Numa fase mais avançada do debate, a discussão passou também pela segurança e justiça. André Ventura voltou a defender penas mais pesadas para crimes graves, acusando o Estado de falhar na proteção dos cidadãos e afirmando existir um sentimento de insegurança ignorado pela classe política. Insistiu que o sistema judicial é lento e permissivo e que um Presidente da República não pode ficar em silêncio perante o que considera ser uma falha estrutural do Estado.

António José Seguro respondeu com um tom mais contido, defendendo que a segurança se constrói com políticas públicas consistentes e não com discursos de medo. Sublinhou que o Presidente da República deve respeitar a separação de poderes e não interferir no funcionamento da justiça, defendendo o reforço das instituições e a confiança no Estado de direito democrático.

O ambiente do debate manteve-se tenso até ao final, com constantes interrupções e trocas diretas. Ventura manteve uma postura de ataque, procurando fragilizar o percurso político do adversário e reforçar a ideia de que Seguro representa a continuidade de um sistema esgotado. Já Seguro optou por não responder a todas as provocações, regressando à ideia de estabilidade, compromisso e respeito pelas instituições.

Nos minutos finais, ambos deixaram uma última mensagem aos eleitores. Ventura apelou ao voto como forma de rutura com o sistema político atual, afirmando que o país precisa de uma mudança profunda e de um Presidente que “não tenha medo de enfrentar o poder”. Seguro voltou a insistir na importância de um Presidente que una os portugueses, defendendo que o cargo exige ponderação, responsabilidade e capacidade de diálogo num contexto político cada vez mais fragmentado.

O debate terminou sem aproximações evidentes entre os candidatos, deixando claras duas formas opostas de encarar o cargo de Presidente da República. Mais do que um confronto de propostas detalhadas, o frente-a-frente refletiu a atual divisão política do país, com os eleitores chamados a escolher entre um discurso de rutura e confronto e uma visão assente na mediação e na estabilidade democrática.

Texto: David Silveira