Resoluções de Ano Novo

Resoluções de Ano Novo

Todos os anos, por todo o mundo, as pessoas definem as suas resoluções de Ano Novo, sejam estas de carácter de mudança ou de melhorias pessoais (sendo as mais relatadas nas áreas de dieta e exercício físico). Estas resoluções são tipicamente criadas no primeiro dia do ano por várias razões psicológicas. As datas de início, seja de ano, mês ou semana, funcionam como “marcos temporais salientes”, que ativam gatilhos mentais para motivar comportamentos aspiracionais (Dai et al., 2014; Dickson et al., 2021). 

​Estes marcos, além de “redefinir” mentalmente o tempo, impactam a própria identidade, destacando um novo começo que deixa para trás erros do passado e abre espaço para o novo “eu”. Esta sensação de ponto de partida impulsiona a adoção de novos objetivos e mudanças que são, geralmente, muito gerais e abstratas (Dai et al., 2014; Dickson et al., 2021).

Por isso, no ponto de vista comportamental, este padrão do Ano Novo pode ser explicado através de dois processos: o distanciamento psicológico do passado (permite que a pessoa se veja como diferente e mais aberta a recomeços) e o foco em metas aspiracionais e visão “macro” da vida (incentivam um modo de pensar de “alto nível”). Criam-se então as condições para o que se intitula “fresh start effect” (Dai et al., 2014).

Simultaneamente, o início de um novo ano é frequentemente marcado por uma pressão social e cultural significativa no sentido da mudança e da melhoria pessoal. As normas sociais estabelecem expectativas implícitas e explícitas de que os indivíduos devem procurar tornar-se “melhores versões de si mesmos”, o que promove a formulação de resoluções de Ano Novo. Este fenómeno pode ser explicado pelos processos de conformidade e de influência social, que, segundo Cialdini e Goldstein (2004), refletem a necessidade de pertença e aceitação, conduzindo as pessoas a alinhar os seus comportamentos com aquilo que é socialmente valorizado.

A dimensão cultural desempenha igualmente um papel crucial na forma como as resoluções são encaradas. Markus e Kitayama (2010) defendem que a perceção do “eu” é moldada culturalmente, influenciando a forma como os indivíduos definem e alcançam as metas pessoais. Em culturas mais coletivistas, as resoluções tendem a estar associadas a compromissos interpessoais e comunitários, enquanto em culturas individualistas predomina a ênfase na autorrealização. Assim, observa-se uma continuidade histórica entre práticas ancestrais de renovação espiritual e os atuais discursos de marketing que incentivam a mudança pessoal no início de cada ano (Markus & Kitayama, 2010).

Apesar da sua popularidade, a taxa de sucesso na manutenção de resoluções de Ano Novo é relativamente baixa. Norcross et al., (2002) verificaram que apenas uma pequena percentagem de indivíduos mantém os objetivos definidos a longo prazo. Contudo, mesmo quando as metas não são plenamente atingidas, o processo pode ter efeitos positivos. Oscarsson et al., (2020) demonstraram que a simples formulação de objetivos promove uma maior clareza nas prioridades pessoais e potencia um aumento temporário da motivação, o que pode ser considerado um ganho relevante em termos psicológicos.

Por outro lado, importa reconhecer os efeitos negativos do incumprimento das resoluções. A incapacidade de sustentar compromissos pode estar associada à frustração, diminuição da autoeficácia e impacto negativo no bem-estar (Norcross et al., 2002; Oscarsson et al., 2020). Neste sentido, Seligman (2011) sublinha a importância de interpretar o fracasso como parte natural do processo de aprendizagem, reforçando a ideia de que a resiliência desempenha um papel fundamental no desenvolvimento pessoal.

No início de cada ano, muitas pessoas elaboram listas extensas de metas, mas frequentemente acabam sobrecarregadas e desmotivadas, abandonando os seus objetivos rapidamente. Uma abordagem eficaz para contornar esta dificuldade é promover hábitos saudáveis de forma gradual e prazerosa, escolhendo atividades que proporcionem satisfação, vinculando os hábitos a rotinas já existentes, utilizando lembretes visuais e valorizando cada progresso alcançado, por menor que seja (Brock, 2025).

A definição clara de objetivos funciona como uma bússola que orienta pensamentos e ações, facilitando a concretização das metas (Epton et al., 2017). Evidências empíricas indicam que metas bem estruturadas favorecem o desempenho humano e o funcionamento adaptativo (Locke & Latham, 2019). Uma das ferramentas mais reconhecidas para estruturar objetivos é o modelo SMART, amplamente utilizado em contextos educativos, organizacionais e em intervenções práticas (Pietsch et al., 2024). Este modelo sugere que os objetivos devem ser:

• Específicos (Specific): claramente definidos, sem ambiguidades.

