DENTRO DA CORRENTE

DENTRO DA CORRENTE

A vida é uma dança incerta entre o presente e o desconhecido. Muitas vezes, deixamo-nos enredar num labirinto de emoções, à procura de um fio condutor no caos da existência. O tempo escapa inevitavelmente, célere e impiedoso, como um moinho que nunca se detém. A nossa passagem pelo mundo é efémera, um sopro que nos impele à urgência, à intensidade, à entrega plena. Corremos em busca de sonhos, mas tantas vezes adiamos, iludidos pela falsa certeza de que o amanhã nos pertence. E se não pertencer? E se o tempo não conceder tréguas? Vivemos na ilusão de que há tempo para tudo. 

Perder a noção do tempo. O propósito de vida. Descoberta. Caça ao tesouro. Sem saber que estrelas estamos a olhar e o que há para lá da atmosfera. Esperamos pelo momento oportuno, pelo alinhamento perfeito das circunstâncias, esquecendo-nos de que o único instante garantido é o agora.

O futuro é uma promessa incerta, e o passado, uma memória fugaz. Por que não atravessamos aquela fronteira sem receios? Por que não enchemos a nossa bagagem de coragem e determinação? Queremos, ingenuamente, que tudo seja conforme os nossos planos, que os sonhos repousam pacientemente num horizonte seguro, mas negligenciamos a verdade essencial: o erro maior reside em não vivermos plenamente o presente. Às vezes, é preciso um beliscar, um arrepio na espinha, um frio na barriga. A adrenalina faz-nos sentir ar por dentro. A ânsia de viver pode ser tanto um erro como uma libertação. Afinal, ignoramos o dia de amanhã. O fim do início e o início do fim não são mais do que pontos de passagem.

Acordar e atravessar a fronteira do país sem mentalizar. Uma mochila com ar, com a vida que achamos que planeamos e com todos os sonhos guardados, sempre num futuro e nunca no presente. Perdemo-nos a desejar o que nos escapa, a ansiar por horizontes que parecem inalcançáveis. Mas é no agora que os sonhos começam a ganhar forma, é no presente que os moldamos com as nossas próprias mãos.

E quando tudo se resumir a um instante, que nos reste um coração leve, carregado apenas do essencial. Que nos falte tudo, mas que nunca nos falte a memória. A memória dos momentos vividos com intensidade, das experiências que nos fizeram sentir, respirar, existir. Porque jamais voltaremos a sentir o toque do vento daquele momento, o arrepio daquela emoção, o pulsar exato desse segundo que já se foi. A vida não nos espera, não nos pertence, é um rio que nos leva. E talvez o único poder que tenhamos seja escolher como fluir com ela.

Beatriz Parada