• Mensuráveis (Measurable): acompanhados de indicadores que permitam avaliar o progresso.

• Alcançáveis (Achievable): viáveis com os recursos disponíveis.

• Relevantes (Relevant): significativos e alinhados com necessidades e prioridades pessoais.

• Temporais (Timed): delimitados por um período definido.

A aplicação do modelo SMART tem demonstrado benefícios concretos, aumentando a probabilidade de concretização de metas, a satisfação de necessidades e promovendo maior afeto positivo (Bahmari et al., 2022). Além disso, os resultados parecem independentes do tipo de meta – académica, social, de saúde ou de desenvolvimento pessoal – indicando que esta abordagem é eficaz em diferentes domínios da vida.

Em suma, as resoluções de Ano Novo constituem fenómenos psicológicos, sociais e culturais, sustentados pela perceção de um novo começo. Apesar das dificuldades na sua manutenção, a definição de metas pode promover motivação, clareza e sentido de direção. Assim, a adoção de estratégias realistas, estruturadas e consistentes (como o modelo SMART) pode transformar este ritual anual numa oportunidade concreta de desenvolvimento pessoal e proporcionar um bem-estar duradouro.

Referências Bibliográficas

Bahrami, Z., Heidari, A., & Cranney, J. (2022). Applying SMART Goal intervention leads to greater goal attainment, need satisfaction and positive affect. International Journal of Mental Health Promotion, 24(6), 869–882. https://doi.org/10.32604/ijmhp.2022.018954

Brock, S. (2025, janeiro 24). Practice of the month: Create and maintain your new healthy habit. Stanford Lifestyle Medicine. https://longevity.stanford.edu/lifestyle/2025/01/24/practice-of-the-month-create-and-maintain-your-new-healthy-habit/

Cialdini, R. B., & Goldstein, N. J. (2004). Social influence: Compliance and conformity. Annual Review of Psychology, 55(1), 591–621. https://doi.org/10.1146/annurev.psych.55.090902.142015

Dai, H., Milkman, K. L., & Riis, J. (2014). The Fresh Start Effect: Temporal Landmarks Motivate Aspirational Behavior. Management Science, 60(10), 2563–2582. https://doi.org/10.1287/mnsc.2014.1901

Dickson, J. M., Moberly, N. J., Preece, D., Dodd, A., & Huntley, C. D. (2021). Self-Regulatory Goal Motivational Processes in Sustained New Year Resolution Pursuit and Mental Wellbeing. International Journal of Environmental Research and Public Health, 18(6), 3084. https://doi.org/10.3390/ijerph18063084

Epton, T., Currie, S., & Armitage, C. J. (2017). Unique effects of setting goals on behavior change: Systematic review and meta-analysis. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 85(12), 1182–1198. https://doi.org/10.1037/ccp0000260

Locke, E. A., & Latham, G. P. (2019). The development of goal setting theory: A half century retrospective. Motivation Science, 5(2), 93–105. https://doi.org/10.1037/mot0000127

Markus, H. R., & Kitayama, S. (2010). Cultures and selves: A cycle of mutual constitution. Perspectives on Psychological Science, 5(4), 420–430. https://doi.org/10.1177/1745691610375557

Norcross, J. C., Mrykalo, M. S., & Blagys, M. D. (2002). Auld lang syne: Success predictors, change processes, and self-reported outcomes of New Year’s resolvers and nonresolvers. Journal of Clinical Psychology, 58(4), 397–405. https://doi.org/10.1002/jclp.1151

Oscarsson, M., Carlbring, P., Andersson, G., & Rozental, A. (2020). A large-scale experiment on New Year’s resolutions: Approach-oriented goals are more successful than avoidance-oriented goals. PLOS ONE, 15(12), e0234097. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0234097

Pietsch, S., Riddell, H., Semmler, C., Ntoumanis, N., & Gucciardi, D. F. (2024). SMART goals are no more effective for creative performance than do-your-best goals or non-specific, exploratory “open goals”. Educational Psychology, 44(9–10), 946–962. https://doi.org/10.1080/01443410.2024.2420818

Seligman, M. E. P. (2011). Flourish: A visionary new understanding of happiness and well-being. Free Press.

Autoria: NUPSI